18 de fevereiro de 2014

Os meus olhos pretos





Os meus olhos sempre foram pretos. Se a luz incide sobre eles, as pupilas se contraem tímidas e ingênuas. Nunca encontrei brilho nesse lugar. Eles são como uma caverna escura a guardar o mistério. Numa determinada época eu pensei que eles pudessem ser olhos tristes, mesmo sem me sentir assim. Talvez a tristeza estivesse bem lá no fundo, ou talvez nem fosse minha. Poderiam ser olhos herdados. O que se herda nem sempre é conhecido. Não posso culpar os meus genes, pois nada é meu senão por merecimento. Nem todo merecer é satisfatório, às vezes, ele é compulsório.

Os olhos pretos podem conter algo que não querem mostrar. Todos os segredos estão no escuro. Onde há luz existe compreensão, enquanto na escuridão o mistério insiste em se esconder. Tenho algo a me acompanhar sem que eu compreenda. Porque sou muitos em um só corpo. Tenho partes que ainda não foram descobertas. O velado não se compreende. O conhecido pede reflexão, sem a qual não há o alcance de si mesmo.

Eu gostaria de ter olhos caleidoscópicos com nuances coloridas e de complexidade luminosa. Queria poder enxergar por diversos ângulos e assistir ao espetáculo da miragem. Contudo, os sonhos são para poucos. Talvez só para os buscadores de ilusão. De certo modo, eu me contento com o que tenho, porque sei que o escuro pode se perfazer em luz, mesmo que seja por um momento bruxuleante. Esses são os olhos dos buscadores espirituais.

Na adolescência eu sonhava em ter olhos coloridos, achava-os bonitos e com bondade. Hoje, eu vejo os feios com olhos de diversas cores. Será que a cor pode mudar a qualidade de uma pessoa? Nem todos os olhos verdes possuem bons ouvidos. Nem todos os olhos castanhos claros tem sabedoria da caminhada. Nem todos os olhos azuis tem pernas fortes. Porque nenhum desequilíbrio fica impune. As falácias justificatórias não são suficientes para colocar alguém no bom destino.

Os cabelos brancos e a presbiopia nos ensinam muito sobre a resignação do olhar. Ainda tenho muito que aprender a ver. O que me pacifica é que a vida sempre se encarrega de ensinar. Isso é o que me propicia me organizar num sentido mais claro para mim mesmo.

Ainda não tenho aro senil. Penso como será tê-los? Já não sou tão jovem de ignorância, nem tão velho de sabedoria. Estou nas cercanias de minha temporalidade. O corpo tem data de validade. Então, como serão os meus olhos no futuro? Ainda pretos? Os meus cabelos já ficaram brancos e finos. Antes, eles eram crespos e pretos. Será que os olhos dos velhos se tornam brancos quando eles perdem a capacidade de enxergar? Eu não quero deixar de ver o que me toca, de sentir o que me enternece. Quero continuar renovando a força de meu espírito mantendo o meu coração puro.

Se eu não tenho olhos brilhantes é porque não mereço tê-los. Será que a minha vida seria diferente se eu os tivesse? Já vi olhos castanhos claros chorarem, olhos azuis em desespero, olhos verdes deprimidos. Cada um tem no olhar uma história para contar. Cada um tem um corpo próprio. Cada um tem um corpo e uma reclamação.


O corpo nunca se engana. Ele é o que é para nos incentivar a caminhar na estrada certa. A espiritualidade é o encontro com o Eu profundo. Todos nós temos uma tendência ao encontro com o centro. Tudo nos leva a Deus, o Uno, ao centro de nós mesmos. Como afirma mestre Eckhart: “O mesmo olho que vejo Deus, Deus me vê”. O que está fora é o que se encontra dentro. É preciso bons olhos para ver o sagrado. Quero tê-los para ver o mundo mais claro, radiante e brilhante. Posso ter olhos pretos e um coração repleto de luz.


4 de novembro de 2013

A incerteza de toda história

Nem tudo que cai é chuva.
Nem tudo que voa é vento.
Nem tudo que se pisa é terra.
Nem tudo que brilha é sol.
 
