20 de fevereiro de 2014

A Arte de Reabilitar







Viver é sempre possibilidade, potência de criação. Somos seres repletos de habilidades escondidas nas entranhas de nosso corpo. Muitas vezes acreditamos que as grandes obras artísticas são presentes dos deuses, dadas a alguns escolhidos. Na verdade, somos todos os escolhidos, porque a vida é uma obra de arte inacabada. Sendo assim, temos a possibilidade de nos recriarmos a todo instante.

A palavra “arte”, do latim ars, significa também “habilidade”. É a manifestação humana a partir de uma ideia (imagem mental), direcionada pela emoção (movimento para fora) do corpo. Tudo sempre surge e termina no corpo. O corpo é o palco de manifestação daquilo que trafega em nossas ideias. É como uma grande tela em branco que se transforma em uma linda obra de arte. A ideia surgiu na mente do artista para se manifestar na tela.  Estamos criando algo novo a todo momento, nem sempre compreensível à razão. A revelação será reconhecida no futuro, no tempo do porvir. Contudo, tem de existir atenção ao presente. 

A arte é a habilidade de gerar fascínio. Quando somos maduros somos fascinantes, porque conseguimos ser quem somos. Desse modo, mostramos – sem exibir – a nossa arte, criada ao longo de nossa história. Quando somos maduros aceitamos a nós mesmos de maneira simples, sem retoques. E não precisamos mais do reconhecimento alheio, porque já reconhecemos o nosso verdadeiro valor. Então, se tudo está nas entranhas do corpo, não existe lugar a ser buscado. Não é preciso nenhuma viajem espiritual até locais longínquos.

Reabilitar como Conversão

O que precisamos mesmo é adquirir um novo olhar. Como na conversão de Saulo nos caminhos de Damasco. Ao cair do cavalo, literalmente, ele tenta se reerguer do chão, e percebe sua cegueira. A luz divina foi tão intensa que o cegou, porque até aquele momento ele não tinha bons olhos para ver a pureza. A conversão de Saulo não foi apenas uma conversão da razão, mas, sobretudo, uma conversão do coração. Deus foi tão compassivo com Saulo que o levou ao chão. Antes de se tornar Paulo (o pequeno, o humilde), ele teve de sofrer a queda, à doença dos olhos, a incapacidade de enxergar. Ele teve a oportunidade da reabilitação, porque antes era um homem terrível, um perseguidor. Quando Saulo ouve a voz, como o brando murmúrio do vento: "Saulo, Saulo, por que me persegues? Ele então pergunta: “Quem és tu Senhor”?". E a voz responde: "Eu sou Jesus a quem tu persegues” (At 26,14-15).

Reabilitar é mudança de hábitos

Vivemos cegos, e por não suportar a luz da sensatez usamos óculos escuros da distração. Vivemos surdos, e por não suportar a voz do silêncio usamos os fones da dispersão.  Não existe conversão sem que atravessemos desertos. A doença, por assim dizer, não é o mal, e sim um convite à conversão. É preciso fé e coragem para se reabilitar. Às vezes podemos pensar que a luz divina é só para os escolhidos, porque acreditamos na conversão somente dos santos. O chamado só pode existir para os pecadores, aqueles que erram o alvo, insistem no erro pela teimosia e resistente à mudança. Mudar é difícil, porque quando a alma é retirada pela raiz de suas antigas condições de vida, quando nos é infundido um novo modo de viver, o nascimento só pode ser doloroso. É como as borboletas que passam um tempo na crisálida rígida, até conseguirem se libertar ao voo. Tudo passa, e sempre passará.

A teimosia não é nada mais do que o temor pelo diferente, do desconhecido. É preciso movimentar-se para mudar. Resistir à mudança não nos fará melhor. Pelo contrário, nos dará couraças rígidas, respiração superficial, encurtamentos dos músculos, perda de flexibilidade e, consequentemente, uma vida mais difícil. Estamos em processo de mudança permanente – a única coisa permanente na vida é a mudança – porque envelhecemos.

O corpo é o palco, o script a mente. Podemos sim retornar para dentro de nós e seguir adiante. Por isso, não se deve esperar acontecer. A espera, muitas vezes, é instrumento da indolência. Portanto, se somos autores de nossa própria obra, somos nós que temos de agir. Atuar no agora para que algo surja no âmbito do real. Temos escolhas porque somos os escolhidos.

Poder como Possibilidade

Podemos acreditar que somos seres comuns, sem talentos, sem grandes atrativos. Olhe a sua volta e veja o que você já construiu em sua vida. Sempre estamos edificando algo, criando arte. Ou seja, vivemos gerando habilidades para nós mesmos e para os outros. É o fruto que cresce em terreno propício. Esta é a nossa verdade, o poder como possibilidade.

Porém, num mundo competitivo o poder também passou a ter outras nuances, deixou de ser verdade porque se tornou dominação. Quem quer dominar o outro vive contra o fluxo da natureza humana. Por isso, a palavra “controle” quer dizer rolar contra. Compreendo que esse tipo de poder existe para as pessoas que sentem medo. A obsessão do medo toma conta do cenário mental daqueles que se perderam de vista. 

Quem tem medo permanente não tem fé. É natural ter medo quando há perigo, mas elucubrar ilusões de ameaças não é uma condição saudável. Quem compreende a verdadeira posição no mundo não teme. Foi-nos ensinado: “Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; na verdade, o espírito está pronto, mas a carne é fraca.” (Mateus 26:36). Eu penso nessa verdade como: Religue-se com a sua presença e atenção ao que vai construir no corpo.

