5 de dezembro de 2015

Entrevista

Por que o autoconhecimento é importante? O que ele traz para a vida de uma pessoa?

Pedro Paulo Monteiro: Desde a inscrição grega “Ó homem, conhece-te a ti mesmo e conhecerás os deuses e o universo”, no Templo de Apolo em Delfos, sabemos que o autoconhecimento é fundamental para vislumbrarmos a nós mesmos. Nada é certo, tudo é apenas um modo de interpretação da consciência individual. Portanto, em nosso mundo atual com sua cultura tecnológica que nos torna cada vez mais superficiais, o autoconhecimento se torna uma porta que só pode ser aberta para dentro. Eu penso que esta porta é a única saída para alcançarmos o verdadeiro sucesso na vida. Sucesso no sentido de sucessão de etapas. Passamos por várias etapas difíceis, mas se tivermos consciência de quem as experimenta, tudo se torna mais fácil. É preciso viver uma vida consciente pelo autoconhecimento crescente. Assim, seremos maestros de nossa própria orquestração. Os sons mais intensos como os impulsos emocionais que nos perturbam diariamente tornar-se-ão brandos. Porque estamos em contato com nós mesmos. Isso nos trará paz. E só poderemos alcançar sabedoria no âmbito da paz.

Qual o caminho para quem quer apostar no autoconhecimento? 

Pedro Paulo Monteiro: Aprender e apreciar. Aprender sem apreciar o que se aprende não traz satisfação. Apreciar sem aprender não traz significado algum, se torna um caminho sem paisagens. Muitas vezes atendo pessoas que só querem viajar, porque acreditam que conhecerão lugares novos, aprenderão novas culturas. Porém, a verdadeira viagem é aquela na qual fazemos dentro de nós mesmos. Tudo que está fora é um reflexo do que está dentro. Não é tarefa fácil ter a presença no presente, mas se conseguirmos entender que tudo começa e termina em nós, ou seja, em nosso próprio corpo, aí sim teremos a chance de compreender que o que realmente nos satisfaz é a nossa caminhada solitária com nós mesmos. Uma dica simples é prestar atenção na respiração. Quando o foco está no ar que entra e sai também nos focamos em nossa existência. Assim, podemos nos encontrar. Entretanto, aqueles que estão com o pensamento voltado para fora, para o fazer, ou ocupados com as próprias preocupações, nunca saberão que são seres no mundo para o aprender e apreciar. Muitos esquecem até mesmo que existem. Se nunca nos procuramos, como queremos nos encontrar?

Você é um estudioso da mente. Que tal aproveitarmos o final do ano para destacarmos a importância do pensamento positivo? É verdade que ser otimista e cultivar pensamentos positivos contribui para que a mente jogue a nosso favor? Há exercícios para nutrirmos esse tipo de vibração? 

Pedro Paulo Monteiro: Sabemos pela neurociência que o ser humano modela o mundo de acordo com as noções que recebe de seus sentidos e como a consciência individual interpreta esses dados. Cada um interpreta de sua maneira. Todos nós temos um cérebro com as mesmas estruturas, porém a organização é diferente para indivíduos diferentes. Tudo dependerá de como a experiência é apreendida. Sendo assim, nada é real se não acreditarmos que seja. Cada forma pensamento se constrói por aquilo que já foi experienciado. Portanto, ter pensamentos positivos sem que o próprio sujeito acredite neles não surte nenhum efeito. Ser otimista fundamentado em utopias é correr o sério risco de frustração. Se sou eu quem pensa, e acredito naquilo que penso, mesmo que não seja tão real assim, por que não escolher pensar de modo mais positivo? O único lugar que somos totalmente livres é no modo de pensar a nossa própria vida. Qualquer acontecimento tem sempre vários aspectos. Muitas vezes não conseguimos ver aspectos positivos em situações adversas. Porém, se eu souber que sempre haverá algo escondido de meu olhar, e procurar os melhores ângulos da situação, com certeza conseguirei resolver o problema com mais tranquilidade. É como tentar encontrar a chave do carro no lugar iluminado, sendo que não foi ali que a chave foi perdida. Muitas vezes, preferimos ficar atrelados aquilo que já conhecemos, não nos arriscando tatear pelos lugares desconhecidos para aprendermos outros modos de ser. Não podemos conhecer nada novo se não for pelo desconhecido. Visitar espaços conhecidos não é conhecer, e sim reconhecer. Gosto de ilustrar a ideia de como podemos pensar de duas maneiras contraditórias, dependendo de nosso humor. Vou contar uma história interessante. Havia dois homens que quebravam pedras numa praça em Paris. Um transeunte que passava por ali perguntou ao primeiro, que parecia estar de mal humor, o que você está fazendo? Ele respondeu: “Estou quebrando pedra. Você não está vendo? ”. Ele se afastou e foi em direção ao segundo que realizava a mesma tarefa, e fez a mesma pergunta. O homem respondeu com um sorriso: “Estou construindo uma catedral. A catedral de Notre-Dame”. Tudo sempre dependerá de nosso ponto de vista, ou da vista do ponto. Eu não daria um exercício para nutrirmos pensamentos positivos, mas diria para as pessoas se afastarem de situações que causem medo e ansiedade. Porque são as emoções negativas que nos forçam a pensar negativamente. Uma dica simples, comece por desligar a televisão ou o computador quando as notícias forem negativas, contemplem paisagens mentais mais leves e belas.

