13 de maio de 2013

Caminhante solitário


Nem todas as mães sabem lidar com as frustrações de seus filhos. Algumas se irritam ou até mesmo sentem uma necessidade de educar, como se isso fosse algo que viesse de fora, de alguém a ver a cena através de uma janela.  Minha mãe sabia me educar e me proteger ao mesmo tempo. Ela tinha uma técnica infalível.  Eu não suportava frustação, e quando acontecia eu aprontava. Jogava ovo na cabeça das pessoas, cortava os fios das antenas de TV e, principalmente, fazia fogueira. Adorava me arriscar debaixo da cama. Lá, o silêncio era um companheiro. Não queria a interferência de ninguém, queria a solidão como cúmplice. Sei que todas as minhas ações eram uma maneira de extravasar a raiva. Toda frustração vem acompanhada de tristeza e raiva. Muitas mães não sabem lidar com a raiva, até mesmo porque a raiva é uma emoção forte, reprimida culturalmente entre as mulheres, principalmente. Ao invés de dar bronca ou surra, a minha mãe me chamava para conversar e me educar. Era um gesto de carinho, porém tinha de vir acompanhado de algo sensorial. Ela sabia se eu não tivesse algo a mais eu não aprenderia. Ela estava certa. Talvez eu não me lembrasse de seu gesto caso ela não tivesse um antídoto para as frustrações. Ela me preparava um prato de gemada. Batia as gemas com bastante açúcar até virar um creme amarelo consistente, misturava leite quente para dissolver aquela massa inebriante. Comia tudo, ao mesmo tempo em que tomava vários copos d’água para amenizar o anestesiante gosto de açúcar em minhas papilas gustativas. A água servia como uma pausa. Eu chegava ao enjoo de tanta água, ovo e açúcar, mas a frustração se curava completamente. A gemada era o carinho em demasia. Enquanto comia podia estar mais próximo de mim mesmo e rever minhas ações.

O paladar é um sentido de intimidade, pois não podemos senti-lo à distância. Sentia-me protegido comendo a gemada com a minha mãe ao lado. O paladar não é só um sentido íntimo, ele é também um ato de socialização. A solidão é mais marcante quando nos alimentamos sozinhos. Sentar à mesa e conversar é um ato de comunhão – “dividir o pão”. Minha mãe que era uma mulher supersticiosa dizia que “comida não se joga fora. É pecado”. Se eu não aguentava comer toda a gemada ela se encarregava de comer o que sobrava. Com ela aprendi lições de simplicidade, e até hoje sinto a lembrança do gosto de gemada quando me sinto desprotegido.

Ao envelhecer mais e mais, tive de aprender a contar comigo mesmo. Mesmo porque a minha mãe morreu, e eu me senti sozinho. Eu não sei se você já se sentiu assim. Eu já era casado, com filhas, mesmo assim algo profundo me dizia que eu havia ficado sozinho no mundo. Não sinto isso como algo ruim, pelo contrário, eu aprendi que todos nós somos caminhantes solitários, o outro pode estar disponível como companheiro, mas quem decide a direção é somente você.

Quem não aceita a própria solidão possui dificuldade em saber quem é.  Aprendi ao longo dos anos que não adianta acumular para ter segurança. O que eu fazia antes era engordar para me proteger. Tive de aprender ter um corpo forte para dias de ventanias. A gemada fez parte do tempo da infância, e ficou por lá. Hoje, cresci e aprendi a estar comigo o tempo todo. O presente é o meu tempo.

Não raro, as pessoas continuam na infância, sem saberem. Elas não conseguem lograr o crescimento porque aqueles momentos deram a elas significados marcantes. Cresceram na forma, não através da consciência, portanto sofrem.

O que eu aprendi estando sozinho é que devo ter braços longos e meigos para me abraçar, e evitar as mãos firmes para controlar o meu próprio destino.
      

