Um homem dedicado



O homem cansado de muito trabalhar. Pedia água para se refrescar após tanto se esgarçar em prol do labor. Ele não tinha o motivo senão o pagamento raso. Não sabia aonde chegaria. Talvez nunca chegasse a um lugar comum. Ele sabia que era diferente dos outros, àqueles que tinham a chance de estar refestelado na poltrona de couro após um dia de trabalho. Após um dia inteiro no escritório banhado pelo ar condicionado cuja pele se resfria constantemente. Porém ele não podia ter o luxo da vida. Não tinha o direito de sentir o corpo como os outros sentiam. Mesmo tendo uma anatomia semelhante, existia algo que o diferenciava dos outros, algo que ia além da compreensão humana. Ele era o peão, como a peça de xadrez que tem menos valor e, portanto, pode ser sacrificada. O homem tinha de exercer sua função como máquina. Ele era pago para fazer o que ninguém queria, nem mesmo ele. Não tinha alternativa. Ele tinha de por o betume na estrada em dias de muito calor. Um serviço baixo, sujo e desconfortável. Ele tinha de ganhar a vida, precisava sobreviver. Por uma falta de sorte, ele acreditou na natureza da procriação, teve filhos. Agora tinha de dar conta. Era responsável e consciente de sua tarefa como homem e pai. Por isso devia fazer o que fazia. Não tivera a chance de estudar. Ele, entretanto, sabia que o triste destino tinha uma justificativa. Isso, de certa maneira, o acalentava, apaziguava seus desejos mais altos e frustrados. Pelo menos a culpa o deixava mais complacente com o seu sofrimento. Um homem sem sentido é um homem nu, deixando a deixa para os outros exercerem a humilhação.

O grande problema era que ele questionava a própria vida. Ele mantinha a fé de que um dia a vida modificaria, mas ele estava enganado. A vida nunca deu a ele nada além do suor contido nos dias quentes e as lágrimas do desejo. Mas, ele se sentia melhor no inverno. Acreditava que era um presente lá de cima, se sentia mais confortável. Ele ria mais e brincava com os amigos nesses dias, o que não ocorria no verão.
Sempre se esforçou para que os filhos tivessem um destino melhor. Não sabia se alcançaria a esperança. Porventura a vida pudesse lhe dar uma trégua. Não queria se distrair através da bebida, tinha conceitos rígidos, coisas que aprendeu na igreja. O pai dele tinha tido a mesma profissão. Ele foi um grande trabalhador e bom pai de família. Ele nunca entendeu por que nos meses de janeiro e fevereiro o pai modificava o comportamento; ficava mais rígido, introspectivo, sisudo. Agora sabia. A vida ensinou que final feliz nem sempre é o que se consegue na vida real. O que é real? Não sabia. Ele só queria cumprir com o seu dever, mais nada. Isso era o suficiente para ele.

Ele continua vivendo em dias quentes, trazendo para si mesmo o aprendizado de que um dia tudo fará sentido para seus filhos. Para ele, mais nada importa, a não ser os outros. 

18 regras para a vida




Acredito que Dalai Lama não tenha ditado todas estas regras, mas de qualquer modo vale a pena segui-las:

1.       Leve em consideração que grandes amores e conquistas envolvem grandes riscos.
2.       Quando perder, não perca a lição.
3.       Siga os 3rs:
- respeite você
- respeite os outros
- responsabilidade em todas as ações
4.       Lembre-se de que não conseguir o que você quer é algumas vezes um grande lance de sorte.
5.       Aprenda as regras para que você saiba como infringi-las corretamente.
6.       Não deixe uma pequena disputa ferir uma grande amizade.
7.       Quando você perceber que cometeu um erro, tome providências imediatas para corrigi-lo.
8.       Passe algum tempo sozinho todos os dias.
9.       Abra seus braços para mudar, mas não abra mão de seus valores.
10.   Lembre-se de que o silêncio às vezes é a melhor resposta.
11.   Viva uma vida boa e honrada. Então, quando você ficar mais velho e olhar para trás, você poderá obter prazer uma segunda vez.
12.   Uma atmosfera amorosa em sua casa é o fundamento para sua vida.
13.   Em discordâncias com entes queridos, trate apenas da situação atual. Não fale do passado.
14.   Compartilhe o seu conhecimento. Esta é uma maneira de alcançar a imortalidade.
15.   Seja gentil com a Terra.
16.   Uma vez por ano, vá a algum lugar onde nunca esteve antes.
17.   Lembre-se de que o melhor relacionamento é aquele em que o amor um pelo outro excede sua necessidade para o outro.
18.   Julgue seu sucesso pelo que você teve de renunciar para consegui-lo.