Há diferença entre ego, mente e cérebro? Como podemos definir esses conceitos e qual a melhor forma de lidar com eles para que possamos ter mais qualidade de vida, desenvolvimento e um envelhecimento melhor? 

 Pedro Paulo Monteiro: Sim, em meu livro “A mente e o significado da vida”, mostro essas diferenças. O cérebro é um órgão como qualquer outro. Como o fígado, por exemplo. Enquanto a mente é um processo. Ela está em toda a parte e em parte alguma. Pode parecer estranho este conceito, mas hoje com as pesquisas realizadas pela física quântica, já podemos entender melhor que o nosso mundo não é tão certo e estável como pensávamos ser. A mente não está no cérebro e também acredito que o cérebro não a produz como muitos pensam. A mente também é o nosso corpo. Costumo dizer que somos muito mais que os nossos pensamentos, e que a mente pode interferir na biologia de nosso cérebro. Muitas de nossas escolhas se dão pelo padrão emocional apreendido em fases precoces de nossas vidas. Nossas células ficam viciadas com os acontecimentos experimentados. Mesmo que mais tarde não soframos mais aquelas experiências, elas continuarão lá pedindo para que pensemos a respeito delas. Atendo a um homem, por exemplo, que foi muito pobre na infância, passou por várias privações. Agora, ele é um homem rico de 86 anos. Porém, ele continua a evitar gastar para economizar. Certa vez eu perguntei: “por que razão você continua a passar privações para economizar dinheiro? ”. Ele me respondeu: “Economizo para a velhice. Nunca se sabe quando vamos precisar. ” Então, eu disse: “Eu tenho duas notícias para lhe dar. A primeira que você está na velhice desde os seus 60 anos de idade. A segunda é que mesmo que você se esforce não terá tempo suficiente para gastar todo o seu dinheiro”. Ele carregava o medo da infância no corpo em forma de tensões musculares. O pensamento é matéria. O corpo carrega toda a história de uma pessoa. Por isso, para termos mais qualidade de vida e um bom envelhecimento, que começou desde a nossa concepção, é importante o autoconhecimento. Saber principalmente quem somos, e onde estamos. O ego, por exemplo, é o oposto do Eu Real. O ego é um tipo de fantasia criada. Desde a infância já escutamos que é preciso ter ambições, ter desejos, ter vontade, para estar no topo de tudo. Aprendemos que precisamos nos tornar alguém e deixarmos para trás o mais importante, o que realmente somos. Se não conseguirmos domar o nosso ego não conseguiremos chegar a conhecer a nós mesmos. Ao ministrar aulas sobre qualidade de vida, sempre me refiro ao processo individual. Ou seja, ter qualidade de vida não é fazer aquilo que os outros dizem que é bom fazer. Você precisa se conhecer para saber o que quer. Se souber quem é a pessoa que faz a escolha saberá o caminho a seguir. Outro tema recorrente em suas obras, é o envelhecimento. E, final de ano, é época de todos fazerem uma relação de promessas para ter um ano de mais realizações.

Qual a importância de se conectar com valores e anseios mais ligados ao ser, ao desenvolvimento humano?