29 de abril de 2013

Beleza é emoção




Contemplar a beleza me emociona a ponto de surgir lágrimas. Quando criança era difícil compreender esta estranha emoção, pensava ser tristeza. Eu me emocionava com a luz da lua que me banhava. Minha mãe justificava ser pelo fato de algumas pessoas serem diferentes de outras. Uma criança sensível tinha reações completamente diferentes daquelas com menos sensibilidade. Mesmo com a explicação dela ainda me considerava anormal, queria ser igual aos meus colegas, fortes e protegidos pela insensibilidade. Porque as crianças buscam aprovação do grupo, e um menino que chorava pela beleza não podia ser normal. Portanto, como defesa, investi de maneira inconsciente na insensibilização. Logo na infância a criança cria couraças de proteção para se sentir seguro nos seus relacionamentos. A construção das couraças musculares é claramente observada nas crianças que vão para escola e passam a experimentar seus primeiros contatos sociais. Eu não fui diferente. Os meus movimentos em casa com as pessoas conhecidas eram movimentos suaves, totalmente livres. Após entrar em contato com estranhos, ela passou a ser máscara social, formando a minha personalidade, não o meu caráter. As máscaras podiam ser vistas nos meus movimentos contidos e posturas premeditadas.

Investido de minha couraça passei a me permitir sentir a beleza apenas ao lado de minha mãe, pois ela me aceitava da maneira como eu era, embora ela ficasse preocupada com as minhas condutas. Ela queria me proteger. Os pais costumam analisar o comportamento dos filhos e julgar anormalidades. Minha mãe, ao contrário de meu pai, apesar de desconhecer o comportamento humano, conseguia intuir que as minhas condutas eram normais, mesmo sendo incomuns. Ela era sensível como eu. Todas as vezes que ela encontrava algo que pudesse me proporcionar beleza corria para me chamar, pois queria me alimentar de contentamento. Foi um gesto de generosidade e ensinamento cheio de sabedoria. Eu sempre me esforcei para ensinar as minhas filhas a sentir a beleza. Não estou certo de que eu tenha sido tão hábil quanto a minha mãe. Não sei dizer se a sensibilidade pode ser ensinada, se a capacidade de transcendência ao mundo sensível pode ser herdada, mas sei que a emoção do corpo ao ver o belo pode ser construída pela educação. 

Desconhecia o que se passava na cabeça de minha mãe naqueles momentos, mas ainda lembro-me da imagem de seus olhos repletos de regozijo e orgulho do filho. Compreendo que chorar ao sentir a beleza não é muito comum entre as pessoas, mesmo porque somos condicionados a sentir mais as preocupações e a nos defendermos dos supostos perigos da vida. Não estamos acostumados a exercitar o despojamento para fazer parte do objeto contemplado, a fim de nos tornarmos um com tudo. Pelo contrário, aprendemos a ser egocêntricos e, portanto, o ego tem de estar protegido por uma barreira na qual se divide o que está dentro (o que é bom e bonito) daquilo que está fora (o que é ruim e feio). Sendo assim, aquilo que é exterior passa a ser uma aparência que ora agrada, ora não.

Eu aprendi com a minha mãe que a lua é bela porque ela é o verdadeiro mistério da vida.

27 de abril de 2013

Falar para ser ouvido





Todo som se espalha pelo ar. Nada pode ser ouvido enquanto não houver um receptor. Nada se pode afirmar sobre o barulho de uma árvore que cai a léguas de distância. Só se ouve o que está próximo. A proximidade pressupõe relacionamento. Sem pressão no ar não há percepção. As orelhas restritas aos outros, portanto, é uma escolha.

Atendo uma mulher que só quer falar, não se importa em ouvir. O seu mundo interno é barulhento. Ele está perto para deixá-la em silêncio. Seus pensamentos provocaram tantos ruídos que ela não escuta, fechou o canal de relacionamento. Isso começou muito cedo, ainda na infância, quando ninguém dava a ela a atenção devida. Ela teve de fazer sua vida sozinha. Os pensamentos foram suas únicas testemunhas.

Maria se sentia leve ao derramar suas palavras num ritmo nem um pouco profícuo. Para ela, o que importava era colocar para fora. Encontrou em mim a permissão de ser ouvida. Sempre me relatou que os outros se incomodavam com a sua fala. Porém agora ela não queria deixar de transbordar. Isso a aliviava. Suas palavras podiam afetar os outros, mas cada um tem o livre-arbítrio de se sentir incomodado ou não.

Muitas vezes tenho de interrompê-la, para estarmos juntos. Digo a ela que para estarmos em relação tem de haver pausa. Ela concorda, mas logo quer continuar, olha para o relógio com receio de não ter tempo para dizer tudo. Falo que o tempo nos pertence, mas ela não se contenta com pouco, precisa de mais, quer recuperar os anos pela busca do interlocutor.