Professor borracheiro




Todos nós somos mestres para alguém. Nunca duvidei disso, até mesmo porque compreendo as relações humanas como desafio e aprendizado. O problema ainda é pensar que podemos ser autossuficientes. O problema da autonomia é acreditar que ser autônomo é ser independente. A confusão entre as palavras é fato corriqueiro. Podemos ser autônomos - é preciso ser -, mas sempre seremos dependentes de outros.

Como escreveu o poeta Inglês John Donne (1572-1631):

  
“Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do género humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”.

Sim, somos interdependentes e interligados. Nada é separado de nada. Se prestarmos atenção aos sinais da vida, veremos que cada um que entra em nosso cenário individual tem algo a nos ensinar.

Ontem tive um problema com o carro. O que parecia simples se tornou um problema impossível para eu resolver sozinho; um pneu furado.  

Tinha acabado de chegar em casa e resolvi lavar as rodas do carro, porque o meu amigo Magoo, meu Sharpei, tem urinado nas rodas para afirmar sua posse sobre o carro. Eu compreendo, porque o que é meu é de todos na família, e, se o meu cachorro faz parte da família, ele tem o direito de urinar nelas. Todavia, ele está em processo de aprendizagem, mas ainda é possessivo. Ele terá de aprender a se desapegar, como eu também faço diariamente.

Bem, quando fui lavar as rodas vi que o pneu estava furado. Resolvi trocá-lo. Fiz como sei fazer. Mas, não conseguia retirar a roda. Ela estava agarrada. Li o manual, como qualquer pessoa que quer saber sobre alguma coisa, e lá estava escrito que há um parafuso antifurto. Não encontrei o tal parafuso. Tentei de todas as maneiras, até começar a me sentir irritado por minha incompetência. O pensamento me atingiu: "Como homem, você tem de saber trocar um pneu". O ego machista me lascou uma prerrogativa rígida. Eu, então, tentei outras vezes. Não consegui. Só desisti quando o meu nervo ciático, de tanta irritação, me avisou que precisava abrir mão de minha teimosia.

Decidi ligar para o seguro. Eles me atenderam na hora. Antes de o borracheiro chegar, o meu ego novamente exigiu de mim: "Que vergonha! Um homem que não sabe trocar um pneu.". Não quis entrar no jogo do ego, então decidi resolver o problema com a ajuda de alguém.

O homem chegou e tentou retirar a roda. Assim que conseguiu, verificou que a roda estava grudada pela urina do meu cachorro. Ele, entretanto, me ensinou:

"Você não precisa se preocupar em trocar o pneu de seu carro. Você tem alguém que faz isso por você. Cada um tem uma missão. Eu estou aqui para ajudá-lo. Se você me permite ajudá-lo, você me ajuda também. Assim, eu mantenho o meu trabalho e o meu sustento. Sempre que precisar é só ligar. Sempre que eu puder ajudarei o senhor".

Meu Deus, aquelas palavras pareciam com as minhas palavras quando atendo alguém que se sente impotente em realizar algo sozinho. Eu uso o mesmo argumento. De repente, me vi sendo ajudado por quem quer me ajudar. Não estava mais sozinho com o pneu furado, sem poder continuar.