Pedro Paulo Monteiro: Consciência é solidão. Ninguém pode adentrar a realidade não-consensual que é a mente individual. No palco da mente só existe um personagem principal que é o sujeito que a tem. Somos autores de nós mesmos. Existe uma tendência a acreditar que os sentimentos e pensamentos são os mesmos para todos. O que não é verdade. Cada um tem uma maneira particular de organizar as experiências. Isso torna cada história de vida única e intransferível. Assim também é o processo de envelhecimento. Cada um tem sua maneira própria de envelhecer, baseado em sua história de vida. Ou seja, envelhecemos como vivemos. Meu trabalho é ajudar pessoas a perceber que elas precisam estar conectadas com elas mesmas, saber quem escolhe, e, principalmente, conhecer o próprio espaço simbólico que habita. Sendo assim, as pessoas podem se desenvolver, envelhecer com qualidade e evoluir. A melhor promessa, em minha opinião, para obter um ano de realizações é saber quem está no comando. Isto é, não é alcançar algo, mas alcançar a si mesmo. Sabemos que o processo de envelhecimento é contínuo e democrático: todos envelhecem.

Por que é importante não brigar com esse fato? Quais os ingredientes para um envelhecimento com mais harmonia?

Pedro Paulo Monteiro: É muito bom saber que todos nós somos impulsionados para frente. Isso é envelhecer. Não acredito que envelhecemos e ficamos piores por isso. O que a cultura nos força a acreditar. Se pararmos para refletir sobre a evolução, então compreenderemos que envelhecer é uma oportunidade de nos tornarmos melhores com nós mesmos a cada momento de nossa vida. Temos a chance de ser mais a cada novo dia. Porém, envelhecer com harmonia é compreender que a paz deve ser buscada sempre. Se determinada situação não está boa, então temos de mudar de direção. Não podemos acertar sempre. Ao conhecer a dinâmica biológica de um sistema vivo, entendemos que o erro é uma grande catapulta para novos espaços criativos. Nada pode ser criado na ordem, pois é na desordem que surgem novos meios de viver. Obviamente, que precisamos de momentos de ordem, porque se não fosse assim não sobreviveríamos. Pense o quanto é difícil mudar. Para fazer qualquer mudança é preciso muita determinação e forte vontade. Todavia, ao conseguir fazer a mudança, novos horizontes surgem. Vejo a doença, por exemplo, como um grande incentivador de mudança. Muitas vezes, as pessoas sofrem porque são teimosas e resistentes ao processo da vida. Ninguém consegue ficar parado, só na morte. Portanto, enquanto vivermos é preciso entender que nada é estável. Costumo orientador aos mais velhos que para terem um envelhecimento saudável é importante aprender a surfar nas ondas da incerteza.

Pelo que pesquisei, seu livro mais recente é O Tempo não tem idade. Do que se trata? Por que recomenda a leitura? 

Pedro Paulo Monteiro: Tive a necessidade de escrever esse livro para pessoas de todas as idades que querem se libertar de um sentimento desgastante que é a ansiedade. O sentimento da falta de tempo nada mais é do que estar desconectados. Enquanto estivermos distraídos, continuaremos a fazer escolhas que nos roubam o tempo para estarmos juntos a nós mesmos. A proposta do livro é mostrar que o tempo não existe da maneira que pensamos. O tempo é uma abstração, portanto só pode fazer parte da consciência individual. Para a consciência, o tempo não pode ser medido, nem tampouco quantificado. O tempo que nos habita é chamado de Kairós. Ou seja, cada um tem dentro de si todos os tempos. Somos a criança, o jovem e o velho. Todos unidos em um só ser. Por outro lado, o tempo cronológico é o tempo que nos angustia e nos provoca ansiedade, nos retira a harmonia e, consequentemente, a paz. Como eu disse antes, sem a Paz não pode haver sabedoria. Por isso, é importante dizer que nem todos os mais velhos possuem a sabedoria. Os velhos sábios são aqueles que aprenderam a respeitar o próprio ciclo de vida. Eles adquiriram experiências com qualidade porque refletiram sobre elas. Ter sem ser não faz sentido algum. Em suma, convido a todos a lerem o livro para aprenderem a deixar de insistir tanto nas medidas do relógio, para que a experiência com o tempo se torne diferente. Pois, ao ficarmos mais focados em nossas reais necessidades poderemos ser senhores de nosso próprio tempo.