Quando eu tento falar, ela se fecha, quer continuar o monólogo. Eu não me importo, pois entendo suas necessidades. A surdez dela tornou-se um álibi. Hoje ela quer se expressar sem precisar ouvir o outro. O problema é que ela perde a possibilidade de estar na companhia das pessoas. Ela afirma: "Já me acostumei sozinha". Se habituar com a solidão é um ganho na velhice, porém no caso dela a solidão é só uma afronta, ela cansou-se de ser julgada.

O maior problema numa relação é o julgamento e a falta de paciência de quem ouve. Todos querem falar. A ordem do dia é o direito de expressão. O que é preciso refletir é se estamos sendo habilidosos em nossas relações. Sem ouvirmos bem, pode acabar tendo ruído na comunicação. Interpretações impróprias provocam conflitos.

Não precisamos aceitar qualquer companhia, porém temos de saber nos portarmos como agentes passivos e ativos na relação. A comunicação é um ato humano, então temos de aprender a contrair (receber) quando o outro fala, e expandir (expressar) para o outro que se cala. Assim, podemos trafegar no contato, respeitar o silêncio que nos ouve, expressar a nossa verdade com generosidade.

15 de abril de 2013

Velhos somos nós mesmos




Semana passada uma mulher de 78 de idade me falou com pesar:
"Desde pequena sempre tive a sensação de que eu morreria cedo. Ainda penso assim, e isso me deixa assustada."
Então, perguntei qual era a idade dela. Ela me respondeu:  "Vou fazer 79 anos este ano."
"E você ainda acha que morrerá cedo depois de saber disso?", questionei sorrindo.
"Eu não consigo me ver velha. Você é quem vive me lembrando disso."
Rimos juntos e pedi que ela deitasse na maca para iniciarmos a sessão terapêutica.

Eu comecei a me sentir velho muito novo. Eu devia ter uns 35 anos. Aconteceu assim que as minhas filhas começaram a crescer. Acredito que isso tenha ocorrido por dois fatores. Primeiro, por uma noção de comparação. Sempre comparamos para ter referências. Se eu as via cada vez maiores e tendo opinião própria sobre tudo, percebi que eu já me enquadrava numa categoria, como o pai delas, de ser o mais velho.  Sendo assim, eu era também o velho delas. Segundo, pela visão delas sobre mim. Elas me viam como um mentor, minhas observações tinham peso para o comportamento delas. A ideia de que o velho é um modelo de experiências vividas.

O olhar do outro denuncia a nossa idade. É só estar atento a isso. Eu, por exemplo, hoje em dia, sou chamado de doutor, senhor, professor, em todos os lugares por onde passo. Lembro-me de quando eu era mais novo nunca ser chamado dessa maneira. Acredito que isso se deva exclusivamente a minha mudança física. Evidentemente, não mudamos somente o corpo, a estrutura muda também o comportamento, e vice-versa.

A forma física denuncia a nossa condição existencial, mas eu não me importo. Aliás, como eu poderia me importar para um fato irrepreensível. Não vejo razão para me sentir mal. É somente o modo como o outro me vê com o seu próprio olhar. E se me veem assim é simplesmente por uma questão heurística.

Durante o meu mestrado tive de elaborar exaustivamente os conceitos de envelhecimento e velhice para conseguir ver além dos rótulos. Ser velho é um conceito apenas. Podemos recriá-los, mas isso requer muito trabalho. Não é fácil mudar nossas sinapses. Descobri que se assim fizermos criamos paradigmas mais convenientes. Não vejo com bons olhos algumas pessoas mais velhas acreditarem em suas juventudes. Quando elas passarão a ter a verdadeira noção do próprio envelhecimento? Talvez nunca cheguem a pensar nisso. Penso que na medida em que pudermos procurar novas maneiras de conceber a realidade, seremos mais livres. É preciso fazer esse exercício diariamente, caso contrário estaremos fadados a reagir à realidade da maneira que nossa cultura nos permite.

