5 de novembro de 2012

Tédio





O tédio é estar num vazio aparentemente infinito. Num lugar do não fazer insignificante, em um estado indolente e angustiante. É como ter insônia; ficar entre o sono e a vigília; a manhã nunca chega, e a espera se torna rarefeita por si mesma. O tédio não tem razão ou quaisquer justificativas. Não adianta procurar nos escombros, mas ele está lá em algum lugar esganiçando o peito. O tédio é uma bebedeira franca esvaziada de vontade.

A semana inicia e me sinto entediado. Talvez o dia de finados tenha me provocado a compulsão das cinzas. A morte dos outros anuncia a minha falta de importância. Os mortos sempre serão mortos. É um estado definido porque Já tiveram suas chances. Entretanto, o tédio retira todo significado.

Entendo que nada tem sentido senão por mim mesmo. Sou eu quem faz a marca em minha vida, cada escolha uma estampa, um corolário da repetição. Será que preciso exercitar a resignação da repetição? Viver é um reconhecimento constante quando não nos atrevemos a arriscar. O problema do tédio é que ele apaga a luz da consciência. O olhar para as novidades se torna turvo. Sei que reconheço as paisagens de meu cotidiano, mas elas não me deixam escolhas para me direcionar ao desconhecido. O tédio impede o encontro com o transcendente. É necessário ir além de mim mesmo para encontrar as peças desajustadas. Portanto, o tédio é também uma oportunidade de me conhecer.

Passei o feriado sem nada fazer e me esgotei de tanto fazer nada. Como é difícil aceitar não fazer. Ser é ainda uma prática a qual preciso aprender. Para isso, é necessário me encontrar com a minha solidão. Há muito tempo venho praticando estar comigo mesmo numa espécie de solipsismo. É na solidão que eu tenho de estar. Não penso que a solidão seja ruim, maléfica, destruidora. Pelo contrário, ela é um espaço de existência do meu ser. Não tenho de depender da presença de outros para me sentir menos entediado. Não tenho de me permitir ter distrações para sentir que a passagem tenha significância. É comigo mesmo que as experiências se tornam descobertas. Ninguém pode me indicar o caminho, pois somente comigo terei a capacidade de me reinventar. Enfim, sou caminhante e tenho de prestar atenção aos movimentos de minhas próprias pernas.

O tédio nos leva, como diria Johann Georg Hamann, a ser um “apaixonado pelo momento demorado”.  O tédio nos faz ter uma esperança ociosa. Porém, a ociosidade exige muito de um homem. O problema é que aprendemos a estar na ação. Mesmo dormindo muitos continuam a trafegar no fazer permanente. O slogan social e cultural é que ser produtivo nos torna alguém. Isso é perigoso com o passar dos anos. Devemos exercitar os músculos do ser e do nada fazer. Chegará um momento em que teremos de estar sós. Conheci uma mulher de 95 anos que quer ter compromissos todos os dias. Ela exige de suas filhas um constante fazer. Não sabe estar com ela mesma. É difícil, depois de tantos anos, ter de parar. Ela fraturou o pé em consequência de seu aprendizado. Sempre somos levados a experimentar o lado desconhecido de nós mesmos. Nascemos num mundo de polaridade. Aquilo que não foi experimentado deve sê-lo mais cedo ou mais tarde.

De Buda, narra-se a história de um jovem que se aproximou dele e perguntou se poderia ser seu discípulo. Buda perguntou: “Acaso você já roubou?”. O jovem respondeu: “Nunca”. Buda retrucou: “Então, vai e rouba e, quando aprenderes a fazê-lo, podes voltar.”.

Nada pode estar apenas no extremo da experiência. É preciso cruzar a fronteira do não realizado. É por isso que se faz urgente uma mudança de padrões. Nem sempre o que fazemos é o melhor para nós. Portanto, é fundamental aprender que o tédio nos instiga a algum ensinamento.

Creio que o tédio é um chamado, um sinal vermelho, um provocador a nos conduzir em direções não vividas. Estar na não ação é também um modo de agir, muito mais profundo e revelador.

D. T. Suzuki ensina na Doutrina Zen da Não-Mente:
"O momento crítico do homem é a oportunidade de Deus"

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