5 de dezembro de 2015

Entrevista

Por que o autoconhecimento é importante? O que ele traz para a vida de uma pessoa?

Pedro Paulo Monteiro: Desde a inscrição grega “Ó homem, conhece-te a ti mesmo e conhecerás os deuses e o universo”, no Templo de Apolo em Delfos, sabemos que o autoconhecimento é fundamental para vislumbrarmos a nós mesmos. Nada é certo, tudo é apenas um modo de interpretação da consciência individual. Portanto, em nosso mundo atual com sua cultura tecnológica que nos torna cada vez mais superficiais, o autoconhecimento se torna uma porta que só pode ser aberta para dentro. Eu penso que esta porta é a única saída para alcançarmos o verdadeiro sucesso na vida. Sucesso no sentido de sucessão de etapas. Passamos por várias etapas difíceis, mas se tivermos consciência de quem as experimenta, tudo se torna mais fácil. É preciso viver uma vida consciente pelo autoconhecimento crescente. Assim, seremos maestros de nossa própria orquestração. Os sons mais intensos como os impulsos emocionais que nos perturbam diariamente tornar-se-ão brandos. Porque estamos em contato com nós mesmos. Isso nos trará paz. E só poderemos alcançar sabedoria no âmbito da paz.

Qual o caminho para quem quer apostar no autoconhecimento? 

Pedro Paulo Monteiro: Aprender e apreciar. Aprender sem apreciar o que se aprende não traz satisfação. Apreciar sem aprender não traz significado algum, se torna um caminho sem paisagens. Muitas vezes atendo pessoas que só querem viajar, porque acreditam que conhecerão lugares novos, aprenderão novas culturas. Porém, a verdadeira viagem é aquela na qual fazemos dentro de nós mesmos. Tudo que está fora é um reflexo do que está dentro. Não é tarefa fácil ter a presença no presente, mas se conseguirmos entender que tudo começa e termina em nós, ou seja, em nosso próprio corpo, aí sim teremos a chance de compreender que o que realmente nos satisfaz é a nossa caminhada solitária com nós mesmos. Uma dica simples é prestar atenção na respiração. Quando o foco está no ar que entra e sai também nos focamos em nossa existência. Assim, podemos nos encontrar. Entretanto, aqueles que estão com o pensamento voltado para fora, para o fazer, ou ocupados com as próprias preocupações, nunca saberão que são seres no mundo para o aprender e apreciar. Muitos esquecem até mesmo que existem. Se nunca nos procuramos, como queremos nos encontrar?

Você é um estudioso da mente. Que tal aproveitarmos o final do ano para destacarmos a importância do pensamento positivo? É verdade que ser otimista e cultivar pensamentos positivos contribui para que a mente jogue a nosso favor? Há exercícios para nutrirmos esse tipo de vibração? 

Pedro Paulo Monteiro: Sabemos pela neurociência que o ser humano modela o mundo de acordo com as noções que recebe de seus sentidos e como a consciência individual interpreta esses dados. Cada um interpreta de sua maneira. Todos nós temos um cérebro com as mesmas estruturas, porém a organização é diferente para indivíduos diferentes. Tudo dependerá de como a experiência é apreendida. Sendo assim, nada é real se não acreditarmos que seja. Cada forma pensamento se constrói por aquilo que já foi experienciado. Portanto, ter pensamentos positivos sem que o próprio sujeito acredite neles não surte nenhum efeito. Ser otimista fundamentado em utopias é correr o sério risco de frustração. Se sou eu quem pensa, e acredito naquilo que penso, mesmo que não seja tão real assim, por que não escolher pensar de modo mais positivo? O único lugar que somos totalmente livres é no modo de pensar a nossa própria vida. Qualquer acontecimento tem sempre vários aspectos. Muitas vezes não conseguimos ver aspectos positivos em situações adversas. Porém, se eu souber que sempre haverá algo escondido de meu olhar, e procurar os melhores ângulos da situação, com certeza conseguirei resolver o problema com mais tranquilidade. É como tentar encontrar a chave do carro no lugar iluminado, sendo que não foi ali que a chave foi perdida. Muitas vezes, preferimos ficar atrelados aquilo que já conhecemos, não nos arriscando tatear pelos lugares desconhecidos para aprendermos outros modos de ser. Não podemos conhecer nada novo se não for pelo desconhecido. Visitar espaços conhecidos não é conhecer, e sim reconhecer. Gosto de ilustrar a ideia de como podemos pensar de duas maneiras contraditórias, dependendo de nosso humor. Vou contar uma história interessante. Havia dois homens que quebravam pedras numa praça em Paris. Um transeunte que passava por ali perguntou ao primeiro, que parecia estar de mal humor, o que você está fazendo? Ele respondeu: “Estou quebrando pedra. Você não está vendo? ”. Ele se afastou e foi em direção ao segundo que realizava a mesma tarefa, e fez a mesma pergunta. O homem respondeu com um sorriso: “Estou construindo uma catedral. A catedral de Notre-Dame”. Tudo sempre dependerá de nosso ponto de vista, ou da vista do ponto. Eu não daria um exercício para nutrirmos pensamentos positivos, mas diria para as pessoas se afastarem de situações que causem medo e ansiedade. Porque são as emoções negativas que nos forçam a pensar negativamente. Uma dica simples, comece por desligar a televisão ou o computador quando as notícias forem negativas, contemplem paisagens mentais mais leves e belas.