Eu compreendo que não conseguimos nos ver velhos porque a palavra "velho" é uma palavra que vem carregada de conceitos negativos. As palavras nem sempre significam o que o senso comum determina. Por exemplo, a palavra "revolução". Essa palavra vem incutida de significados positivos, como avanço, mudança, progresso, continuidade, modernidade. Contudo, a palavra não quer dizer um salto à frente. Pelo contrário, ela vem do latim revolvere que demonstra um ato de revolver, rolar para trás, um retorno ao que era antes, ao ponto de partida, como nos movimentos cíclicos das marés. 

Falamos da ciência revolucionária, mas se a boa ciência é aquela a quebrar a continuidade a fim de avançar, então "revolucionária" seria a denotação oposta a isso.

Da mesma forma que envelhecer não pode ser revolucionário, porque é um movimento em direção ao fim. Seria por isso que as pessoas não gostam de falar - às vezes nem pensar - sobre o tema? Sim. O nosso inconsciente adaptativo busca modos de sobrevivência com alta qualidade. É uma espécie de sistema imunológico psicológico. Ele nos protege, mesmo que não sejam assertivas verídicas.

Segundo o psicólogo americano Timothy Wilson, o inconsciente adaptativo influencia diretamente a consciência para que nos sintamos bem. A consciência cria justificativas ideológicas a fim de nós mesmos nos convencermos de que uma ideia negativa possa se transformar em uma ideia positiva, mesmo que esta mesma ideia seja falsa, como no caso da senhora que ainda acha que morrerá cedo.

Outro dia eu disse a um homem de 82 anos, que guarda dinheiro com receio de precisar dele para tratamentos médicos na velhice: "Você sabia que está na velhice desde os 60 anos?". Ele retrucou: "Como assim? Você acha que eu já sou velho?". Então, dei a fatídica notícia a ele: "Somos velhos sociais a partir de 60 anos. Porém, se refletirmos mais profundamente, somos o velho enquanto houver uma pessoa mais nova que nós por perto."

O problema não é a velhice em si, e sim a falta de consciência sobre si mesmo. O maior problema, enfim, é o significado das palavras que carregamos dentro de nós.
   

21 de março de 2013

Altruísmo Recíproco

Na última semana, uma mulher de 80 anos chegou ao consultório com uma questão que a estava deixando consternada. Um dos membros da igreja onde frequenta repreendeu-a dizendo que ela só fazia o bem para o outro porque queria retribuição. Após chorar, ela me disse que nunca havia pensado daquela maneira, ela não era falsa nem tampouco mesquinha. Entretanto, ela mantinha uma dúvida angustiante: “Será que eu realmente quero retribuição caso um dia venha precisar?”.


Somos seres gregários e precisamos dos outros para ter vantagem evolutiva. Os sentimentos humanos, na verdade, são desenhados evolutivamente. Desde que o humano é humano, a sua tendência é a sobrevivência. Isso é um instinto básico. Somos moldados por ele. Nossa consciência só cria as histórias, a maior parte das vezes repletas com enredos românticos.   

Oferecer ajuda aos outros para que sejam ocasionalmente retribuídos é o que podemos chamar de “altruísmo recíproco”. Esse termo foi cunhado pelo biólogo evolucionista, Robert Trivers. Ele propôs que a motivação para agir com clemência em relação aos outros com os quais não compartilhamos nenhum gene está na capacidade de adaptação, pois existe uma boa chance de que, em algum momento no futuro, esses outros retribuam a nossa benevolência. É assim que uma sociedade sobrevive, porque é dessa maneira que ela consegue ter vantagem evolutiva.

Antes de Trivers, Charles Darwin (1809-1883) também já propunha em seu livro, “A descendência do homem, e seleção em relação ao sexo”, que à medida que a capacidade de raciocínio e previsão se aperfeiçoa os homens não tardam a aprender por experiência que se ajudarem seus iguais, normalmente receberão ajuda em retribuição.

Portanto, esse é um argumento antigo. É interessante pensar que a cobrança da colega de igreja da senhora esteja fundamentada numa ilusão de que as pessoas devem fazer ações incondicionais. Isso é uma mera ideia, porque na prática não é bem assim que acontece. Agimos benevolentemente sem que tenhamos consciência de que no fundo queremos algo em troca, queremos proteção. É muito fácil dizer que nossas ações são puras, para parecermos bons, principalmente quando não estamos precisando dos outros. Porém, ao fazermos algo bom para o próximo, esperamos sim, uma retribuição, nem que seja um simples agradecimento.