A única certeza é que não temos como escapar dos fragmentos incertos de nossa história pessoal. Se pudéssemos compreender tudo, não erraríamos jamais. O problema é e sempre será a nossa ignorância. Somos ignorantes porque não nascemos prontos. Estamos em acabamento. Porventura a morte extermine a ignorância.  Quem sabe se a morte anunciará a compreensão que tudo - aquilo que não podemos mais tocar, cheirar, ouvir, ver – nada mais é do que algo libertador? Eu penso que em decorrência da morte só nos restará a paisagem da nossa mente individual. Nela, poderemos nos regozijar. Pois não haverá mais dúvidas. Mesmo assim, isso é só uma conjectura, nada mais.
Terminei de ler o livro “Por que o mundo existe?” de Jim Holt. Ele questiona: “Por que existe algo e não apenas o nada?”. Na verdade essa pergunta é do filósofo Martin Heidegger, mas Holt busca a resposta. Obviamente que ele não a encontra, só suposições de pessoas com as quais ele se relaciona para responder a questão. De qualquer modo, o livro é uma boa aventura, tanto que eu terminei de lê-lo hoje. O que eu achei interessante é que ele termina o livro com uma resposta de um monge budista entrevistado num programa televisivo. Ele escreve:

“O que é o universo, afinal de contas? Não é naturalmente o nada. Mas é algo muito próximo: um vazio – une vacuité. As coisas não têm de fato a solidez que lhes atribuímos. O mundo é como um sonho, uma ilusão. Todavia, em nosso pensamento transformamos sua fluidez em algo fixo e de aparência sólida.”

No sábado eu estive num almoço na casa de meu irmão com as minhas primas que há 15 anos não via. Saí cedo e viajei quase 60 km. O dia estava incrível. O verde cintilava em contraste com o azul límpido do céu. Era um dia após uma semana inteira de muita chuva. Na viagem não deixei de me sentir bem ao ver o movimento do vento a mover as copas das mangueiras. A estrada é repleta de mangueiras centenárias. Desde a minha infância elas se tornaram testemunhas de minha admiração. Lembro-me de uma em especial que ficava numa curva da estrada. Ali, muitas mulheres vendiam mangas, e o meu pai sempre parava o carro para comprar mangas carlotinhas. Aquela lembrança me tomava por inteiro, eu chegava a sentir o cheiro e gosto da manga, sem falar nas mãos embebidas de caldo escorrido. Isso só era lembrança, construída no vazio da realidade.
Chegando ao encontro avistei a primeira prima, nos abraçamos e ela foi logo me convidando para uma festa na casa dela no próximo mês. Obviamente que ela estava excitada com o encontro e por sua característica ansiosa não conseguia permanecer no momento presente. Queria marcar outros encontros, para que seus outros irmãos e a mãe dela, minha tia, que não puderam comparecer ao almoço tivessem a boa sensação do reencontro. Ela não conseguia deixar de falar sobre novos encontros, viagens juntos: "Temos de marcar", ela afirmava com veemência. 
As outras primas chegaram bem depois. Foi emocionante ver um pedaço de minha história escondido naquelas pessoas. Assim que todos sentaram para almoçar, eu comecei a falar como um doido, num discurso irrefreável sobre a minha história após os 15 anos de distância. Também estava excitado, tanto que comecei a suar. Queria em pouco tempo dizer quem eu era agora. Infelizmente, as pessoas não falam de si, elas procuram as novidades da mídia, ou mesmo fatos em torno de algo impessoal. Eu insisti, mas logo percebi que não deveria ser um chato. Até mesmo porque havia pessoas ali que não compactuavam com a nossa história. Então, falei um pouco de minha mãe, e elas começaram a falar da família, trazendo o passado de um lugar muito distante, a história de nossos avós. Eu não conhecia aquelas histórias. Eu não sabia, por exemplo, que o meu avô tinha um livro onde anotava sobre os filhos e netos. Também não sabia sobre o sobrenome italiano de minha avó, nem tampouco que existe uma cidade com o sobrenome da família. Eu nem perguntei onde se localizava essa cidade, aqui no Brasil ou na Itália. Estava imerso em emoção apenas.
E as histórias foram tomando um rumo indescritível que eu não conseguia acompanhar, eu não fazia parte, me senti distante, como sempre acontece em relacionamento social. Não que eu não gostasse da família, pelo contrário, eu sempre gostei de minhas primas. Na infância e adolescência sempre ia para casa de meus tios. Pelo fato de elas serem um pouco mais velhas do que eu, tinha a chancela de sair com elas à noite. Sentia a sensação de que era coisa boa aquele passado, sem saber o que fazíamos na realidade. Minha memória não dava conta de saber.
Meu irmão sabia mais das histórias do que eu. Então pensei, a minha memória está falha ou eu deletei acontecimentos. Quais são os acontecimentos de minha vida que eu não deletei? Quais que eu tenho certeza de que existiram de fato? Logo percebi que eu não podia responder as minhas perguntas com certeza, pois a memória falhava. Tentava conseguir acesso, mas sem êxito. A memória é formada por interesses próprios de cada indivíduo. Eu estava à deriva de minha história familiar. Será que as pessoas criavam histórias para elas mesmas? Eu penso que sim. Será que eu havia me perdido de minha família? Eu acredito que sim. Isso me deixou com um vazio existencial.
Às vezes nós esquecemos o passado; outras vezes, nós o distorcemos. A memória não é nunca confiável. Existirá sempre um lacuna para a nossa história. Se nós quisermos acreditar em algo mais concreto, temos de nos relacionarmos. Se não for assim não conseguimos construir verdadeiramente uma história familiar. Pois, a memória é relacionamento, associação. Se não fizermos assim, construiremos solitariamente algo a nos descrever, sem ser verdadeiro.
Se existe algo, por que não poderia existir apenas o nada?        