Há diferença entre ego, mente e cérebro? Como podemos definir esses conceitos e qual a melhor forma de lidar com eles para que possamos ter mais qualidade de vida, desenvolvimento e um envelhecimento melhor? 

 Pedro Paulo Monteiro: Sim, em meu livro “A mente e o significado da vida”, mostro essas diferenças. O cérebro é um órgão como qualquer outro. Como o fígado, por exemplo. Enquanto a mente é um processo. Ela está em toda a parte e em parte alguma. Pode parecer estranho este conceito, mas hoje com as pesquisas realizadas pela física quântica, já podemos entender melhor que o nosso mundo não é tão certo e estável como pensávamos ser. A mente não está no cérebro e também acredito que o cérebro não a produz como muitos pensam. A mente também é o nosso corpo. Costumo dizer que somos muito mais que os nossos pensamentos, e que a mente pode interferir na biologia de nosso cérebro. Muitas de nossas escolhas se dão pelo padrão emocional apreendido em fases precoces de nossas vidas. Nossas células ficam viciadas com os acontecimentos experimentados. Mesmo que mais tarde não soframos mais aquelas experiências, elas continuarão lá pedindo para que pensemos a respeito delas. Atendo a um homem, por exemplo, que foi muito pobre na infância, passou por várias privações. Agora, ele é um homem rico de 86 anos. Porém, ele continua a evitar gastar para economizar. Certa vez eu perguntei: “por que razão você continua a passar privações para economizar dinheiro? ”. Ele me respondeu: “Economizo para a velhice. Nunca se sabe quando vamos precisar. ” Então, eu disse: “Eu tenho duas notícias para lhe dar. A primeira que você está na velhice desde os seus 60 anos de idade. A segunda é que mesmo que você se esforce não terá tempo suficiente para gastar todo o seu dinheiro”. Ele carregava o medo da infância no corpo em forma de tensões musculares. O pensamento é matéria. O corpo carrega toda a história de uma pessoa. Por isso, para termos mais qualidade de vida e um bom envelhecimento, que começou desde a nossa concepção, é importante o autoconhecimento. Saber principalmente quem somos, e onde estamos. O ego, por exemplo, é o oposto do Eu Real. O ego é um tipo de fantasia criada. Desde a infância já escutamos que é preciso ter ambições, ter desejos, ter vontade, para estar no topo de tudo. Aprendemos que precisamos nos tornar alguém e deixarmos para trás o mais importante, o que realmente somos. Se não conseguirmos domar o nosso ego não conseguiremos chegar a conhecer a nós mesmos. Ao ministrar aulas sobre qualidade de vida, sempre me refiro ao processo individual. Ou seja, ter qualidade de vida não é fazer aquilo que os outros dizem que é bom fazer. Você precisa se conhecer para saber o que quer. Se souber quem é a pessoa que faz a escolha saberá o caminho a seguir. Outro tema recorrente em suas obras, é o envelhecimento. E, final de ano, é época de todos fazerem uma relação de promessas para ter um ano de mais realizações.

Qual a importância de se conectar com valores e anseios mais ligados ao ser, ao desenvolvimento humano?

Pedro Paulo Monteiro: Consciência é solidão. Ninguém pode adentrar a realidade não-consensual que é a mente individual. No palco da mente só existe um personagem principal que é o sujeito que a tem. Somos autores de nós mesmos. Existe uma tendência a acreditar que os sentimentos e pensamentos são os mesmos para todos. O que não é verdade. Cada um tem uma maneira particular de organizar as experiências. Isso torna cada história de vida única e intransferível. Assim também é o processo de envelhecimento. Cada um tem sua maneira própria de envelhecer, baseado em sua história de vida. Ou seja, envelhecemos como vivemos. Meu trabalho é ajudar pessoas a perceber que elas precisam estar conectadas com elas mesmas, saber quem escolhe, e, principalmente, conhecer o próprio espaço simbólico que habita. Sendo assim, as pessoas podem se desenvolver, envelhecer com qualidade e evoluir. A melhor promessa, em minha opinião, para obter um ano de realizações é saber quem está no comando. Isto é, não é alcançar algo, mas alcançar a si mesmo. Sabemos que o processo de envelhecimento é contínuo e democrático: todos envelhecem.