Reabilitar é descobrir potenciais

Somos seres artísticos por natureza. Viver pressupõe criar. Não deveríamos ficar abismados com os nossos potenciais quando eles surgem. Nem tampouco deveríamos acreditar que somos melhores do que os outros, pois se os outros não conseguiram algo semelhante aos nossos feitos não é porque eles não tenham habilidade, e sim porque ainda não descobriram o próprio potencial. Não faça comparações, elas só nos trazem infelicidades.  Somos seres únicos, e cada um nasce com um potencial intransferível. Eu nasci com um dom, enquanto você também tem o seu dom específico. Tudo nasce em nossa fonte de potência, e o corpo o manifestará mais cedo ou mais tarde. Isso significa tanto para a saúde quanto para a doença. Nada vem de fora. Doença e saúde são estados do corpo. Quando estou inteiro estou saudável. Quando estou partido estou doente.

Atualmente conhecemos muitos métodos de tratar as doenças. Ao mesmo tempo, nunca tivemos tantas pessoas doentes como agora. Portanto, eu prefiro dizer que a melhor maneira de estarmos saudáveis é nos reinventarmos a cada dia. Não podemos pensar que estamos seguros em nossos hábitos. Temos de aceitar o fluxo da mudança, e aprender a lidar com as incertezas, sem alimentar o medo.

A manifestação no corpo de uma deficiência ou mal-estar é um sinal de que algo não vai bem. Bem-estar ou mal-estar significa literalmente estar bem ou mal no corpo. Quando estamos nos sentindo mal em uma determinada situação, isso significa que estamos mais predispostos à criação de uma doença. O que você pode fazer para mudar a sua situação agora? Apresento aqui três dicas preciosas:

1.       Aceite sua própria presença. Você é um ser divino. Por isso, deve se sentir bem com você mesmo.
2.       Não recuse ser quem você é. Se você não está satisfeito com a sua situação mude o rumo de sua história. Você é o autor de si mesmo. Reabilite-se!
3.       Não se compare a ninguém. Nunca será mais, nem menos, você é você.

Ao atender pessoas acima de sessenta anos, não perco esse foco. Todo processo de reabilitação começa e termina no indivíduo (aquele que não se divide). Não existem regras delimitadas para o bem-estar do ser humano. O que é bom para um pode não ser para o outro. Precisamos compreender a nossa obra corporal. Todavia, temos um mesmo sentido na vida que é ser feliz. 

Reabilitar é costurar

                Ao estarmos inteiros estaremos saudáveis. Existe uma história sufi que nos mostra bem isso:
O grande sufi Farid recebeu a visita do rei. Ele havia levado um presente para o místico, uma bela tesoura de ouro e diamantes. Farid olhou, pegou-a e a devolveu ao rei. Ele disse que agradecia muito o presente, mas não tinha o que fazer com ele. Seria melhor se o rei tivesse trazido uma agulha de presente. Ele explicou que não precisava de uma tesoura, porque ela só serve para cortar e separar as coisas. Uma agulha, por outro lado, junta as coisas. Como mestre, todos os ensinamentos dele eram baseados no amor: como colocar as coisas juntas, como atingir a comunhão. Assim, ele disse ao rei que ficaria muito grato se da próxima vez que viesse visitá-lo trouxesse uma agulha, pois assim poderia usá-la para unir as pessoas, e não separá-las.

Todos nós precisamos de agulhas para unir o que foi separado. Restituir a palavra aos mudos, dar movimento ao corpo aos que perderam a flexibilidade, devolver o som àqueles que não escutam mais, restabelecer a visão aos que não podem enxergar. A vida é um milagre. As pessoas estão doentes porque estão desunidas, principalmente delas mesmas. Se pensarmos na palavra saúde, veremos que só somos saudáveis quando nada falta. Saúde e integridade andam de mãos dadas.
Nesse sentido, no processo de reabilitação do corpo sempre sigo estas palavras de Rainer Maria Rilke:

“O corpo humano só se torna um todo se surgir de uma ação conjunta (interna ou externa), na qual são empregados todos os seus membros e suas forças, assim também, para ele, partes de corpos diversos, que por uma necessidade interna se prendem uns aos outros, podem ordenar-se como se fossem um só organismo. Uma mão que se entrega a um outro ombro ou a outra coxa não pertence mais ao corpo do qual ela veio: dela e do objeto, que ela toca ou agarra, surge uma nova coisa, uma coisa que não tem mais nome e que a ninguém pertence.” 

Enquanto valorizarmos a tecnologia em detrimento do humano, continuaremos a assistir ao teatro da crueldade, com suas personagens incapazes e inábeis no exercício do próprio papel.  Devemos religar os conhecimentos, ao invés de se acreditar que somente uma pílula pode trazer a redenção ao corpo. Toda possibilidade está dentro do sujeito e não fora dele. Portanto, qualquer forma de tratamento só trará benefícios se o sujeito estiver pronto a aceitá-lo. Ninguém pode fazer para o outro, mas sim facilitar o seu potencial inato, no qual está latente. Ninguém se liberta sozinho. Enfim, é preciso comunhão entre quem cuida e quem é cuidado, até os dois se tornarem Um. Por isso, percebo que para alcançar resultados felizes em qualquer processo de reabilitação devemos atuar como os artistas.