23 de setembro de 2013

Cagando e andando




A chuva cai, enquanto eu me recupero de uma diarreia sorrateira. Ora ela surge, ora não. Tenho uma certa dificuldade em saber o seu destino. Não sei até quando ela durará. Obviamente, eu quero que ela se despeça de mim, mas sei também que o meu organismo tem o próprio tempo. Ele é uma entidade autônoma. Apesar de eu sofrer com as cólicas, sei que o meu corpo se organiza de alguma maneira. Como ele faz isso, eu não posso afirmar. A fisiologia deve ser questionada sempre. Essa lenga-lenga de virose não cabe mais. Estamos atravessando uma época em que as hegemonias estão caindo por terra. Não podemos dar trela à interpretoses furadas. Se estou sendo rude, é pelo fato de eu estar com diarreia, e o meu intestino pensar por mim.

Certa vez, uma paciente disse a mim: “Não podemos controlar o próprio intestino e queremos controlar o mundo”. De fato, nós queremos ter controle sobre todas as situações em nossas vidas. Queremos saber sobre o nosso destino, e o que conseguimos é somente arrumar justificativas coerentes. Aquelas que nos satisfazem. Ficamos felizes com migalhas. É importante pensar que não sabemos o porquê dos acontecimentos. Eles acontecem, e pronto.

Eu só quero acreditar que a chuva lave a lama que eu mesmo criei, por intermédio de meus pensamentos não conscientes. Eu ainda creio assim, mas não deixo de duvidar. Se eu não duvidar não vou adiante. Segundo George Lakoff, em seu livro “Philosophy in the flesh”, 95% de nossos pensamentos são inconscientes (eu não sei como ele chegou a esse número). Lakoff não se refere ao inconsciente de Freud, mas ao inconsciente cognitivo. Seria melhor ele ter utilizado o termo “Não-Consciente”, porque assim não confundiria com a tese de Freud, na qual o inconsciente é o reprimido. O autor deixa claro que ele não se refere ao trabalho de Freud, e sim às ciências cognitivas. 

Bem, o que quero escrever aqui é que temos respostas orgânicas baseadas em nossos pensamentos, que quase nunca são conscientes. Todo o tempo as células estão bisbilhotando os nossos pensamentos. Para Lakoff, a mente é incorporada. O que o pensamento pensa é o que o corpo reflete. Isso não é prerrogativa fácil. Segundo o autor, temos em nós os padrões de crenças e metáforas incorporadas, ou seja, elas fazem parte de nós, sem que nós possamos dar conta disso. Sendo assim, posso dizer que estou “cagando para algo”. Talvez, seja aquilo que venho lendo e não concordo. Mesmo assim, preciso levar em consideração, pois para aprender temos de abaixar a cabeça para depois sair cagando e andando. Isso é uma metáfora corporificada, talvez.  

Se eu perguntar o que você sente, talvez você me responda com um pouco de suspeita, e se pergunte: “O que eu sinto?”. Sim, quero que você reflita sobre o que você sente agora neste momento em que lê essas palavras. Porventura você poderia deixar de ser um Voyeur e escrever um comentário logo abaixo. Quero interagir com você.

A pergunta pode parecer simples, mas o caminho do pensamento e do sentimento são diferentes. Nem sempre conseguimos coadunar ambos. Mesmo porque a nossa cultura preconiza que a razão é mais importante do que a emoção. Não existe uma coisa sem a outra. Hoje sabemos que a emoção pinta o cenário de nossas decisões racionais. Se não fosse assim a vida não teria nenhuma graça. São as emoções que dão roupagens aos nossos personagens. E, como criamos vários personagens para estarem em nossa história cotidiana, acabamos equivocados sobre várias coisas. Precisamos nos contentar com as nossas limitações. Elas nos propiciam a incerteza.

Tenho utilizado uma espécie de koan zen-budista para que as pessoas se desidentifiquem com os seus papéis: “O que você foi antes de ter sido alguém?”. Um koan não é para se ter uma resposta, mas sim para criar algo sem pensamento. Uma espécie de embuste cognitivo.     

