24 de agosto de 2010

Sinto saudade de nossas conversas

Quando escrevo uma história me apodero do outro. Então, de quem passa a ser a história? Ela se perde como história única de quem a viveu, e se torna a história de quem a lê.

A memória é uma capacidade psíquica complexa. Por um lado, depende da natureza da informação sensorial. Por outro, como a informação é percebida pelo cérebro.

O cérebro ao elaborar a informação sensorial não a traduz como ela é. A informação deixa de ser como ela é para fazer parte daquilo que o cérebro é em sua totalidade. Ou seja, de como ele se organizou ao longo do tempo. Nessa perspectiva, sem dúvida, somos as nossas sinapses, e é nelas que contêm a nossa história autobiográfica, recheada de crenças, conceitos, expectativas, e assim por diante.

Se eu perguntar qual a cor dos olhos de sua mãe, será fácil dizer a cor, mas não tão fácil definir com exatidão como os olhos dela são. Lembramos, mas mudamos a todo instante aquilo que evocamos da memória. Por isso, somos seres altamente reinventivos. Nossas experiências anteriores nos conduzem a maneiras de perceber o mundo aqui e agora. A percepção presente precisa fazer comparações com o formato básico de uma lembrança. Por isso, uma memória não é um arquivo morto ou um armazém de lembranças. A memória nos auxilia a montar novas cenas. Quem faz isso é uma pequena área do cérebro chamada hipocampo. Ele tem esse nome porque sua estrutura se parece com um cavalo marinho, o que, aliás, nunca achei assim tão parecido.

Segundo pesquisas neurocientíficas é o hipocampo que monta as memórias de curta-prazo em memórias de longo-prazo, mantidas em diferentes regiões do neocórtex (área mais superficial do cérebro). Literalmente o hipocampo transforma o desconhecido em conhecido.

Quando o hipocampo fica comprometido por uma doença degenerativa, como no caso da doença de Alzheimer, a pessoa não consegue formar novas memórias. É por isso que essas pessoas conseguem se lembrar de antigas memórias (mantidas no neocórtex), mas não conseguem lembrar daquilo que comeram no almoço. E não é só isso. Dependendo do dano provocado no hipocampo as próprias memórias antigas começam a ficar comprometidas. Porque nossas lembranças precisam de alimentação contínua, caso contrário elas se dissolvem, se tornando outras memórias. Ou seja, elas são reinventadas por inverdades.

Se você não consegue dizer qual a cor e os detalhes dos olhos de sua mãe, é só ir até a cozinha e pedir a ela para olhar para você. Acenda a luz e veja o rosto de sua mãe mais de perto. Pronto, você reforçou sua memória com a imagem atual. Agora ela possui mais detalhes que antes.

Talvez você possa fazer isso, porque sua mãe está na cozinha. No meu caso isso seria impossível, pois a minha mãe já faleceu há mais de dez anos. A única lembrança mais marcante que tenho dela, com relação aos seus olhos, é a permanência solitária de seus óculos na estante da sala, logo após o funeral. Essa imagem ficou indelével em mim. Ela nunca retirava seus óculos, a não ser quando fotografada.

Nunca poderei saber com exatidão a cor dos olhos de minha mãe. Posso dizer apenas que eram pretos. Não, acho que eles eram castanhos escuros. Definitivamente não sei.

Passei tantos anos ao lado dela sem nunca reparar seus olhos. Talvez, isso não seja verdadeiro. Porventura, a minha memória esteja agora pregando peças em mim. Como não tenho novas sensações para reforçar as minhas redes neurais, a fim de preservar uma lembrança, a imagem de minha mãe se desvaneceu no meu tempo. A imagem dela desaparece aos poucos de minha história pessoal, para somente se tornar um conceito fugaz.


Ontem conversava com um paciente cujo marido está demenciando a passos largos. Eles vivem juntos há mais de cinquenta anos. Um relacionamento homossexual bem-sucedido. Ele me disse que a maior saudade que tinha de seu companheiro era de suas conversas. Ele me relatou emocionado:

Sentar e tê-lo ao lado. Simplesmente tê-lo ao lado para ouvir o que ele tinha para mim. O que mais sinto falta é de nossas conversas. Hoje tenho um estranho ao meu lado, como também sou um estranho para ele. Não nos reconhecemos mais. Como sinto falta de nossas conversas. Nunca vou me recuperar.”.