Por que é importante não brigar com esse fato? Quais os ingredientes para um envelhecimento com mais harmonia?

Pedro Paulo Monteiro: É muito bom saber que todos nós somos impulsionados para frente. Isso é envelhecer. Não acredito que envelhecemos e ficamos piores por isso. O que a cultura nos força a acreditar. Se pararmos para refletir sobre a evolução, então compreenderemos que envelhecer é uma oportunidade de nos tornarmos melhores com nós mesmos a cada momento de nossa vida. Temos a chance de ser mais a cada novo dia. Porém, envelhecer com harmonia é compreender que a paz deve ser buscada sempre. Se determinada situação não está boa, então temos de mudar de direção. Não podemos acertar sempre. Ao conhecer a dinâmica biológica de um sistema vivo, entendemos que o erro é uma grande catapulta para novos espaços criativos. Nada pode ser criado na ordem, pois é na desordem que surgem novos meios de viver. Obviamente, que precisamos de momentos de ordem, porque se não fosse assim não sobreviveríamos. Pense o quanto é difícil mudar. Para fazer qualquer mudança é preciso muita determinação e forte vontade. Todavia, ao conseguir fazer a mudança, novos horizontes surgem. Vejo a doença, por exemplo, como um grande incentivador de mudança. Muitas vezes, as pessoas sofrem porque são teimosas e resistentes ao processo da vida. Ninguém consegue ficar parado, só na morte. Portanto, enquanto vivermos é preciso entender que nada é estável. Costumo orientador aos mais velhos que para terem um envelhecimento saudável é importante aprender a surfar nas ondas da incerteza.

Pelo que pesquisei, seu livro mais recente é O Tempo não tem idade. Do que se trata? Por que recomenda a leitura? 

Pedro Paulo Monteiro: Tive a necessidade de escrever esse livro para pessoas de todas as idades que querem se libertar de um sentimento desgastante que é a ansiedade. O sentimento da falta de tempo nada mais é do que estar desconectados. Enquanto estivermos distraídos, continuaremos a fazer escolhas que nos roubam o tempo para estarmos juntos a nós mesmos. A proposta do livro é mostrar que o tempo não existe da maneira que pensamos. O tempo é uma abstração, portanto só pode fazer parte da consciência individual. Para a consciência, o tempo não pode ser medido, nem tampouco quantificado. O tempo que nos habita é chamado de Kairós. Ou seja, cada um tem dentro de si todos os tempos. Somos a criança, o jovem e o velho. Todos unidos em um só ser. Por outro lado, o tempo cronológico é o tempo que nos angustia e nos provoca ansiedade, nos retira a harmonia e, consequentemente, a paz. Como eu disse antes, sem a Paz não pode haver sabedoria. Por isso, é importante dizer que nem todos os mais velhos possuem a sabedoria. Os velhos sábios são aqueles que aprenderam a respeitar o próprio ciclo de vida. Eles adquiriram experiências com qualidade porque refletiram sobre elas. Ter sem ser não faz sentido algum. Em suma, convido a todos a lerem o livro para aprenderem a deixar de insistir tanto nas medidas do relógio, para que a experiência com o tempo se torne diferente. Pois, ao ficarmos mais focados em nossas reais necessidades poderemos ser senhores de nosso próprio tempo.

24 de novembro de 2014

Cidade de Leitores - Vida e Envelhecimento



Por que ficar mais velho possui uma visão negativa no mundo contemporâneo? O programa traz como convidados Pedro Paulo Monteiro, escritor, fisioterapeuta e gerontólogo, e Walter Daguerre, dramaturgo. O primeiro é autor, entre outros, do livro Envelhecer – Histórias, Encontros, Transformações, indicado ao Prêmio Jabuti. O especialista fala sobre o novo paradigma do envelhecimento e a relação da indústria da beleza com a resistência à idade, além de abordar a exclusão do idoso, muitas vezes, no próprio ambiente familiar. Leila Richers também conversa com Walter Daguerre, autor do espetáculo Elefante, que conta a história de um lugar onde as pessoas, a partir dos 25 anos, escolhem se querem ou não envelhecer. O dramaturgo discute a opção da peça entre a evolução normal da vida humana e a eterna juventude. Cidade de Leitoresvai ao ar na quinta-feira (13), às 14h, na BandRio, e no sábado, às 9h, no canal 26 da NET.