O borracheiro me mostrou que sempre temos alguém que podemos contar. Ele foi um importante mestre para mim, pois ele ensinou ao meu ego que pedir ajuda não significa se humilhar.

Somos todos bons...?

Foto: Diane Arbus

Se eu não fizer, outro vai fazer. Essa é uma justificativa fraca para fazer algo errado. Somos responsáveis por nossas escolhas. Independentemente de os outros escolherem o errado não quer dizer que devemos fazer o mesmo. Cada um faz sua escolha. Todas as escolhas são individuais. Ninguém é obrigado a repetir o que o outro faz. Não tenho como não citar a famosa frase bíblica:


"Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm. Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma". Coríntios 6:12.

O interessante é que as situações se desenrolam da maneira que já existem em nós como similitude. É difícil resistir à tentação de irmos contra nós mesmos. Quando menos esperamos aparece um dilema a nos empurrar abismo abaixo.

É mais fácil arrumar uma justificativa ideológica para os nossos erros, assim nos sentimos justos e até mesmo pessoas do bem. Principalmente ao olhar dos outros. Ainda que possamos achar que não estamos nem aí para a opinião alheia, queremos a aprovação que vem de fora. Será que os nossos pais não nos deram afeto suficiente para querermos sempre mais dos outros? Eles podem até ter nos dado, mas nunca é o bastante. Afeto está na ordem do capitalismo. A criança que quer um brinquedo novo e caro já tem incutido o desejo inconsciente de o brinquedo ser apreciado pelos olhares dos colegas. Porque assim ele passa a ter valor redobrado. Ao crescermos queremos ter o diploma da instituição renomada, queremos ter o reconhecimento no trabalho, queremos ser vistos como pessoas íntegras.

Se você me perguntar sobre as pessoas com as quais me relaciono, direi que todas são honestas e justas ou, na melhor das hipóteses, pessoas inocentes. Eu não posso deixar de fazer outra citação bíblica (hoje não estou religioso nem tampouco crente, mas faço as citações porque elas são antigas, e muitas pessoas as usam para justificar seus próprios erros, como pessoas religiosas que são):

"E dizia Jesus: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem. E, repartindo as suas vestes, lançaram sortes." Lucas 23:34.

Mesmo que o ato seja errado não temos como justificar o injustificável. Hoje escutei algumas pessoas religiosas se justificarem: "Eu não paguei aumento do salário mínimo à minha empregada doméstica porque ela recebe mais que um salário. Ela já ganha bem"; "Eu pago pouco ao meu jardineiro porque ele não sabe muito bem o que é dinheiro"; "Eu dou um presentinho para ela, aí ela me faz todos os favores". Todas essas pessoas são ingênuas (sem ironia), incapazes de ter consciência profunda.

Todas essas pessoas sofrem no corpo a dor da contenção, do medo de não ter controle sobre o outro. Elas não abrem mão do poder  como dominação. O que isso representa em âmbito profundo? O medo de perder. Querer ter vantagem para ter mais, para assim justificar o medo de não ter. O medo nos torna pessoas piores, escravas do social corrupto. Ter muito nos faz sofrer o medo de perder o que temos.

Hoje pela manhã, antes de sair para trabalhar, li o seguinte: "Você só perde o que segura". Algumas vezes eu tenho receio do que leio antes de sair para trabalhar, porque a mensagem se configurará em várias situações durante o dia. É como uma premonição. Se estou conectado com tudo e com todos, obviamente que ao abrir um livro ou escutar a letra de uma música algo semelhante irá se apresentar no cenário do dia.

Por isso, sempre digo às pessoas: Preste atenção aos sinais da vida, faça as melhores escolhas para que você possa ser melhor.  Recuse o convite da desintegração (doença).