Eu não posso dizer que eu me senti mal por um acontecimento ou outro, mas posso dizer que algo estranho não foi bem elaborado. Quando o meu corpo se manifesta por sintomas sei que alguma mudança está ocorrendo. Eu só sei que preciso aguardar. Não posso me preocupar, porque assim os sintomas poderão ser piores. O sofrimento é por causa de resistências.

Posso argumentar por diversos caminhos. No fundo, sei que nada sei. Tudo é interpretação. É, portanto, a hermenêutica a nos dar sentido, sem sabermos o porquê de várias coisas. Como já disse antes, estou lendo outro livro chamado “Por que o mundo existe?”. Estou impressionado como as pessoas são sedentas em saber das coisas que não conseguirão saber. Tudo bem, é assim que caminha a ciência. Não tenho dúvida disso. Mas, não deixo de ficar descontente com o fanatismo dos novos ateístas, os cientistas fanáticos de plantão. Não me refiro ao autor do livro, porque ele só está a questionar sobre o tema. Porém, no livro existem opiniões de sobra sobre se Deus existe ou não, se o Big Bang é uma realidade, e assim por diante.

Estou escutando agora a ária “vesti la giubba”, da ópera “I Pagliaccio”, de Ruggero Leoncavallo.  Enfim, abaixo a tradução da ária:

Recitar! Enquanto tomado pelo delírio
Não sei mais aquilo que digo e aquilo que faço!
Todavia é necessário! Esforça-te! vai!
Ora, és tu talvez um homem?

Tu és palhaço!

Veste o casaco e a cara enfarinha.
O povo paga e quer rir aqui.

E se arlequim te rouba a colombina,
Ria palhaço e cada um aplaudirá.
Muda em piadas o espasmo e o choro,
Numa careta o soluço e a dor.

Ria, palhaço, sobre o teu amor partido.
Ria da dor que te envenena o coração!

Eu sempre me emociono ao ouvi-la. Mas, hoje, ela passa a ter um sentido diferente. Porventura seja pelo estado de meu intestino. Acredito que saber o que nos força o entendimento não é saber, mas construir teorias satisfatórias ao ego que não suporta não ter razão.

Somos o palhaço que tem de rir da dor que envenena o nosso coração.


16 de setembro de 2013

Relacionar-se em dias ensolarados




Estou me tornando um colecionador de festas de aniversário de 80 anos. No último sábado estive na quinta festa. Estou tão próximo da história de vida das pessoas que atendo que a minha presença acaba por se tornar fundamental. Tenho orgulho do meu currículo de festas de 80 anos. Elas são mais importantes do que o meu curriculum vitae, que hoje em dia não faz diferença o que fiz ou deixei de fazer. Também já sou velho. Ao estar mais velho valorizo mais a divisão. Quando jovem eu valorizava a soma. Lembro-me de meu contentamento ao ter mais um item para colocar no currículo. Acreditava que os itens fossem abrir espaços profissionais. Entretanto, nunca precisei apresentar um currículo. As portas sempre se abriram pelo conhecimento e o modo de me relacionar com as pessoas. Se soubermos nos relacionar bem com as pessoas sempre teremos um lugar.

O interessante nisso tudo é que não gosto de estar em eventos sociais. Eu não sou o tipo de pessoa que quer frequentar festas. Porém, eu vou nas festas de oitenta porque sei o quanto é importante essa marco na história das pessoas. Elas confirmam a passagem do tempo linear e admitem estar vivas. Não posso negar um convite tão honroso, principalmente porque sei o que isso significa. É um reconhecimento de toda uma existência de luta e vitória.

Estar presente nessas festas é muito interessante para mim, pois conheço os personagens das histórias que são contadas apenas no consultório. Como observador de corpos aprendo a entender mais sobre a história das pessoas. Porque uma história se perfaz pelas relações.

Estou lendo um livro interessante: “Por que o mundo existe?” de Jim Holt. Ele escreve:

“Leibniz afirmava que o espaço não é uma coisa em si mesma, mas apenas uma rede de relações entre as coisas. O espaço não pode existir à parte do que está a ele relacionado”

Eu compactuo com esse pensamento. Eu também tenho a minha história e não deixo de me perceber pensando nos meus fragmentos de outrora.

O sábado foi um dia tranquilo e agradável. A festa foi numa casa encrustada na montanha. O céu era de um azul de brigadeiro, como os mais velhos diziam por lá. Foi um dia de beleza exemplar. Com todo o conforto, não consegui conter a memória de infância quando ia com os meus pais para o interior de Minas Gerais para os aniversários dos velhos da família de minha mãe.

