O tédio é
estar num vazio aparentemente infinito. Num lugar do não fazer insignificante,
em um estado indolente e angustiante. É como ter insônia; ficar entre o sono e
a vigília; a manhã nunca chega, e a espera se torna rarefeita por si mesma. O
tédio não tem razão ou quaisquer justificativas. Não adianta procurar nos
escombros, mas ele está lá em algum lugar esganiçando o peito. O tédio é uma
bebedeira franca esvaziada de vontade.
A semana inicia e me
sinto entediado. Talvez o dia de finados tenha me provocado a compulsão das
cinzas. A morte dos outros anuncia a minha falta de importância. Os mortos
sempre serão mortos. É um estado definido porque Já tiveram suas chances. Entretanto, o tédio retira todo significado.
Entendo que nada tem
sentido senão por mim mesmo. Sou eu quem faz a marca em minha vida, cada
escolha uma estampa, um corolário da repetição. Será que preciso exercitar a
resignação da repetição? Viver é um reconhecimento constante quando não nos
atrevemos a arriscar. O problema do tédio é que ele apaga a luz da consciência.
O olhar para as novidades se torna turvo. Sei que reconheço as paisagens de meu
cotidiano, mas elas não me deixam escolhas para me direcionar ao desconhecido.
O tédio impede o encontro com o transcendente. É necessário ir além de mim
mesmo para encontrar as peças desajustadas. Portanto, o tédio é também uma
oportunidade de me conhecer.
Passei o feriado sem
nada fazer e me esgotei de tanto fazer nada. Como é difícil aceitar não fazer.
Ser é ainda uma prática a qual preciso aprender. Para isso, é necessário me
encontrar com a minha solidão. Há muito tempo venho praticando estar comigo mesmo
numa espécie de solipsismo. É na solidão que eu tenho de estar. Não penso que a
solidão seja ruim, maléfica, destruidora. Pelo contrário, ela é um espaço de
existência do meu ser. Não tenho de depender da presença de outros para me
sentir menos entediado. Não tenho de me permitir ter distrações para sentir que
a passagem tenha significância. É comigo mesmo que as experiências se tornam
descobertas. Ninguém pode me indicar o caminho, pois somente comigo terei a
capacidade de me reinventar. Enfim, sou caminhante e tenho de prestar atenção aos
movimentos de minhas próprias pernas.
O tédio nos leva, como
diria Johann Georg Hamann, a ser um “apaixonado pelo momento demorado”. O tédio nos faz ter uma esperança ociosa. Porém,
a ociosidade exige muito de um homem. O problema é que aprendemos a estar na
ação. Mesmo dormindo muitos continuam a trafegar no fazer permanente. O slogan
social e cultural é que ser produtivo nos torna alguém. Isso é perigoso com o
passar dos anos. Devemos exercitar os músculos do ser e do nada fazer. Chegará
um momento em que teremos de estar sós. Conheci uma mulher de 95 anos que quer
ter compromissos todos os dias. Ela exige de suas filhas um constante fazer.
Não sabe estar com ela mesma. É difícil, depois de tantos anos, ter de parar.
Ela fraturou o pé em consequência de seu aprendizado. Sempre somos levados a
experimentar o lado desconhecido de nós mesmos. Nascemos num mundo de
polaridade. Aquilo que não foi experimentado deve sê-lo mais cedo ou mais
tarde.
De Buda, narra-se a
história de um jovem que se aproximou dele e perguntou se poderia ser seu
discípulo. Buda perguntou: “Acaso você já roubou?”. O jovem respondeu: “Nunca”.
Buda retrucou: “Então, vai e rouba e, quando aprenderes a fazê-lo, podes
voltar.”.
Nada pode estar apenas
no extremo da experiência. É preciso cruzar a fronteira do não realizado. É por
isso que se faz urgente uma mudança de padrões. Nem sempre o que fazemos é o
melhor para nós. Portanto, é fundamental aprender que o tédio nos instiga a algum ensinamento.
Creio que o tédio é um chamado, um sinal vermelho, um provocador a nos conduzir em direções não vividas. Estar na não ação é também um modo de agir, muito mais profundo e revelador.
D. T. Suzuki ensina na Doutrina Zen da Não-Mente:
"O momento crítico do homem é a oportunidade de Deus"
Creio que o tédio é um chamado, um sinal vermelho, um provocador a nos conduzir em direções não vividas. Estar na não ação é também um modo de agir, muito mais profundo e revelador.
D. T. Suzuki ensina na Doutrina Zen da Não-Mente:
"O momento crítico do homem é a oportunidade de Deus"

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