17 de setembro de 2011

O rosto e as mãos dos velhos




Ontem dei uma entrevista para a Rádio Nacional em Brasília. Entrevista pelo telefone sempre me dá a sensação de falar sozinho. Porque não vejo os interlocutores e não interajo pela voz. Para estarmos em relação é preciso expressão emocional. Apesar de não escutar as variações vocais ou ver as silhuetas corporais sei que alguém pôde me ouvir. Talvez a dona de casa fazendo o almoço ou os que estavam presos no trânsito. O importante é que a mensagem pôde ser transferida, mesmo sem que eu soubesse aonde ela chegava. Uma das minhas falas foi que as pessoas não querem falar sobre o envelhecimento pela ideia de que ser velho é ruim, principalmente porque elas acham que ser velho é ser doente e incapaz. E se você não está doente e não tem uma “certa idade”, então o velho passa a ser o outro. De preferência aquele que tenha um corpo encurvado, arrastando as pernas, porque essas características identificam o que é ser velho. O que ninguém pensa é que sempre somos velhos enquanto existir os mais novos que nós. Velho e novo dependem de referências, e não comparações.

Ninguém escapa do movimento de passagem da vida. Estamos mais velhos a cada instante porque os segundos passam. Não existe alternativa senão viver o que se tem para viver.

Naquela noite assisti na televisão uma entrevista com uma pessoa de 70 anos de idade. Eu estive com ela num programa de televisão anos atrás. Ela estava transformada pela cirurgia plástica. Não sou contra as cirurgias plásticas, mas sempre que vejo uma pessoa transformada assim eu penso como é difícil para aquela pessoa ter de enfrentar a mudança pelos anos. Um fato me chamou atenção, ela escondia as mãos. Ela não gesticulava com as mãos. Então descobri, ela não queria mostrar o que não se pode ser retocado pela plástica. As mãos não podem ser preenchidas. Aquela mulher sabe das coisas e conhece bem as ilusões televisivas.   

Se você não consegue se assumir como é, então cairá no apelo do que os outros pensam sobre você. Não digo que seja fácil você ter de abandonar os conceitos que os outros possam ter sobre você, e até mesmo renunciar ao preconceito deles. Mas, se você conseguir entender que tudo isso não é mais do que uma ilusão, e, sobretudo, se você conseguir se aceitar pelos seus valores mais nobres, sem dúvida, outros também o aceitarão.

Pelo fato de ter um rosto, modificado pela cirurgia, não significa que você esteja parecendo mais nova. Todos sabem que você fez uma plástica, e até elogiam, porque é polido elogiar uma mulher velha que está querendo ser mais jovem. Todos sabem que as mulheres receiam o julgamento pela idade. Apesar de a idade ser um conceito neutro, ela tem suas repercussões psicossociais.

Os realities televisivos de plásticas hollywoodianas ajudaram a fortalecer a crença de que uma ruga é sinal de vergonha. Tudo faz parte do pacote sensacionalista de que se deve ter cautela em assumir quem se é. O fantástico é a aparência. O show de estar na vitrine é o guia das multidões. Estamos chegando à época de que os velhos são aqueles que não podem pagar pela recauchutagem.

Por que esconder duas partes importantes do corpo, se o melhor é estar na companhia emocional do outro? O rosto possui mais de dez mil expressões. Todas reforçam os laços de relacionamento. Do mesmo modo, sem as mãos não há troca. Elas dão a oportunidade de doar e receber, de tocar e trazer para perto. É pelas mãos que se materializa a solidariedade. Se elas são escondidas pode haver isolamento. Se o rosto não expressa a emoção, porque está desanimado, os outros se afastam. Pesquisas mostram que as pessoas com menos expressões faciais são menos atraentes aos outros.

Quando assumo quem sou, posso ser velho, feio, gordo, até mesmo indecente e cheio de celulite. Só alcanço a maturidade quando assumo o meu ciclo de vida. Ter maturidade é ser capaz de se garantir como pessoa. Ao conseguir isso, saio da prisão que o outro me coloca, para atingir a liberdade. O sofrimento existirá enquanto houver falta de liberdade. Não adianta querer o que não pode se ter. Ninguém escapa do envelhecer enquanto viver.

O problema não é velhice, e sim como você construiu a sua vida até chegar a ela. As pessoas que não suportam ser quem são sofrem miseravelmente. No fim, elas desistem das reformas do rosto e mostram as mãos para acolher socorro. Se mesmo assim não suportarem a sua forma física, ainda resta a misericórdia da catarata para cegá-las. Se a imagem ainda assim for insuportável, poderão ficar no tempo de outrora, relembrando os dias de glória, até demenciarem. E como todos os dementes, eles não se lembram de mais nada do tempo presente, somente do passado. Então, pode chegar o momento em que elas deixam de olhar para elas mesmas como pessoa e só ficam no que já se foi, num tempo inexistente, um tempo em que se sentiam bem por uma imagem totalmente equivocada do que eram, sem nunca terem sido.

 

11 de setembro de 2011

O tempo é um só




           Desde muito cedo aprendemos a projetar o futuro, um tempo que não é ainda e que não sabemos se será. A incerteza é o que nos move e nos faz mudar. Só podemos ser alguém pela mudança. Envelhecer é mudar. Não importa a idade, estamos envelhecendo e nos transformando. No processo de envelhecer adquirimos acontecimentos, somamos experiências, formamos histórias. Somos o que somos porque tudo balança. Como dizia Montaigne: “O mundo não passa de uma balança perene. Todas as coisas nele balançam sem cessar”.   

Quando eu era criança fantasiava as mais belas paisagens e as melhores imagens para um tempo que ainda estava por vir. Por meio de brincadeiras já demonstrava o que eu me tornaria na vida adulta. Lembro-me de brincar de professor, montava sala de aula com caixas de fósforo representando as carteiras, e punha bonecos Playmobil, índios apaches, xerifes, super-heróis, perfilados em uma mesma classe. Na última fila ficavam os monstros, porque eles eram os bonecos maiores, não porque eles eram inferiores. Na minha brincadeira não havia distinções entre os alunos, porque eu ainda desconhecia as demarcações do diferente. Só quando cresci mais um pouco fui perceber que mesmo entre as crianças existem as regras da diferença. Um grupo nos enquadra em certas classes sociais. Fui rejeitado por parte de meus colegas porque eu era o mais pobre deles. Não podia ter os mesmos brinquedos. Então encontrei asilo entre os mais velhos. As brincadeiras não eram as mesmas. Eles gostavam mais das histórias do que das fantasias infantis. Eu gostei daquilo. Achava interessante o que eles me contavam. Sendo assim, me tornei parceiros deles, uma espécie de interlocutor mirim, com muitas questões sobre tudo.
          
          O tempo do passado já anunciava a minha trajetória futura. O porvir já se prefigurava lá atrás. Hoje, no tempo presente, percebo todas as linhas do tempo e teço a minha presença aqui e agora. Todos os acontecimentos foram fundamentais para eu ser o que sou. Para sermos inteiros nada pode ser descartado, nem mesmo o sofrimento. Sem dúvida, quando percebia que eu estava sendo rejeitado por não ter o que os meus colegas tinham, isso gerava sentimentos de revolta, incompreensão, tristeza e, consequentemente, emoção de raiva. Foram fatos marcantes porque até hoje consigo lembrar. O que não tem relevância cai no vazio do esquecimento. Atualmente, no entanto, sou grato aos meus colegas pela rejeição, pois assim aprendi o valor da inclusão.