Não queria comparar, porque não é bom comparar eventos de nossa história. Porém, não me contive. Acabei por me lembrar de uma festa de aniversário da tia de minha mãe. Quando chegamos lá, fazia um calor insuportável, e o que tinha para o almoço de comemoração era um tatu assado. Eu não queria comer algo tão esquisito. O bicho vinha servido inteiro, aberto no centro como um corpo em procedimento de autópsia. A cachaça não faltava nessas ocasiões. O tio de minha mãe mostrava a garrucha a qual matou o indefeso bicho. Orgulhoso, ele queria me ensinar a manuseá-la. Obviamente que para uma criança isso era bastante interessante. Ele dizia que para caçar tatu era preciso usar uma lanterna, pois o bicho notívago podia ser cegado com o feixe de luz quando direcionado diretamente no olho.

Mesmo com toda a explicação metodológica, eu não comi o bicho. Meu pai achava que o meu comportamento era de orgulho. Dizia que eu deveria ser mais simples, porque assim eu seria uma pessoa melhor. Mesmo assim, ele não conseguiu me convencer. De fato, nunca fui uma pessoa simples. Ainda hoje me lembro de várias ocasiões em que meu pai insistia com a sua prerrogativa de simplicidade como sinônimo de humildade.

Atualmente eu sei que os dois conceitos podem andar juntos, mas não significam a mesma coisa. Isso demorou muito, mas só consegui entender ao me relacionar com pessoas simples sem nenhuma humildade. Como também pude conhecer pessoas complexas bastante humildes. Assumi que sou uma pessoa complexa, com pensamentos complexos. A complexidade não significa algo ruim, pelo contrário, ela fornece um argumento sempre relativo às questões que se apresentam. Vivo bem assim, porque aceito a minha natureza.

Porém, ainda é difícil estar em relação. No sábado, por exemplo, mesmo tudo se desenrolando bem, eu não deixei de refletir sobre o ambiente em que eu estava. Por isso, prefiro os meus finais de semana comigo mesmo. Não consigo deixar de lado os meus radares de observação. Eles estão tão arraigados que abandoná-los seria deixar à deriva a mim mesmo. Sendo essa opção inconcebível, para eu estar em relação é preciso exercitar a minha presença na presença do outro. Eu sempre estou onde me coloco, inteiramente. Isso se tornou um exercício o qual pratico há anos.

Em reuniões sociais costumo proceder assim:

1.     Nunca deixo de perceber o meu próprio corpo. Observo todos os movimentos dele e suas nuances. Isso me dá a capacidade de estar presente e saber como agir;

2.      O que eu falo deve ser ouvido por mim mesmo, com atenção;

3.   Sempre observo a expressão do ouvinte. Isso me ajuda saber se não estou sendo um chato de plantão. Não quero ser desagradável no meu espaço da relação. Até mesmo porque o que eu gosto de conversar não é o que a maioria das pessoas em uma reunião social está acostumada. As pessoas curtem trivialidades. Eu sei me comportar, mas se eu não prestar atenção acabo descambando para uma conversa mais “cabeça”, como as minhas filhas costumam me alertar;

4.  Não me afasto nem um minuto de meus sentimentos. Para mim, sentir é fundamental em todas as circunstâncias. Assim, eu posso saber o quanto a experiência é satisfatória ou não. Aprendi a ser um colecionador de imagens mentais satisfatórias. Eu recuso tudo o que não me traz satisfação, mesmo que eu precise praticar isso silenciosamente. A vida é muito curta para eu desperdiçar o meu tempo com momentos inadequados a mim;

5.  Sempre acredito que posso aprender algo novo com as pessoas que não conheço. Portanto, não julgo ninguém. Isso favorece o meu autoconhecimento, aprender comigo mesmo através do outro é o mais importante;

6.    Perceber os momentos de pausa entre um discurso e outro deve ser avaliado. Nesse hiato tenho como avaliar o movimento da relação. Se alguém está à minha frente é porque ela tem algo a me dizer. As pessoas são o que elas são, e pronto;

7.     Sempre ser generoso. A generosidade acontece quando destituímos o ego. Evitar usar expressões como: “Eu faço...”, “Eu sou...”, “A minha...”, “O meu...”. O espaço relacional é um espaço de troca mútua, portanto, é um lugar onde trafegamos em conjunto, não individualmente.


Bem, essas são algumas regras que eu utilizo para mim mesmo, para estar bem comigo e com os outros. Obviamente não deixo de perceber o quanto as pessoas estão alienadas no espaço de convivência. Elas se encontram em espaços solitários e virtualmente concebidos. Por isso, é preciso exercitar a humildade para continuar a aprender com a experiência vivida. 



9 de setembro de 2013

O que eu posso aprender com a vida dos outros?