Por isso, não raro, escutamos as pessoas reclamando:
·     Fiz tudo por ele e, quando precisei, ele nem me procurou para perguntar se eu queria alguma coisa;
·         Depois de tanto trabalho, ela não me disse nada;
·         Fui ao enterro do pai dele e agora ele nem apareceu no enterro da minha mãe;
·         Fiz tudo o que podia para ajudar aquela família e eles nem me agradeceram;
·         Eu fiz porque quis fazer, mas ela poderia ter pelo menos um gesto de gentileza;

Quando alguém reclama é porque quer algo em troca. Vivemos pela permuta social. Isso é natural. O que não é natural é a incondicionalidade do gesto. Porque juntos construímos uma sociedade. As formigas fazem o mesmo, e são bastante organizadas.

Eu tive um vizinho que certa vez ficou furioso por ter dado comida a um mendigo e ele a recusou porque não gostava de feijão. Nunca mais esqueci as palavras dele: “Ele não tem nada e ainda quer escolher. Devia dar graças a Deus por conseguir alguém para lhe oferecer comida.”.

Hoje entendo a chateação dele. O que ele queria era agradecimento, ser correspondido, e, talvez, ser visto pelos outros como o bom samaritano. Como ele acreditava que um mendigo não podia ter escolhas, ficou revoltado. Se perguntassem a ele se o seu ato fora solidário, ele certamente responderia afirmativamente.

Evidentemente que o nosso ego se regozija com agradecimentos. Mas, o que queremos mesmo é contar com a ajuda dos outros caso precisemos. O importante é ter em mente que as expectativas com relação às ações alheias, sempre será um risco a frustrações. 



25 de fevereiro de 2013

Meu Feliz Desaniversário






Eu sou um aficionado por Alice no país das maravilhas e Através do espelho de Lewis Carrol. Sempre achei que essas obras-primas nos dão um sentido de mundo invertido. Isso mesmo, um mundo invertido é uma chance de acreditarmos que haja outras possibilidades de ser.

Em seguida, um pequeno excerto do livro Aventuras de Alice no País das Maravilhas & Através do espelho e o que Alice encontrou por lá. Lewis Carroll. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009.

“Deram-me a gravata”, Humpty Dumpty continuou, pensativo, enquanto cruzava os joelhos e punha as mãos em volta deles, “deram-me… como um presente de desaniversário.”
“Perdão?” Alice perguntou, perplexa.
“Não estou ofendido”, disse Humpty Dumpty.
“Quero dizer, o que é um presente de desaniversário?”
“Um presente dado quando não é seu aniversário, é claro.”
Alice refletiu um pouco. “Gosto mais de presentes de aniversário”, declarou finalmente.
“Não sabe do que está falando!” exclamou Humpty Dumpty. “Quantos dias há no ano?”
“Trezentos e sessenta e cinco”, disse Alice.
“E quantos aniversários você faz?”
“Um.”
“E se diminui um de trezentos e sessenta e cinco, resta quanto?”
“Trezentos e sessenta e quatro, claro.”
[...]
“E isso mostra que há trezentos e sessenta e quatro dias em que você poderia ganhar presentes de desaniversário…”.
“Sem dúvida”, disse Alice.
“E só um para ganhar presentes de aniversário, vê? É a glória para você!”
“Não sei o que quer dizer com ´glória´”, disse Alice.
Humpty Dumpty sorriu, desdenhoso. “Claro que não sabe... até que eu lhe diga. Quero dizer `é um belo e demolidor argumento para você!´”.
“Mas glória não significa ´um belo e demolidor argumento´”, Alice objetou.
“Quando eu uso uma palavra”, disse Humpty Dumpty num tom bastante desdenhoso, “ela significa exatamente o quero que signifique: nem mais nem menos.”
“A questão é”, disse Alice, “se pode fazer as palavras significarem tantas coisas diferentes.”
“A questão”, disse Humpty Dumpty, “é saber quem vai mandar – só isto.”.
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Hoje é o dia do meu desaniversário, e está próximo do meu aniversário oficial. Sempre estamos perto do nosso aniversário, pois tudo se alimenta de velocidade hoje em dia. Sendo assim, o melhor é não querer o que me afasta de mim mesmo, pois preciso estar em mim e para mim. Da mesma maneira que Humpty Dumpty diz que quando ele usa uma palavra significa que ele quer que ela signifique, eu também quero me dizer algo, ou seja, me presentear com o querer definitivo. Então, neste dia de desaniversário:

