Ontem foi o dia das mães. Como órfão de mãe, fui almoçar com a minha sogra. No mesmo dia seria comemorado o aniversário de minha afilhada. No momento de cantar parabéns, o meu cunhado resolveu adiantar a música, indo logo para o “com quem será que a menina vai casar”. O mais incrível é que parece que ninguém percebeu que a música comemorativa estava pela metade. Então, não pude deixar de questionar: Será que estamos perdendo a consciência dos ritos? Se não temos a percepção necessária para saber a importância de uma comemoração, será que nós estamos perdendo a consciência de nós mesmos?
Estar consciente de nós mesmos não é tarefa fácil. Estamos acostumados com a perspectiva de mundo de fora para dentro, e não o inverso. Por exemplo, enquanto você está lendo estas palavras, tente identificar-se. Quem é a pessoa que lê, e o que a leitura significa para você. Não tente pensar no escritor que as escreveu, pense somente nas palavras, e o que elas significam para o leitor. No caso, você.
Se você insistir em dar créditos ao escritor, esquecendo-se de quem de fato está lendo, você perderá a noção de quem é, e poderá chegar a uma terrível conclusão: “eu não existo”.
No momento em que você toma consciência de um som, cheiro, visão, sentimento, pensamento. Você está fadado a deixar de lado o seu EU. Mesmo que possa parecer que as coisas pertencem a você, no mínimo, estará simplesmente acreditando num ponto de vista que pode não ser seu de verdade. Muitas vezes, a criação é dos outros, e não sua.
Por que ninguém percebeu que o “parabéns pra você” não foi cantado? Como uma única pessoa pode induzir a tantas outras sem que elas questionem?
Você consegue com muita facilidade descrever suas experiências, porém não sabe descrever o EU que as teve. Ele parece estar todo o tempo desconectado de você. Mas, se você se desconecta de você mesmo (EU), então quem está dando as cartas no jogo da vida? Os outros, que também não são eles. É por isso que somos levados a querer ter tantas coisas que não necessitamos. As propagandas são eficazes neste jogo, e elas sabem dar as cartas. E sempre ganham.
Você sabe que tem uma consciência, porque pode experimentar suas sensações. Como também tem a consciência de que tem consciência. Entretanto, essa consciência não é sua, e sim uma consciência coletiva. Se não fosse assim, as pessoas não teriam a coragem de aceitar a introdução de uma toxina, como o Botox, na testa para paralisar os músculos de expressão. Se pensarmos bem, uma toxina é algo ruim, porque é tóxico. Se fosse bom, não se chamaria assim.
Vivemos num mundo cujo princípio norteador é estar desnorteado, a fim de não sentir o próprio mundo. Viver consciente é saber que da mesma maneira que sentimos contentamento, também sofremos. Estar triste não é depressão. Estar alegre não é felicidade.
Enfim, o EU é um nada persistente. Este nada é um centro em torno do qual as experiências fluem incessantemente. Estas experiências ao se somarem dão uma ideia de quem somos. Portanto, só uma ideia, uma imagem de nós mesmos.
Nunca saberemos de fato quem somos, porque somos influenciados por muitos. Agora, se não tivermos pelo menos um pouco mais de atenção ao nosso íntimo, ficaremos à deriva dos desejos alheios, que nem sempre são os melhores para nós. E, a vida passa rápido... Você não pode se perder nas brumas da ilusão.