Clique no link abaixo:

http://www.multirio.rj.gov.br/index.php?option=com_mr_videos&layout=default&vid=1245&arquivo=MED1245.wmv&Itemid=414

29 de abril de 2014

Integração como regra para a vida




A vida é polaridade. Somos as duas faces da mesma moeda. Assim como os sons e as cores se interpenetram para formar a cena, a abstração e concretude se fundem e se confundem em nosso ser. Navegamos sem rumo. Sabemos que ninguém nasce munido de bússola. Devido aos nossos limites nenhuma paisagem é completa. É por meio dessa incompletude que buscamos a terra firme, sendo a incerteza prerrogativa da condição humana. Todavia, em várias situações, somos convidados a olhar para nós mesmos como o personagem principal dessa travessia nebulosa e dúbia. Se não aprendermos o que a vida quer nos ensinar, seremos constantemente conduzidos às mesmas situações de outrora. Mesmo velhos, podemos ser redirecionados à situações semelhantes de nossa infância. Podemos repetir ciclicamente.

Como escreveu Friedrich Nietzsche em sua teoria do Eterno retorno:

"E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: "Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez, e tu com ela, poeirinha da poeira!". Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderias: "Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!" Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: "Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?" pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?"
    
Tudo se repete a fim de termos a chance de vivenciar o polo mal elaborado. Aquilo que não foi integrado terá de ser vivenciado novamente, incontáveis vezes, até unificarmos os polos contrastantes. Estamos sendo direcionados à complementação a todo momento. É como uma prova final do ano letivo, podemos ser aprovados ou não. Quem se reprova terá uma nova chance, a vida se encarrega de dar a prova de recuperação. Temos de recuperar a nossa integridade. Muitas vezes pela dor e sofrimento, porque eles nos tornam mais cônscios de nossa realidade. Mesmo assim, não é fácil ver, muito menos conhecer, porque as mentes modernas estão fracas ao silêncio e à reflexão.

Somos condicionados a sobreviver, mesmo assim inventamos histórias para nos sentirmos orgulhosos de nossas conquistas perenes. Somos levados a acreditar que a dificuldade é o certo, nos forjamos no calor do esforço. Porque vale a pena. Somos instigados a desejar o impossível, porque obter o que não se tem nos torna o personagem principal de nossa ode. Quem não consegue lograr um destino melhor acaba por se considerar um fracasso.

Desde cedo ouvimos diversas histórias inspiradoras de luta e conquista. Isso nos fascina porque estamos do lado errado da paz. “Sem luta não há conquista”, brame o coro dos arrogantes numa defesa egoica, que não se fundamentam na paz. A paz é a grande conquista. Não temos mares para navegar senão fundamentados em nós mesmos. Somos o início e fim de nossa própria jornada.

Somos educados a atingir o impossível, e mesmo assim isso não nos garante nada, senão esforço e perda de energia vital. O problema é que nos orgulhamos de nossos esforços como se a nossa história pessoal fosse uma epopeia, porém a vida nos reserva um final como uma simples elegia tosca. A vida ri de nossas pretensões. Eu rio de minhas pretensões ao saber que sofrer faz parte de minhas ilusões imaturas. Tento aprender com Fernando Pessoa quando ele escreve: “Saber não ter ilusões é absolutamente necessário para se poder ter sonhos”. Muitas vezes, não é o adulto que sonha, mas a ilusão da criança que prevalece, forçando o adulto a desejar o inimaginável.

Temos o nosso próprio destino e a vida se encarrega de comandar o curso da história. Se estivermos atentos aprenderemos que navegar por mares calmos é sempre a melhor escolha. Deslumbrar uma história de paz nos trará grandes descobertas. Entretanto, isso só será possível quando integrarmos o polo faltoso.  




20 de fevereiro de 2014

A Arte de Reabilitar







Viver é sempre possibilidade, potência de criação. Somos seres repletos de habilidades escondidas nas entranhas de nosso corpo. Muitas vezes acreditamos que as grandes obras artísticas são presentes dos deuses, dadas a alguns escolhidos. Na verdade, somos todos os escolhidos, porque a vida é uma obra de arte inacabada. Sendo assim, temos a possibilidade de nos recriarmos a todo instante.

A palavra “arte”, do latim ars, significa também “habilidade”. É a manifestação humana a partir de uma ideia (imagem mental), direcionada pela emoção (movimento para fora) do corpo. Tudo sempre surge e termina no corpo. O corpo é o palco de manifestação daquilo que trafega em nossas ideias. É como uma grande tela em branco que se transforma em uma linda obra de arte. A ideia surgiu na mente do artista para se manifestar na tela.  Estamos criando algo novo a todo momento, nem sempre compreensível à razão. A revelação será reconhecida no futuro, no tempo do porvir. Contudo, tem de existir atenção ao presente. 

A arte é a habilidade de gerar fascínio. Quando somos maduros somos fascinantes, porque conseguimos ser quem somos. Desse modo, mostramos – sem exibir – a nossa arte, criada ao longo de nossa história. Quando somos maduros aceitamos a nós mesmos de maneira simples, sem retoques. E não precisamos mais do reconhecimento alheio, porque já reconhecemos o nosso verdadeiro valor. Então, se tudo está nas entranhas do corpo, não existe lugar a ser buscado. Não é preciso nenhuma viajem espiritual até locais longínquos.