·         Não quero ter mais anos de vida do que qualidade destes anos;
·         Não quero ter um corpo que eu pretenda ter, pois o meu corpo é somente reflexo das atividades da alma, e ela eu não posso acessar, ainda;
·         Não quero festejar com pessoas que não sei quem elas são de verdade, pois essas pessoas podem me corromper, sou sensível a isso;
·         Não quero saber mais do que posso saber, mas quero o conhecimento que me propicia a aproximação de pessoas maravilhosas;
·         Não quero estrelas para contemplar, a Lua me basta. As estrelas são apenas reflexos da luz da Lua;
·         Não quero falar a língua dos homens, quero só me expressar;
·         Não quero ter mais, só aquilo que necessito;
·         Não quero fazer escolhas baseadas em convenções sociais, quero as escolhas em consonância com o meu aprendizado de vida;
·         Não quero sofrer o amargo da ignorância, quero aprender a ser melhor;
·         Não quero transcender os meus limites, o simples já me comove;
·         Não quero a dúvida porque ela provoca tensão. Não quero a certeza porque ela paralisa. Quero o discernimento para compreender o que é o melhor para mim;
·         Não quero chorar pela perda, quero perder para aprender a chorar;
·         Não quero felicidade, porque sei que ela é só um momento. Quero simplesmente saber me regozijar com o que posso ter no momento;
·         Não quero me ferir com preocupações, quero me ocupar com o que tenho no presente;
·         Não quero ter medo, quero ter fé;
·         Não quero me especializar em algo, quero me especializar em alguém;
·         Não quero me importar com nada, quero me desapegar a tudo.


E quando tudo for nada, serei quem sou. E quando eu for o que sou, nada será como antes.  

    

11 de fevereiro de 2013

Uma imagem criada, um mundo construído.








Bem próximo de mim havia uma linda mulher vestida de branco. Com ar de pureza ela se rejubilava por sua beleza, tudo seria perfeito se não fosse a barra do vestido sujo de lama. Sempre haverá sujeira onde menos se espera encontrar. O que está mais perto da terra está sujeito a se sujar. Ser humano implica essa faculdade. Não sabia ao certo o que ela fazia ali. Estava em meus olhos apenas. Ela parecia recitar um soneto, porque assim eu queria. Às vezes, procuramos poesia para viver mais leve. Ela estava em mim e não aos meus olhos apenas, tocava os meus sentidos. Ela queria se comunicar porque eu precisava disso. Estava cansado de minha solidão. Ela não podia estar fora, estava dentro, me fazendo questionar o meu próprio querer. Se o que está fora é o que eu vejo, então não podia estar longe de mim. Tinha essa certeza. Ela não representava o outro, senão eu mesmo. É nessa solidão na qual vivo que me possibilita saber mais sobre mim mesmo. Bem, desconhecer também é um fato, pois para algumas pessoas conhecer não faz muita diferença.

Sabia que ela era construção de minha mente, só eu poderia ver o que queria ver. Nada pode ser construído sem que exista algo em nós para se desenrolar. Isso é o que a mente faz sem cessar. A mente não suporta lacunas. Os espaços em branco são logo preenchidos por uma cena. Até mesmo de olhos fechados possuímos imagens. É difícil conter o fluxo das imagens mentais. Mesmo a meditação vem acompanhada de imagens. Sempre me pergunto se na prática da meditação existe em algum lugar, não consciente, é claro, uma cena a se mover. Acho que temos tantos compartimentos dentro de nós que existe sim um movimento, mesmo no silêncio mental.

Duas horas da tarde e eu ainda não tinha almoçado. Não gosto de passar da minha hora do almoço. Era preciso comer algo, já estava ficando lento. Sinto-me assim, lento como um jabuti quando falta açúcar no meu sangue. Mas, a comida não estava pronta.