Eu sempre acreditei que atender a pessoas mais velhas seria uma oportunidade inestimável, um constante ganho de experiências. Ainda continuo a pensar assim. O que mais me fascina é conhecer pessoas que conseguiram passar por situações difíceis, e mesmo assim continuarem. Acho fascinante presenciar essas histórias. Fico comovido porque eu sei que não tenho tanta coragem assim. Quando temos uma identificação com algo ou alguém é pelo fato de termos algo em comum, seja positivo ou negativo. Apesar de ter vivenciado muitas histórias, ainda sou imaturo com relação à vida. Eu me emociono com a coragem de viver de algumas pessoas. Eu não poderia ter um merecimento maior do que ser terapeuta de pessoas mais velhas que eu. 

Hoje foi descoberto um tumor no cérebro de uma de minhas personagens. Essa mulher já passou por diversas agruras na vida, e ela continua altiva e com fé. Tive a oportunidade de testemunhar não só um milagre, mas muitos, durante a nossa vivência terapêutica. As pessoas acreditam que milagre vem de fora, do auxílio de um ser divino que se encontra na nuvem mais próxima. Muitos acreditam que Deus está lá, a fim de ouvir as nossas lamentações infantis.  Ela me ensinou que não é bem assim. Hoje à tarde, após a notícia do tumor, pensei que se eu pudesse falar no funeral dela, eu diria: 
"Esta mulher foi a personificação da fé. Já atendi a padres, pastores, monges, freiras, mas nunca uma pessoa de verdadeira fé como ela". 

Muitos vivem bem, outros não tão bem. Mas só quem pode dar valor ao que se vive é a própria pessoa. Ninguém pode dizer o que é bom ou ruim para o outro. Existe uma expressão usada por muitos que me incomoda: "Você tem uma vida boa. Tem muita gente que sofre mais do que você". Ninguém pode vestir a pele do outro. Cada história é uma história intransferível.
                                                                                                                         
O legado de cada história que eu ouço só corrobora uma ideia: no final tudo sempre acaba bem. Isso me tranquiliza de alguma maneira. Já refleti se isso não é uma justificativa, pois somos sempre cheios delas. Mas, até hoje ainda consigo lograr uma hermenêutica plausível para a vida de quem eu trato.  Pode-se pensar que a morte é algo sem solução, mas o que eu aprendi é que a morte também tem uma lição implícita, aprenda quem puder. Todos conseguem se adaptar à morte. Se não for agora, será depois. Quando alguém diz que nunca conseguiu superar a morte de alguém, eu sei que isso é apenas uma justificativa para a pessoa estar num lugar de sofrimento e ganhos secundários. Escolhemos o lugar onde queremos estar. Tudo tem o seu porquê, basta refletir para alcançar uma compreensão.

As pessoas mais velhas são vencedoras. Uma vez disse isso a uma pessoa que atendo e ela retrucou: "Como posso ser vencedora se não acabou ainda?". Essa resposta me fez refletir, porém eu ainda acho que nós somos vencedores de um jeito ou de outro. Porque se a situação pela qual passamos foi difícil e ainda assim continuamos é porque vencemos. Não julgo, mas não deixo de achar que o suicídio é uma forma de covardia. 

Bem, eu percebo que eu envelheço muito rápido, porque os dias são efêmeros como nunca. Hoje já não sou tão jovem e ativo como no passado. Já consigo enxergar os mais jovens e suas inconsequentes escolhas. Tento entendê-las, pois já fui assim. Envelhecer nos dá um retrovisor com maior visibilidade. Hoje, conheço velhos com inveja dos mais jovens e outros condescendentes consigo mesmos. Eu não sou nem uma coisa nem outra. Eu ainda consigo relativizar os planos de existência, só não sei até quando.

Viver é estar constantemente se surpreendendo. Quem acha que sabe o que é certo está prestes a errar. Nunca vi tanta gente equivocada com relação a si mesma. E se vejo assim tenho de ter cautela comigo mesmo, porque o erro me habita sem que eu saiba. Todo cuidado é pouco com as minhas certezas. Por isso, a humildade do pensar é fundamental. Entretanto, eu não acredito também em minha total humildade. Sou muitos em um só. O meu ego se transveste de várias roupagens. O que eu sei é que as responsabilidades geram esforço. A vida provoca fragmentação. Portanto, o mais importante é conhecer as minhas limitações. Apesar de as pessoas mais velhas reforçarem a minha eterna juventude, eu sei que já não sou tão jovem como consigo me sentir e nem tampouco sou o velho como as pessoas não querem me ver. Isso ainda não é um problema para mim, mas até quando? Penso muito na minha velhice. Sei que as surpresas ocorrem, e preciso estar atento, sem me perder de vista.


A vida é um processo caótico em busca de uma organização. Tudo está certo. A história de vida de cada um é rascunhada e imiscuída por tantas situações que eu não posso me diluir nelas.