Reabilitar como Conversão

O que precisamos mesmo é adquirir um novo olhar. Como na conversão de Saulo nos caminhos de Damasco. Ao cair do cavalo, literalmente, ele tenta se reerguer do chão, e percebe sua cegueira. A luz divina foi tão intensa que o cegou, porque até aquele momento ele não tinha bons olhos para ver a pureza. A conversão de Saulo não foi apenas uma conversão da razão, mas, sobretudo, uma conversão do coração. Deus foi tão compassivo com Saulo que o levou ao chão. Antes de se tornar Paulo (o pequeno, o humilde), ele teve de sofrer a queda, à doença dos olhos, a incapacidade de enxergar. Ele teve a oportunidade da reabilitação, porque antes era um homem terrível, um perseguidor. Quando Saulo ouve a voz, como o brando murmúrio do vento: "Saulo, Saulo, por que me persegues? Ele então pergunta: “Quem és tu Senhor”?". E a voz responde: "Eu sou Jesus a quem tu persegues” (At 26,14-15).

Reabilitar é mudança de hábitos

Vivemos cegos, e por não suportar a luz da sensatez usamos óculos escuros da distração. Vivemos surdos, e por não suportar a voz do silêncio usamos os fones da dispersão.  Não existe conversão sem que atravessemos desertos. A doença, por assim dizer, não é o mal, e sim um convite à conversão. É preciso fé e coragem para se reabilitar. Às vezes podemos pensar que a luz divina é só para os escolhidos, porque acreditamos na conversão somente dos santos. O chamado só pode existir para os pecadores, aqueles que erram o alvo, insistem no erro pela teimosia e resistente à mudança. Mudar é difícil, porque quando a alma é retirada pela raiz de suas antigas condições de vida, quando nos é infundido um novo modo de viver, o nascimento só pode ser doloroso. É como as borboletas que passam um tempo na crisálida rígida, até conseguirem se libertar ao voo. Tudo passa, e sempre passará.

A teimosia não é nada mais do que o temor pelo diferente, do desconhecido. É preciso movimentar-se para mudar. Resistir à mudança não nos fará melhor. Pelo contrário, nos dará couraças rígidas, respiração superficial, encurtamentos dos músculos, perda de flexibilidade e, consequentemente, uma vida mais difícil. Estamos em processo de mudança permanente – a única coisa permanente na vida é a mudança – porque envelhecemos.

O corpo é o palco, o script a mente. Podemos sim retornar para dentro de nós e seguir adiante. Por isso, não se deve esperar acontecer. A espera, muitas vezes, é instrumento da indolência. Portanto, se somos autores de nossa própria obra, somos nós que temos de agir. Atuar no agora para que algo surja no âmbito do real. Temos escolhas porque somos os escolhidos.

Poder como Possibilidade

Podemos acreditar que somos seres comuns, sem talentos, sem grandes atrativos. Olhe a sua volta e veja o que você já construiu em sua vida. Sempre estamos edificando algo, criando arte. Ou seja, vivemos gerando habilidades para nós mesmos e para os outros. É o fruto que cresce em terreno propício. Esta é a nossa verdade, o poder como possibilidade.

Porém, num mundo competitivo o poder também passou a ter outras nuances, deixou de ser verdade porque se tornou dominação. Quem quer dominar o outro vive contra o fluxo da natureza humana. Por isso, a palavra “controle” quer dizer rolar contra. Compreendo que esse tipo de poder existe para as pessoas que sentem medo. A obsessão do medo toma conta do cenário mental daqueles que se perderam de vista. 

Quem tem medo permanente não tem fé. É natural ter medo quando há perigo, mas elucubrar ilusões de ameaças não é uma condição saudável. Quem compreende a verdadeira posição no mundo não teme. Foi-nos ensinado: “Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; na verdade, o espírito está pronto, mas a carne é fraca.” (Mateus 26:36). Eu penso nessa verdade como: Religue-se com a sua presença e atenção ao que vai construir no corpo.

Reabilitar é descobrir potenciais

Somos seres artísticos por natureza. Viver pressupõe criar. Não deveríamos ficar abismados com os nossos potenciais quando eles surgem. Nem tampouco deveríamos acreditar que somos melhores do que os outros, pois se os outros não conseguiram algo semelhante aos nossos feitos não é porque eles não tenham habilidade, e sim porque ainda não descobriram o próprio potencial. Não faça comparações, elas só nos trazem infelicidades.  Somos seres únicos, e cada um nasce com um potencial intransferível. Eu nasci com um dom, enquanto você também tem o seu dom específico. Tudo nasce em nossa fonte de potência, e o corpo o manifestará mais cedo ou mais tarde. Isso significa tanto para a saúde quanto para a doença. Nada vem de fora. Doença e saúde são estados do corpo. Quando estou inteiro estou saudável. Quando estou partido estou doente.