A comida foi servida e eu fiz o meu prato. Nada de diferente dos outros dias. A comida era igual, pois era feita pela mesma pessoa de sempre. O bom tempero só se conhece quando temos algo para comparar. Aliás, buscamos a comparação em tudo. Assim, fica mais fácil perceber o que era o antes e o depois, para aprender o novo. Mas, o que é o novo senão uma repetição? Sempre tive essa pergunta em mente. Como podemos aprender algo novo se só conhecemos a experiência pelos códigos já registrados? Isso significa que vivemos em círculos. O que escrevo agora é somente uma repetição de muitas palavras que já pude experimentar. Sair de mim para construir algo totalmente novo é "quase" impossível. Ninguém imagina que viver uma nova experiência é somente reviver num sentido já vivido. Isso eu chamo de padrões. Eles já existem em nós, por assim dizer, vividos no passado, buscando saída para viver novamente. É o caso de você conhecer uma nova pessoa e ela ser parecida em alguns aspectos com você mesmo. Ela não é uma nova pessoa, mas uma já conhecida por você. Ou seja, ela é um reconhecimento. É difícil sair de cena do conhecido, principalmente quando você já está mais velho com tantas experiências acumuladas. Estou certo de que na velhice fica mais fácil repetir.

Como experimentar algo que está totalmente longe de nossa própria experiência de vida? Muitas vezes me pergunto o que preciso fazer para transgredir os meus padrões aprendidos. Não sei, pois não gosto de abrir mão de minha zona de conforto. Já tentei várias vezes, mesmo assim sempre que tentei sair, para estar em novas cenas, estive com pensamentos semelhantes aos de sempre. Não adianta muito mudar o espaço, carrego comigo a mim mesmo.
  
Sempre penso que a velhice poderá sanar a minha busca, mas temo ficar sem procurar, o que é também ruim. É preciso ter direção. Sem rumo nada faz sentido, ficar estagnado não é produtivo.

Daqui a pouco faço aniversário, mais um ano de vida, e me incomodo de pensar que nada será diferente, porque os meus Natais não foram diferentes, muito menos os meus carnavais. É a repetição que me torna aprendiz de mim mesmo. Acho que tenho de ler e reler a minha história. Essa, porventura, seja uma saída. Quando menos eu esperar eu serei outro além de mim mesmo.

Indubitavelmente acredito na mudança, porque se não fosse assim não envelheceria. Envelhecer é uma prova de que mudo, quer eu queira quer não. Não há com o que me preocupar. Até mesmo porque a preocupação é negativa, porque se fosse positiva seria sonho.

Não duvido de que a vida nos leve a lugares totalmente diferenciados quando precisamos retomar a nossa direção, não escolhida por nós. Acredito nisso porque há em nós algo latente, em busca de novas trajetórias, novos começos, porque é preciso evoluir. Na evolução o novo não pode ser apenas uma releitura de nosso passado.

Então, fico feliz, abre em mim uma esperança e até confiança. É só aguardar, fazer o que é para ser feito, e deixar o mundo girar.

Ao estarmos mais velhos os anseios mudam de perspectivas. É impressionante como somos diferentes em termos de visão e valores, menos de sonhos. Nunca abandonamos os nossos sonhos, mesmo que eles por diversas vezes se tornem frustrações. Eles sempre estarão lá.

A caminho de casa todos encontrarão o porquê. Gosto de pensar assim, mas tenho receio de não ser uma verdade. Nunca saberemos. Acho que é assim que todos nós queremos que seja. Muitos conseguem chegar nesse nível. Já vi muitas pessoas plenas no fim da vida, mas já vi também muitos reclamarem que ainda precisam de tempo para realizar seus sonhos. O tempo não é nosso. Só temos um tempo que é o agora. Se puder ser agora, pronto, está feito.

Acho incrível a mente humana, ela está sempre a criar. O real se mostra como queremos ver. Não é ficção, é realidade mesmo. Sem dúvida, que a realidade é bastante incerta. Somos também a dúvida, por isso nascemos num mundo de dualidade. Se fosse diferente seríamos todos felizes, mas não somos. Porque somos incompletos. Ser incompleto é condição humana. Isso nos faz andar sempre em sentido anterior.

A vida nos mostra o caminho, mas, de uma forma silenciosa e inconsciente, somos nós que pintamos o cenário. É por isso que acredito em mundos paralelos. Vivenciamos coisa das quais não conseguimos entender como, muito menos o porquê.