O conhecimento só serve se for compartilhado






Hoje pela manhã falei para mim mesmo: "Você está na meia-idade, época em que se ouve o chamado. Você está mais para a força do trabalho do que para o chamado. Será que há algo errado com os deuses ou comigo mesmo?". Subitamente, li a seguinte frase num livro: "Colocamos as mãos diante dos olhos e gritamos que está escuro". Achei a frase providencial, mas não pude entendê-la como precisava. Tomei o café da manhã e abri os meus e-mails. Recebi de uma amiga um vídeo de uma palestra de Bunker Roy, da Universidade dos Pés Descalços. Na palestra, Bunker (traduzindo do inglês o nome dele indica exatamente o que este homem é, uma muralha defensiva). Bunker Roy é um indiano plácido que teve a melhor educação na Índia, tinha o mundo a seus pés, mas decidiu ajudar àqueles que têm fome em aldeias afastadas. Ele, então, se preparou para o improvável, decidiu construir uma universidade onde as pessoas aprenderiam sem professor com qualificações. Lá, o professor poderia ser o aluno, a pessoa aprenderia com a experiência do outro. Quem tivesse mestrado ou doutorado não poderia ser professor. Assim, homens analfabetos construíram a universidade, desenvolveram um sistema de energia solar, criando história para o mundo todo. Havia na universidade os melhores arquitetos analfabetos, os melhores engenheiros analfabetos, dentistas analfabetos, e assim por diante. Com a experiência dessas pessoas, aldeias da cercania podiam também obter melhorias na qualidade de vida para seus moradores. Eles foram se desenvolvendo e precisavam espalhar o conhecimento aprendido.

Isso sim é a verdadeira ciência, do latim scientia, o conhecimento com consciência. A ciência com consciência vem temperada com reflexão, é um salto de qualidade, é ir além do que os livros mostram, é a experiência viva de quem a viveu. Ninguém precisa de certificados para poder repartir o que se vive. Hoje, infelizmente, nas universidades, é preciso ser profissional de sala de aula. Só o que se sabe é o que se lê, e só se aprende o que se copia. Não há reflexão. A prerrogativa é clara; nenhuma experiência subjetiva pode estar nos artigos científicos, porque a história de vida do autor não tem valor. Por isso, não se pode escrever na primeira pessoa. Ou seja, se existe gente não existe ciência. O que se tem nos artigos científicos são letras mortas.

No meu primeiro livro, "Envelhecer: histórias, encontros e transformações", eu demorei a entender o que minha editora dizia: "O seu trabalho é bom, mas é muito acadêmico". Fiquei aborrecido porque se existia um "mas" significava que não estava totalmente bom. De fato, eu queria que o trabalho fosse perfeito, sem brechas. Ledo engano. Só depois do segundo livro passei a compreender o que ela dizia. Era simples: "Escreva para as pessoas e não para ninguém". Finalmente fui entender que o academicismo é escrever para ninguém, porque não tem vida. Mesmo que as pessoas achem enfadonho ler um artigo científico, elas dão valor ao "rigor acadêmico". Essa petulância é o que ainda move as instituições de ensino, o que atravanca o conhecimento do humano, e para o humano. O que adianta aprender se o que aprendemos não pode ser compartilhado?
  
Nos meus últimos suspiros como professor acreditava que eu devia ser como os pescadores. Eles pescam seus peixes (conhecimento), para depois contar (ensinar) aos outros como (metodologia) foi a experiência. Gostava de contar histórias aos meus alunos, mostrando a eles que podemos ajudar aos outros com as nossas experiências de luta, resignação, paciência e superação. Eu acreditei que isso era formar, porque só formamos por inteiro.   

Bem, após duas ocorrências na manhã de hoje me vi questionando: "Será que estou a trabalhar muito para não ouvir o chamado?". Porque quando trabalhamos muito temos a tendência a anestesiar nossos sentidos, ficamos voltados para o exterior. O que eu preciso ver e ouvir, sentir e perceber? Essa pergunta me fez retornar aos meus sete anos de idade. Naquela época já tinha claro o meu objetivo de vida, eu queria ajudar as pessoas a encontrar sentido na vida delas. Não sabia ao certo o que era o sentido da vida. Atualmente sei que o sentido da vida é o encontro com nós mesmos, ele é subjetivo e intransferível, cada um tem o seu. Ter sentido é sentir o solo firme e saber seguir os próprios passos com ciência, não esquecendo nunca de compartilhar o aprendizado com os outros.