Atualmente conhecemos muitos métodos de tratar as doenças. Ao mesmo tempo, nunca tivemos tantas pessoas doentes como agora. Portanto, eu prefiro dizer que a melhor maneira de estarmos saudáveis é nos reinventarmos a cada dia. Não podemos pensar que estamos seguros em nossos hábitos. Temos de aceitar o fluxo da mudança, e aprender a lidar com as incertezas, sem alimentar o medo.

A manifestação no corpo de uma deficiência ou mal-estar é um sinal de que algo não vai bem. Bem-estar ou mal-estar significa literalmente estar bem ou mal no corpo. Quando estamos nos sentindo mal em uma determinada situação, isso significa que estamos mais predispostos à criação de uma doença. O que você pode fazer para mudar a sua situação agora? Apresento aqui três dicas preciosas:

1.       Aceite sua própria presença. Você é um ser divino. Por isso, deve se sentir bem com você mesmo.
2.       Não recuse ser quem você é. Se você não está satisfeito com a sua situação mude o rumo de sua história. Você é o autor de si mesmo. Reabilite-se!
3.       Não se compare a ninguém. Nunca será mais, nem menos, você é você.

Ao atender pessoas acima de sessenta anos, não perco esse foco. Todo processo de reabilitação começa e termina no indivíduo (aquele que não se divide). Não existem regras delimitadas para o bem-estar do ser humano. O que é bom para um pode não ser para o outro. Precisamos compreender a nossa obra corporal. Todavia, temos um mesmo sentido na vida que é ser feliz. 

Reabilitar é costurar

                Ao estarmos inteiros estaremos saudáveis. Existe uma história sufi que nos mostra bem isso:
O grande sufi Farid recebeu a visita do rei. Ele havia levado um presente para o místico, uma bela tesoura de ouro e diamantes. Farid olhou, pegou-a e a devolveu ao rei. Ele disse que agradecia muito o presente, mas não tinha o que fazer com ele. Seria melhor se o rei tivesse trazido uma agulha de presente. Ele explicou que não precisava de uma tesoura, porque ela só serve para cortar e separar as coisas. Uma agulha, por outro lado, junta as coisas. Como mestre, todos os ensinamentos dele eram baseados no amor: como colocar as coisas juntas, como atingir a comunhão. Assim, ele disse ao rei que ficaria muito grato se da próxima vez que viesse visitá-lo trouxesse uma agulha, pois assim poderia usá-la para unir as pessoas, e não separá-las.

Todos nós precisamos de agulhas para unir o que foi separado. Restituir a palavra aos mudos, dar movimento ao corpo aos que perderam a flexibilidade, devolver o som àqueles que não escutam mais, restabelecer a visão aos que não podem enxergar. A vida é um milagre. As pessoas estão doentes porque estão desunidas, principalmente delas mesmas. Se pensarmos na palavra saúde, veremos que só somos saudáveis quando nada falta. Saúde e integridade andam de mãos dadas.
Nesse sentido, no processo de reabilitação do corpo sempre sigo estas palavras de Rainer Maria Rilke:

“O corpo humano só se torna um todo se surgir de uma ação conjunta (interna ou externa), na qual são empregados todos os seus membros e suas forças, assim também, para ele, partes de corpos diversos, que por uma necessidade interna se prendem uns aos outros, podem ordenar-se como se fossem um só organismo. Uma mão que se entrega a um outro ombro ou a outra coxa não pertence mais ao corpo do qual ela veio: dela e do objeto, que ela toca ou agarra, surge uma nova coisa, uma coisa que não tem mais nome e que a ninguém pertence.” 

Enquanto valorizarmos a tecnologia em detrimento do humano, continuaremos a assistir ao teatro da crueldade, com suas personagens incapazes e inábeis no exercício do próprio papel.  Devemos religar os conhecimentos, ao invés de se acreditar que somente uma pílula pode trazer a redenção ao corpo. Toda possibilidade está dentro do sujeito e não fora dele. Portanto, qualquer forma de tratamento só trará benefícios se o sujeito estiver pronto a aceitá-lo. Ninguém pode fazer para o outro, mas sim facilitar o seu potencial inato, no qual está latente. Ninguém se liberta sozinho. Enfim, é preciso comunhão entre quem cuida e quem é cuidado, até os dois se tornarem Um. Por isso, percebo que para alcançar resultados felizes em qualquer processo de reabilitação devemos atuar como os artistas. 


