29 de abril de 2014

Integração como regra para a vida




A vida é polaridade. Somos as duas faces da mesma moeda. Assim como os sons e as cores se interpenetram para formar a cena, a abstração e concretude se fundem e se confundem em nosso ser. Navegamos sem rumo. Sabemos que ninguém nasce munido de bússola. Devido aos nossos limites nenhuma paisagem é completa. É por meio dessa incompletude que buscamos a terra firme, sendo a incerteza prerrogativa da condição humana. Todavia, em várias situações, somos convidados a olhar para nós mesmos como o personagem principal dessa travessia nebulosa e dúbia. Se não aprendermos o que a vida quer nos ensinar, seremos constantemente conduzidos às mesmas situações de outrora. Mesmo velhos, podemos ser redirecionados à situações semelhantes de nossa infância. Podemos repetir ciclicamente.

Como escreveu Friedrich Nietzsche em sua teoria do Eterno retorno:

"E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: "Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez, e tu com ela, poeirinha da poeira!". Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderias: "Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!" Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: "Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?" pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?"
    
Tudo se repete a fim de termos a chance de vivenciar o polo mal elaborado. Aquilo que não foi integrado terá de ser vivenciado novamente, incontáveis vezes, até unificarmos os polos contrastantes. Estamos sendo direcionados à complementação a todo momento. É como uma prova final do ano letivo, podemos ser aprovados ou não. Quem se reprova terá uma nova chance, a vida se encarrega de dar a prova de recuperação. Temos de recuperar a nossa integridade. Muitas vezes pela dor e sofrimento, porque eles nos tornam mais cônscios de nossa realidade. Mesmo assim, não é fácil ver, muito menos conhecer, porque as mentes modernas estão fracas ao silêncio e à reflexão.

Somos condicionados a sobreviver, mesmo assim inventamos histórias para nos sentirmos orgulhosos de nossas conquistas perenes. Somos levados a acreditar que a dificuldade é o certo, nos forjamos no calor do esforço. Porque vale a pena. Somos instigados a desejar o impossível, porque obter o que não se tem nos torna o personagem principal de nossa ode. Quem não consegue lograr um destino melhor acaba por se considerar um fracasso.

Desde cedo ouvimos diversas histórias inspiradoras de luta e conquista. Isso nos fascina porque estamos do lado errado da paz. “Sem luta não há conquista”, brame o coro dos arrogantes numa defesa egoica, que não se fundamentam na paz. A paz é a grande conquista. Não temos mares para navegar senão fundamentados em nós mesmos. Somos o início e fim de nossa própria jornada.

Somos educados a atingir o impossível, e mesmo assim isso não nos garante nada, senão esforço e perda de energia vital. O problema é que nos orgulhamos de nossos esforços como se a nossa história pessoal fosse uma epopeia, porém a vida nos reserva um final como uma simples elegia tosca. A vida ri de nossas pretensões. Eu rio de minhas pretensões ao saber que sofrer faz parte de minhas ilusões imaturas. Tento aprender com Fernando Pessoa quando ele escreve: “Saber não ter ilusões é absolutamente necessário para se poder ter sonhos”. Muitas vezes, não é o adulto que sonha, mas a ilusão da criança que prevalece, forçando o adulto a desejar o inimaginável.

Temos o nosso próprio destino e a vida se encarrega de comandar o curso da história. Se estivermos atentos aprenderemos que navegar por mares calmos é sempre a melhor escolha. Deslumbrar uma história de paz nos trará grandes descobertas. Entretanto, isso só será possível quando integrarmos o polo faltoso.