A injustiça no corpo



Será que você sabe o quanto a verdade é importante? Ela é importante para termos mais civilidade em nossas relações e maior capacidade para entender nossas vidas. A verdade forma o juízo, através do qual nos fortalecemos. Ela também contribui para o nosso desenvolvimento. Mas não é só isso. Se nos munirmos da verdade podemos alcançar ainda algo maior, a justiça.

Pode parecer difícil entender, mas a justiça contribui para a nossa integridade. Quero dizer, a nossa saúde. Os sistemas orgânicos não funcionam, porque não são máquinas, mas eles estão fundamentados em processos de organização de suas partes. Eu poderia dizer que a justiça é a preservação do pacto estabelecido entre átomos, moléculas, células, tecidos, órgãos do corpo humano. Não sabemos “quem” ou “o quê” determina este pacto. Porém, todos nós sabemos que estar doente é estar desequilibrado, desintegrado, enfermo (a palavra “enfermo”, por exemplo, vem do latim infirmus, significando “sem firmeza”). Quando algo provoca um comportamento que perturbe o pacto, o equilíbrio dinâmico desvia de sua proposta natural e, consequentemente, todo o sistema sai de sua rota de desenvolvimento. Para que ele volte ao estado de equilíbrio dinâmico, serão necessários novos ajustes e adequações.

Todos sabem, porque todos nós alguma vez já ficamos doentes, que ao estarmos enfermos perdemos nossa direção momentaneamente. Temos de parar para nos recuperar. Para restabelecer as forças é preciso que todo o sistema se reorganize, crie novas maneiras de adequação à suas necessidades. Podemos mentir para nós mesmos, mas nem sempre o organismo admite permanecer neste estado de mentira por muito tempo. Ele vai pedir uma trégua mais cedo ou mais tarde. Em suma, recriar um estado saudável é renovar a justiça, restabelecer o pacto.     

Quantas vezes ficamos resfriados porque fazemos coisas além de nossas capacidades? Quantas vezes temos diarreia porque tememos algo novo? Quantas vezes sentimos os nossos músculos do pescoço tensos de tanta preocupação? Isso ocorre muito mais do que nos damos conta. Temos a tendência de silenciar o corpo sempre que um sintoma interfira em nossos projetos. O corpo se encarrega em nos mostrar os limites. Mesmo assim, quando não nos contentamos com a interferência, quando o sintoma chega a ser insuportável, tentamos silenciá-lo com medicamentos.

O medicamento é importante quando não há mais para quem recorrer, pois já foi feito estragos demais. Contudo, é relevante saber como está sendo conduzida a vida de nosso organismo. Ele não é separado de nós. Temos ainda a tendência de recusar refletir sobre a nossa vida em um contexto maior.

Em um contexto maior diria que as outras pessoas com as quais convivemos também participam do mesmo pacto. Eu preciso ser justo e honesto com o outro para estar saudável, o que repercutirá em meu organismo. Não posso tripudiar as leis de conformidade do bem-estar. Ou seja, eu não vivo só, eu convivo. Portanto, eu preciso prestar atenção aos interesses comuns, com senso de responsabilidade e sustentabilidade.

Infelizmente, não está sendo fácil encontrar a verdade diante de tantos interesses mesquinhos por aí. Conheço pessoas de boa vontade doentes porque mentiram para elas mesmas durante anos. Conheço outras que tentam justificar suas ações mesquinhas para escapar delas mesmas. Conheço umas que procuram ideologias para comprovar seus atos bem-intencionados. Todas com um só objetivo: manter o status quo do que é ser uma “boa pessoa”.

Ninguém pode ser bom se não for íntegro. Será que os hospitais estão superlotados porque há pessoas demais mentindo para elas mesmas? O que fizermos com os outros ou com nós mesmos sempre alterará o pêndulo da balança.  