De fato nunca podemos nos recuperar de uma lembrança perdida. A maior tristeza de uma doença degenerativa cerebral é que ela devora a identidade da pessoa em vida. A demência deste homem devastou sua autobiografia, retirando do parceiro a capacidade de reconhecer (conhecer de novo) todas as situações que juntos foram vivenciadas. O que significa uma lembrança vivenciada por duas pessoas em que somente um pode evocá-la? O que permanece na memória de um sem o consentimento do outro é letra morta, é navio sem rumo, escuridão sem promessas de luz.

13 de agosto de 2010

Reverência ao feminino

Atualmente as mulheres parecem carregar um dispositivo em suas bolsas que toca um alarme ao se sentirem ameaçadas em perder sua posição masculina. Elas estão abandonando algo, que por incrível que pareça, muitos homens tentam resgatar, o pólo feminino.

Eu conheço muitas mulheres que não sabem ser mulher. São mães dedicadas, profissionais competentes, excelentes educadoras, cuidadoras exemplares. Porém, perderam a potência feminina, ou mesmo nunca tiveram. Ser mulher não é ser menor. É ser um manancial de fecundidade de possibilidades sensíveis. O que tanto o mundo necessita urgentemente.

Todos nós, homens e mulheres, devem preservar o pólo feminino. Ele nos anima como nos incita ao belo e a poesia, ao sensível criativo, ao romance fluído, ao amor sem apego. O pólo masculino é ação, enquanto o feminino é comunhão. Um interdepende do outro. São complementares e fundamentais aos princípios morais. Um gera o movimento, o outro comunga, reverencia e se abre ao sagrado.

Não é por acaso que o mundo está tão doente. Não equilibrar os dois pólos é estar fragmentado, partido, infeliz porque incompleto.

O feminino é entrega, é deixar-se ir sem controle (rolar contra), abrir os braços em cruz e compreender que existe uma sabedoria maior a nos direcionar. Não há dúvida de que o sofrimento é resistência e ignorância.

A potência está latente nas mulheres, mas elas a encobrem com receio de serem submissas. Ninguém pode subjugá-las se assim elas não quiserem. Portanto, para isso, não é preciso manter a força externa, a resistência, a brutalidade. Isso é ser desvairado, pernicioso com um princípio maior.

Todos nós transitamos entre os dois pólos em busca de uma individuação, o centro de si-mesmo. Só no centro reverenciamos a nós mesmos como indivíduos de valor. Indivíduo é aquele que não se divide, e não se corrompe enquanto for inteiro, único e, porquanto, saudável.

O feminino é colocado à parte, e as mulheres se defendem com couraças de proteção. Sofrem as dores por estarem protegidas no pólo masculino, e o desejo se torna somente narcísico. Essas mulheres se acham suficientes enquanto alquebradas.

A alma feminina sempre terá o seu lugar enquanto houver bondade, verdade e beleza autêntica. As mulheres precisam resgatar o pólo perdido, porque só assim elas poderão renascer como seres iluminados.


8 de agosto de 2010

O olho do furacão


Como é triste para aqueles que conseguem ver por detrás daquilo que os outros somente enxergam. Para muitos é um dom, mas o outro lado da moeda é a maldição. É sofrido ter olhos que veem a compleição desnudada dos fatos, sem maquiagem ou retoques. É como ter sede no deserto, avistar um oásis, e saber que não adianta seguir até lá para se saciar.   Este olhar enxerga a paisagem carcomida pelas inverdades e ilusões. Vê como as pessoas interpretam papéis, constroem ideologias para suportar o intento de vida. Se isso é dom não sei, porém é deveras condoído. Quem aceita estar numa vida sem sabor (sabedoria) é porque se contentou com as migalhas. Não são quaisquer migalhas, são migalhas recondicionadas pelo aprendizado social. Seria tão bom ter uma rede de relacionamentos autênticos. Todavia, não se pode ter o que este olhar recusa. Não adianta nenhuma tentativa de evasiva, dele nada se esconde.
O melhor portanto é praticar a compaixão, não a tolerância. Porque tolerar é fingir, cair no desespero da cegueira consciente. Com os anos passamos a não esperar nem desesperar, e o tédio nos sobrepõe por pensar assim.
As pessoas ao meu lado que não temem o meu olhar, não temem porque finjo. Aprendi a interpretar a história de felicidade autêntica para sobreviver. Quem tudo vê também tem de aprender a se calar. Queria gritar a minha verdade, mas não seria com generosidade. Assim, não vale a pena. Ninguém quer debater conteúdos, apenas ficar nos rótulos. Ser simples não é o mesmo que ficar na superfície. Mas, para estar em companhia dos outros é preciso subir à superfície, pois quem muito fica nas profundezas também se perde.