7 de setembro de 2013

Família






Semana passada ministrei uma palestra sobre “O envolvimento da família com a doença”. Gostaria de compartilhar aqui o resumo de minha exposição.

Entendo a família como um complexo cujos membros estão relacionados entre si. A família é como um móbile, uma vez que uma parte se mova as outras acompanharão o ritmo do movimento. Porque tudo está interligado e é interdependente. A família é definida pelo relacionamento entre as partes, em vez de pela soma das partes. Cada membro familiar é um hólon, isto é, uma totalidade indivisível. Portanto, a importância de se respeitar as diferenças. Nesse sentido, a família pode ser entendida como um organismo vivo complexo, com um sistema autorregulador a fim de preservar a homeodinâmica do sistema. Sempre que uma parte do sistema familiar estiver fora de equilíbrio, os outros membros do sistema tentarão equilibrá-lo.

Não existe equilíbrio estático, como muitos podem querer acreditar. Vivemos porque somos seres em movimento. A homeodinâmica é definida como um processo autorregulador que mantém o equilíbrio dinâmico, transacional, de um organismo. Quando sofre qualquer perturbação, os laços de retroalimentação operam a fim de reduzir ou ampliar qualquer desvio do estado de equilíbrio. Por isso, aprendi que viver é um constante pintar cenários, arrumar gavetas e caminhar no incerto.

A família constitui a unidade primária e estrutura nuclear do padrão social. Sendo assim, estar em relação é estar em ação, mudando a todo momento. E se tudo muda, não há como afirmar que podemos conhecer os filhos, os pais, ou qualquer pessoa. O que somos hoje não seremos assim tão semelhantes amanhã. Essa premissa nos ajuda a ser mais tolerantes e com menos expectativas. Com menos expectativas, mais chances de não nos frustrarmos.

Na palestra, foi abordado sobre a importância de entender que as palavras doença e saúde são singulares, porque se referem ao estado da pessoa em si, e não as partes do corpo ou órgãos. O mal-estar é estar mal no corpo, é estar fragmentado. Foi mostrado que durante a vida, as pessoas envelhecem e se fragmentam, principalmente ao resistirem ao fluxo natural da vida.

Ao longo da vida vamos nos fragmentando, seja pelas perdas, frustrações, preocupações, conflitos relacionais, seja pela incapacidade de aceitar o que se mostra como desafio. Viver é ser desafiado constantemente. Tudo depende de como encaramos os acontecimentos. Uma realidade é realidade para um único olhar.

Mesmo depois da fragmentação ainda existe a capacidade de resiliência, um resgate do equilíbrio coletivo.

Como as pessoas se fragmentam? Pela alteração do fluxo da bioenergia. Alguns comportamentos como o controle, a preocupação, o conflito relacional, são evidentes em processos de fragmentação. Esses comportamentos bloqueiam a espontaneidade da vida. Citando mestre Eckhart: “Deus é a unidade e a pureza, e estas decorrem do desprendimento”.  O controle é rolar contra o fluxo natural da vida, é a resistência, e, portanto, sofrimento.

Para esclarecer sobre um pensamento recorrente equivocado, o qual as pessoas ainda insistem acreditar, foi mostrado que a velhice não é sinônimo de doença. O sistema biológico se torna mais vulnerável nessa fase da vida porque a vulnerabilidade não é somente física, e sim também psicossocial.

Qual o maior temor da velhice? A dependência. Segundo pesquisas sobre o cuidado a situação é alarmante e preocupante, pois as famílias não estão organizadas o suficiente para função tão estressante. O estresse é propiciador de atitudes como raiva e culpa; impaciência e intolerância; acusações e agressividade; negligência e maltrato.

Todavia, o ato de cuidar de um familiar doente é uma oportunidade de resgate. Toda relação familiar é um convite a resgatar algo que se perdeu no tempo, porque os mais velhos são oportunidades para os mais novos reverem suas próprias histórias. E se o afeto é o que nos afeta, ele é um meio de transformar o que se foi um dia em algo maior, aqui no presente. Para isso, é necessário transcender o ego, o que não significa destruir o ego, mas sim, conectá-lo a alguma coisa maior.


A palestra foi finalizada mostrando que a espécie humana é dotada de um cérebro mais evoluído do que as outras espécies. Sendo assim, o humano tem a capacidade de consciência para refletir sobre suas próprias atitudes e escolher a paz e harmonia nas relações familiares. Reforçando que a consciência e o olhar atento ainda são a melhor saída para todos os conflitos familiares.