O fim do começo e o início do fim




A paisagem está tão comovente que as palavras ficam pequenas. Daqui onde estou eu assisto a um espetáculo musical. As folhas sendo dedilhadas pelo vento. Como posso escrever com tantos ritmos fora de mim? Sou absorvido pela beleza e tranquilidade neste dia pós-chuva de ontem. Apesar de estarmos no verão, a noite foi fria, lua encoberta, obrigando-me a me munir de um cobertor também.

Vivemos os primeiros dias do novo ano. Tudo igual a todos os outros, mesmo que achemos que os dias são diferentes, nossos padrões passados nos arremessam para lugares conhecidos.

Ontem falava com uma pessoa que tentava me convencer do fim do mundo. Essa história de fim é bacana, dá movimento às elucubrações das pessoas. As pessoas estão ardentemente desejosas de novidades, nem que seja dar um fim ao mundo. Com a esperança, é claro, de recomeçar. Acreditam que se algo der errado é só apertar as teclas do computador (ctrl-alt-del) para reiniciar o programa.

Não acho que vamos terminar assim tão fácil. Ontem falava com a minha filha sobre a teoria que a pessoa havia me contado. Ela disse que teremos de subir mais de 2000 metros de altitude, ficar longe de fios de eletricidade. Pensei onde seria esse lugar. Sempre que alguém traz um conto, traz também uma paisagem mental para o seu ouvinte. Fiquei a pensar que se for assim, não tem jeito, não conseguirei ficar sem eletricidade, sou um ser elétrico por natureza. Minha filha, por sua vez, me disse que seria legal, porque assim não precisaria sofrer a perda de sua família, todos iriam de uma só vez. Acho confortador esse argumento de ir todos juntos. Como se fossemos para algum lugar. Estamos condicionados a acreditar que não vamos acabar nunca, o nosso inconsciente nos alimenta com sentimentos de imortalidade. Não digo que seja impossível o mundo findar, mas ainda acho improvável. São coisas diferentes.  

Daí eu me lembrei do filme “Melancholia”, de Lars Von Trier. Para quem não o viu, acho que vale a pena. Não espere muita coisa em termos de efeitos especiais, pois o filme é simples, porém com momentos de reflexão. Não vou contar a história aqui para não estragá-la. Não quero ser o chato que já quer antecipar o final do filme só para ser aplaudido sozinho. Bem, apenas vou contextualizar. Se eu não o fizer estarei sendo injusto. O filme conta a possibilidade de um choque do planeta Melancholia (que dá título ao filme) com a Terra. O filme discorre com diálogos entre os personagens com suas histórias familiares paralelas.

Valeu a pena assistir porque agora sei exatamente o que fazer caso a Terra seja ameaçada a desaparecer. Sabe o quê? Nada. Gostaria de estar em casa tomando uma taça de vinho, sem querer intuir saídas, sem rezas ou pregações. Gostaria simplesmente de fazer como as copas das árvores que agora vejo daqui de meu jardim. Quero balançar, indo e vindo no ritmo do fim de tudo. Se eu tiver a chance de embalar o fim com uma música, escolheria esta: http://www.youtube.com/watch?v=1rjnnx4h0RU

Bem, se o fim ainda não chegou, e o Sol já se foi novamente. Quero terminar este post com um pouco de texto antigo que acabo de encontrar por aqui no meu computador. Coincidência significativa.

Deixo o Vento levar tudo o que havia conseguido.
O Vento é força incompreendida.
Não sei o que o Vento quer.
Apenas sei que ele quer me levar.
Nada ficará. Tudo se perderá ao vento.
Não precisamos de muito para sobreviver.
Quem decide não somos nós. É o Vento.
Então não preciso me preocupar, nem me apavorar. Estou nas asas do Vento.
Só preciso respeitá-lo, reverenciá-lo por sua sabedoria.
O Vento é divino porque é eterno em essência.

  

Quando tudo parece não ter fim, chega a surpresa da finalização. O que termina é o que já começou.