18 de fevereiro de 2014

Os meus olhos pretos





Os meus olhos sempre foram pretos. Se a luz incide sobre eles, as pupilas se contraem tímidas e ingênuas. Nunca encontrei brilho nesse lugar. Eles são como uma caverna escura a guardar o mistério. Numa determinada época eu pensei que eles pudessem ser olhos tristes, mesmo sem me sentir assim. Talvez a tristeza estivesse bem lá no fundo, ou talvez nem fosse minha. Poderiam ser olhos herdados. O que se herda nem sempre é conhecido. Não posso culpar os meus genes, pois nada é meu senão por merecimento. Nem todo merecer é satisfatório, às vezes, ele é compulsório.

Os olhos pretos podem conter algo que não querem mostrar. Todos os segredos estão no escuro. Onde há luz existe compreensão, enquanto na escuridão o mistério insiste em se esconder. Tenho algo a me acompanhar sem que eu compreenda. Porque sou muitos em um só corpo. Tenho partes que ainda não foram descobertas. O velado não se compreende. O conhecido pede reflexão, sem a qual não há o alcance de si mesmo.

Eu gostaria de ter olhos caleidoscópicos com nuances coloridas e de complexidade luminosa. Queria poder enxergar por diversos ângulos e assistir ao espetáculo da miragem. Contudo, os sonhos são para poucos. Talvez só para os buscadores de ilusão. De certo modo, eu me contento com o que tenho, porque sei que o escuro pode se perfazer em luz, mesmo que seja por um momento bruxuleante. Esses são os olhos dos buscadores espirituais.

Na adolescência eu sonhava em ter olhos coloridos, achava-os bonitos e com bondade. Hoje, eu vejo os feios com olhos de diversas cores. Será que a cor pode mudar a qualidade de uma pessoa? Nem todos os olhos verdes possuem bons ouvidos. Nem todos os olhos castanhos claros tem sabedoria da caminhada. Nem todos os olhos azuis tem pernas fortes. Porque nenhum desequilíbrio fica impune. As falácias justificatórias não são suficientes para colocar alguém no bom destino.

Os cabelos brancos e a presbiopia nos ensinam muito sobre a resignação do olhar. Ainda tenho muito que aprender a ver. O que me pacifica é que a vida sempre se encarrega de ensinar. Isso é o que me propicia me organizar num sentido mais claro para mim mesmo.

Ainda não tenho aro senil. Penso como será tê-los? Já não sou tão jovem de ignorância, nem tão velho de sabedoria. Estou nas cercanias de minha temporalidade. O corpo tem data de validade. Então, como serão os meus olhos no futuro? Ainda pretos? Os meus cabelos já ficaram brancos e finos. Antes, eles eram crespos e pretos. Será que os olhos dos velhos se tornam brancos quando eles perdem a capacidade de enxergar? Eu não quero deixar de ver o que me toca, de sentir o que me enternece. Quero continuar renovando a força de meu espírito mantendo o meu coração puro.

Se eu não tenho olhos brilhantes é porque não mereço tê-los. Será que a minha vida seria diferente se eu os tivesse? Já vi olhos castanhos claros chorarem, olhos azuis em desespero, olhos verdes deprimidos. Cada um tem no olhar uma história para contar. Cada um tem um corpo próprio. Cada um tem um corpo e uma reclamação.


O corpo nunca se engana. Ele é o que é para nos incentivar a caminhar na estrada certa. A espiritualidade é o encontro com o Eu profundo. Todos nós temos uma tendência ao encontro com o centro. Tudo nos leva a Deus, o Uno, ao centro de nós mesmos. Como afirma mestre Eckhart: “O mesmo olho que vejo Deus, Deus me vê”. O que está fora é o que se encontra dentro. É preciso bons olhos para ver o sagrado. Quero tê-los para ver o mundo mais claro, radiante e brilhante. Posso ter olhos pretos e um coração repleto de luz.


4 de novembro de 2013

A incerteza de toda história

Nem tudo que cai é chuva.
Nem tudo que voa é vento.
Nem tudo que se pisa é terra.
Nem tudo que brilha é sol.
 
A única certeza é que não temos como escapar dos fragmentos incertos de nossa história pessoal. Se pudéssemos compreender tudo, não erraríamos jamais. O problema é e sempre será a nossa ignorância. Somos ignorantes porque não nascemos prontos. Estamos em acabamento. Porventura a morte extermine a ignorância.  Quem sabe se a morte anunciará a compreensão que tudo - aquilo que não podemos mais tocar, cheirar, ouvir, ver – nada mais é do que algo libertador? Eu penso que em decorrência da morte só nos restará a paisagem da nossa mente individual. Nela, poderemos nos regozijar. Pois não haverá mais dúvidas. Mesmo assim, isso é só uma conjectura, nada mais.
Terminei de ler o livro “Por que o mundo existe?” de Jim Holt. Ele questiona: “Por que existe algo e não apenas o nada?”. Na verdade essa pergunta é do filósofo Martin Heidegger, mas Holt busca a resposta. Obviamente que ele não a encontra, só suposições de pessoas com as quais ele se relaciona para responder a questão. De qualquer modo, o livro é uma boa aventura, tanto que eu terminei de lê-lo hoje. O que eu achei interessante é que ele termina o livro com uma resposta de um monge budista entrevistado num programa televisivo. Ele escreve:

O que é o universo, afinal de contas? Não é naturalmente o nada. Mas é algo muito próximo: um vazio – une vacuité. As coisas não têm de fato a solidez que lhes atribuímos. O mundo é como um sonho, uma ilusão. Todavia, em nosso pensamento transformamos sua fluidez em algo fixo e de aparência sólida.