Existe em nós uma inteligência que nos leva a algum lugar. Esse lugar pode ser bom ou ruim, não importa, pois a inteligência não valora, ela manifesta. Tudo o que vivemos nasceu antes em nós, de um modo pouco compreensível. É como um projeto de uma casa. Ninguém sabe como a casa ficará ao estar pronta, mas ela nasceu de um projeto, de uma ideia. Temos também as nossas ideias a respeito do que queremos viver, mas não sabemos como realizar. Por isso, buscamos. Nem sempre as coisas acontecem como planejamos. Porque o realizador não tem a mesma competência do idealizador. Temos os dois dentro de nós. Podemos idealizar, mas nem sempre conseguimos realizar, manifestar no mundo nossas ideias. 

Tudo nasce de um ponto. Algumas vezes, o ponto foi criado muito cedo em nós. Não me canso de ver pessoas que vivem uma vida de angústia e sonhos irrealizados. Não porque elas sejam incompetentes, pelo contrário, elas têm todos os recursos para serem as melhores realizadoras no mundo. Entretanto, algo surge e desmorona os seus castelos de areia. Elas não conseguem entender, porque não podem entender. Fomos abarrotados com os conceitos da autoajuda, que não funciona para todos. Por que isso? Porque não estamos preparados para ter o mundo como idealizamos. Como disse antes, somos bons idealizadores, mas nem sempre realizadores competentes. Para ser competente é necessário disciplina e dedicação. Sem elas é difícil mudar o cenário da vida.

Conheço também muitas pessoas que não fazem nada e conseguem realizar. Realizar não significa estar preparado para a realização. Bem, é preciso saber o que é o melhor. Nem sempre o melhor para você é o melhor para o outro. Mesmo que você consiga um carro novo, uma linda casa, uma família feliz (slogan de margarina), isso não significa que seja o melhor para você. É preciso saber quem cria e ser um bom condutor do cenário criado. Conheço pessoas que possuem muitas coisas, mas não sabem o que fazer com elas. A terceira problemática aparece: Como conduzir o que se realiza?

Todos nós precisamos saber como conduzir a nossa vida. Sem condução não há satisfação. Muitos idealizaram, conseguiram realizar, mas não sabem o que fazer com isso. É como correr na praia com as mãos cheias de areia para construir o castelo. Ao se aproximar dele verifica-se que ele já está pronto, não sabendo o que fazer com a areia que sobra nas mãos. Muitos se irritam e jogam fora o que conseguiram, e, não raro, acabam por destruir o próprio castelo, perdendo tudo.

Conduzir a vida a partir daquilo que se construiu é uma tarefa difícil. Muitos querem mais, sem saberem o que fazer com o que tem. Essas pessoas estão viciadas em obter mais, se desgastaram na conquista, porque a construção foi “forçada”. Tudo o que é feito com esforço cansa. Quantas pessoas conseguiram grandes feitos para no final deixar tudo nas mãos dos outros, ou mesmo sofreram intempéries e não conseguiram desfrutar do que se construiu.

Para ser um bom condutor é preciso sabedoria. Isso é difícil porque não sabemos muito bem como encontrá-la. Eu ainda creio que a sabedoria só pode ser alcançada, quando possível, pela observação e reflexão. É preciso atenção em nós mesmos, tudo o que se passa conosco. Se não for assim, podemos colocar tudo a perder.

Atualmente é o que mais assistimos. As pessoas acreditam numa fórmula mágica de realização, mas isso não existe. Sempre digo e repito, não construímos nada sozinhos, somos cocriadores de nós mesmos. Porque não vivemos isolados. Fomos criados por outros e criamos esses mesmos outros. Fazemos isso o tempo todo, muitas vezes não de modo consciente. Essa é uma questão básica. Temos a petulância de achar que somos suficientes em tudo que ocorre conosco. A consciência é somente uma pequena parte do processo. Existem muitas lembranças guardadas que ditam regras, pelas quais não conseguimos escapar.

Mesmo que entendamos, quando menos esperamos, pronto, repetimos o padrão. Tomamos a decisão de outrora e não dá certo. Ficamos cansados de tanto repetir, de tanto buscar novas tentativas. E quando pensamos que já conseguimos tudo, o mundo nos sacode, nos mostra que as coisas não são bem assim. Não podemos esquecer que o mundo é somente um reflexo de nós mesmos. Não lograremos entendê-lo totalmente. Ele só nos mostra aquilo que somos, ou seja, um novo reconhecimento. Tudo está somente dentro de nós.

Enfim, temos de ter cuidado com aquilo que desejamos.