2 de setembro de 2013

Nunca se perca de vista








O corpo se desalinha ao darmos vazão as preocupações. Não tem jeito de ser de outra forma. O corpo é manifestação de todos os nossos pensamentos. Se queremos que ele entre em sintonia com a saúde temos de entender que não somos somente um corpo, ou pensamentos espalhados pelo nosso cenário mental, somos uma unidade. Desde muito tempo já sabemos disso, mas me parece que nos distanciamos cada vez mais dessa premissa. Vivemos num mundo no qual as pessoas acreditam que as situações só possuem explicações lógicas. O que não é verdade. Se fosse assim já teríamos a explicação sobre a verdadeira realidade. Ainda não sabemos o que ela é, ou se de fato ela existe. Eu penso que ela é apenas uma construção mental. Como diz o ditado: “Uma coisa vista por dois cérebros é considerada realidade, uma coisa vista apenas por um cérebro é alucinação”. Mesmo assim eu perguntaria: Qual dos dois cérebros está alucinando?

Hoje acordei pensando no dia que inicia. Ele me parece igual a todas as segundas-feiras, desde sempre. O sentimento do eterno retorno é exaustivo. Durante muito tempo exercitei não ter ilusão para me sentir mais pleno. De fato, consigo isso com mais facilidade. Uma das técnicas utilizadas foi estar no presente. Ao estarmos no presente percebemos melhor o que nos influencia. Deixamos de lado as injunções do passado ou mesmo do futuro. Precisamos ter referência no passado ou objetivar o futuro sem nos perder no presente, assim podemos estar mais atentos e vivos. Eu consigo isso, porém não significa que às vezes não me perca nos liames de influências não-conscientes. Elas me balançam a toda hora. Se eu consigo estar atento, sei que é só esperar um pouco mais para o meu caminho se abrir, e ele sempre se abre com novas perspectivas.

Hoje pela manhã recebi a ligação de uma pessoa que aguarda vaga para cirurgia. Ela estava aflita por tanto escutar opiniões de vizinhos, família, conhecidos. Ela não sabia o que fazer, apavorada por não conseguir operar a tempo e morrer. Eu disse a ela para entrar em contato com ela mesma, olhar suas emoções em perspectivas, pois o medo é uma barreira a impedir a visão clara. Ela se acalmou e uma hora depois me ligou com uma boa notícia. Ela havia falado com um advogado e eles entrarão com uma liminar para que ela seja operada em breve. Ela estava com a voz mais tranquila porque resolveu o problema.

As emoções são mescladas por acontecimentos passados. As emoções são primitivas e nos impedem de ver com clareza a nossa vida no presente. Sem clareza não conseguimos dar um passo rumo à resolução de nossos problemas. Ficamos chafurdados nas possibilidades, o que, normalmente, são piores do que são de fato.

O interessante é que a realidade se abre quando deixamos de resistir. O medo nos gera paralisia, nos leva a uma dimensão de paragem. Nada acontece no medo. Pelo contrário, no medo tomamos atitudes que a maior parte das vezes nos leva por caminhos que não queremos ir.

Se criamos a nossa existência, porque temos consciência para fazer isso, por que temos de criar algo negativo? Isso ocorre porque o nosso sistema de proteção precisa se angariar das piores possibilidades para estarmos melhor preparados. Tudo em prol da sobrevivência. O problema é que quando isso ocorre o corpo sofre, porque ele se contrai, e uma enorme quantidade de hormônios são liberadas fazendo com que os vários órgãos sejam penalizados.

Da próxima vez que você tiver um problema pense assim:

1.            Coloque os seus problemas em perspectiva. Saiba que você é maior do que eles. Não os deixe tomarem conta de você;
2.            Respire para estar no presente. Preste atenção redobrada no seu corpo. O seu corpo é a principal referência. Se você prestar atenção no aqui e agora, os fatos condicionados do passado e as preocupações infrutíferas do futuro, não poderão assolar o seu território presente;
3.            Tenha a humildade da espera. Saiba que muitos de nossos problemas estão envolvidos com o orgulho pessoal. O ego sempre nos arma armadilhas;
4.            Tenha a certeza de que você tem todos os recursos necessários para solucionar todos os problemas que aconteçam com você. Problemas sem solução deixam de ser problemas, porque já estão resolvidos;
5.            Tenha a certeza de que você tem mérito. Todos nascem com o necessário para solucionar o que seja preciso. Importante ressaltar que muitos dos seus problemas talvez não sejam seus, por isso sua incapacidade de resolvê-los. Problemas alheios são de responsabilidade de quem os tem.
6.            Confie na sua capacidade de mudança. Se hoje está ruim, aguarde mais um pouco. Pois, se a história não está boa é porque não terminou ainda.
7.            Nunca se esqueça de você. Em todas as situações difíceis saiba que o mais importante é você com você mesmo. Se você se perder de vista, nada sobra, muito menos você.