No sábado eu estive num almoço na casa de meu irmão com as minhas primas que há 15 anos não via. Saí cedo e viajei quase 60 km. O dia estava incrível. O verde cintilava em contraste com o azul límpido do céu. Era um dia após uma semana inteira de muita chuva. Na viagem não deixei de me sentir bem ao ver o movimento do vento a mover as copas das mangueiras. A estrada é repleta de mangueiras centenárias. Desde a minha infância elas se tornaram testemunhas de minha admiração. Lembro-me de uma em especial que ficava numa curva da estrada. Ali, muitas mulheres vendiam mangas, e o meu pai sempre parava o carro para comprar mangas carlotinhas. Aquela lembrança me tomava por inteiro, eu chegava a sentir o cheiro e gosto da manga, sem falar nas mãos embebidas de caldo escorrido. Isso só era lembrança, construída no vazio da realidade.
Chegando ao encontro avistei a primeira prima, nos abraçamos e ela foi logo me convidando para uma festa na casa dela no próximo mês. Obviamente que ela estava excitada com o encontro e por sua característica ansiosa não conseguia permanecer no momento presente. Queria marcar outros encontros, para que seus outros irmãos e a mãe dela, minha tia, que não puderam comparecer ao almoço tivessem a boa sensação do reencontro. Ela não conseguia deixar de falar sobre novos encontros, viagens juntos: "Temos de marcar", ela afirmava com veemência. 
As outras primas chegaram bem depois. Foi emocionante ver um pedaço de minha história escondido naquelas pessoas. Assim que todos sentaram para almoçar, eu comecei a falar como um doido, num discurso irrefreável sobre a minha história após os 15 anos de distância. Também estava excitado, tanto que comecei a suar. Queria em pouco tempo dizer quem eu era agora. Infelizmente, as pessoas não falam de si, elas procuram as novidades da mídia, ou mesmo fatos em torno de algo impessoal. Eu insisti, mas logo percebi que não deveria ser um chato. Até mesmo porque havia pessoas ali que não compactuavam com a nossa história. Então, falei um pouco de minha mãe, e elas começaram a falar da família, trazendo o passado de um lugar muito distante, a história de nossos avós. Eu não conhecia aquelas histórias. Eu não sabia, por exemplo, que o meu avô tinha um livro onde anotava sobre os filhos e netos. Também não sabia sobre o sobrenome italiano de minha avó, nem tampouco que existe uma cidade com o sobrenome da família. Eu nem perguntei onde se localizava essa cidade, aqui no Brasil ou na Itália. Estava imerso em emoção apenas.
E as histórias foram tomando um rumo indescritível que eu não conseguia acompanhar, eu não fazia parte, me senti distante, como sempre acontece em relacionamento social. Não que eu não gostasse da família, pelo contrário, eu sempre gostei de minhas primas. Na infância e adolescência sempre ia para casa de meus tios. Pelo fato de elas serem um pouco mais velhas do que eu, tinha a chancela de sair com elas à noite. Sentia a sensação de que era coisa boa aquele passado, sem saber o que fazíamos na realidade. Minha memória não dava conta de saber.
Meu irmão sabia mais das histórias do que eu. Então pensei, a minha memória está falha ou eu deletei acontecimentos. Quais são os acontecimentos de minha vida que eu não deletei? Quais que eu tenho certeza de que existiram de fato? Logo percebi que eu não podia responder as minhas perguntas com certeza, pois a memória falhava. Tentava conseguir acesso, mas sem êxito. A memória é formada por interesses próprios de cada indivíduo. Eu estava à deriva de minha história familiar. Será que as pessoas criavam histórias para elas mesmas? Eu penso que sim. Será que eu havia me perdido de minha família? Eu acredito que sim. Isso me deixou com um vazio existencial.
Às vezes nós esquecemos o passado; outras vezes, nós o distorcemos. A memória não é nunca confiável. Existirá sempre um lacuna para a nossa história. Se nós quisermos acreditar em algo mais concreto, temos de nos relacionarmos. Se não for assim não conseguimos construir verdadeiramente uma história familiar. Pois, a memória é relacionamento, associação. Se não fizermos assim, construiremos solitariamente algo a nos descrever, sem ser verdadeiro.
Se existe algo, por que não poderia existir apenas o nada?