26 de outubro de 2010

Crise da Meia-idade

Quero compartilhar uma pequena entrevista com a jornalista Ana Elizabeth Diniz do Jornal O Tempo sobre crise da meia-idade.



O que você me diria sobre a crise da meia idade?

A palavra "Crise" vem do grego κrisis, cujo significado é decisão. É um momento de mudanças. O que não é fácil, pois somos resistentes em deixar nossa zona de conforto. Porém, temos de decidir qual caminho seguir. Não sabemos se a direção escolhida será melhor ou pior. Simplesmente temos de optar, e experimentar uma nova forma. A palavra "Crise", no latim, pode também significar ruptura, término de um estado para se iniciar outro.

Ela existe mesmo?

 

Experimentamos na meia-idade porque passamos a ver a vida de outro modo, passamos de um estado de perspectiva a outro. Quando criança pensamos em brincar, quando adultos somos instigados a ter maiores responsabilidades no âmbito do trabalho e da família. Ao chegarmos na meia-idade passamos a pensar a vida por outro ângulo. Não mais pensamos como pensávamos antes. Sabemos que não somos os heróis como acreditávamos ser. Nessa fase surgem outras demandas como, por exemplo, ter mais atenção à nossa própria história de vida. Ou seja, o que foi e o que poderá ser.

Quando ocorre?

Sobretudo quando sofremos um impasse. No momento em que temos de decidir o que fazer de nossas vidas. É comum surgir questionamentos existenciais a partir dos quarenta anos de idade. Mas isso não é uma regra, depende de como o sujeito experimenta o seu viver.

Atinge mais homens ou mulheres?

Ambos.

Dicas para evitá-la ou superá-la.

Não penso que deveríamos evitar o que nos faz sentir. Pode ser difícil, ainda mais em tempos de tantas distrações. Vejo a crise da meia-idade como um chamado, uma oportunidade de se fazer uma revisão de nossa história. Aquilo que é de fato importante para nós. Por assim dizer, penso que na crise devemos ter mais consciência de quem somos e saber discernir o que é desejo e o que é necessidade.

17 de outubro de 2010

Neste momento...

Sinto uma rufada de vento. Ele tem esse propósito, acordar os sentidos. Para quem escreve, é preciso afinar o instrumento. Não se pode deixar passar um dia sequer sem escrever. Tenho vacilado nos últimos dias, pois a carga de trabalho terapêutico acaba por me levar à indolência com as palavras. São atividades diferentes, mesmo que eu as cruze de vez em quando.

Já que o vento me acordou e o pássaro cantou, então sou instigado a escrever. Costumo ouvir o canto deste pássaro, que agora me chama. Não sei se posso reconhecê-lo como amigo. Ele parece cantar a mesma canção todas as manhãs. Será que ele é sempre o mesmo? Acho que não, mas prefiro acreditar que sim. Assim tenho um amigo. Não quero discriminar os pássaros. É um amigo cuja presença me faz sentir melhor, e pronto. Essa é a finalidade dos amigos, em quaisquer situações o simples fato de sabermos que eles estão por perto já nos faz sentir apoio, amparo, conforto.

Este pássaro canta a mesma canção todos os dias para mim. Ele agora está por perto, aqui no jardim, escondido por sua timidez, ou por cautela. Os animais são desconfiados. Eles têm de ser mesmo. Nunca se sabe a natureza do outro bicho. Isso me lembra de uma parábola africana que conta que havia um sapo na beira de um rio. Ele estava pronto para atravessar quando se aproximou um escorpião pedindo para que ele o ajudasse a atravessar. O sapo concordou desde que ele prometesse não picá-lo. O escorpião retrucou dizendo que ele podia ser mal, mas não era burro. Porque se ele o picasse o sapo ficaria paralisado e ambos morreriam afogados. O sapo achou lógico. Então, lá foram os dois. Assim, que o sapo estava chegando à outra margem do rio, o escorpião cravou seu ferrão nas costas do sapo. E o sapo antes de morrer perguntou a razão de ele ter feito aquilo. Ele respondeu que aquela era a natureza dos escorpiões.

A natureza nos faz agir de certo modo que nem sempre sabemos o porquê. Não tem lógica. Se houvesse, eu não assistiria a pessoas mais velhas maltratadas por seus próprios filhos, ou pais educando seus filhos a ser mesquinhos, e assim por diante. Não quero escrever sobre isso agora. Porque hoje é domingo, e estou falando de um canto amigo.

Hoje é dia de ventos suaves. Nada de rajadas fortes de ventos primaveris. Hoje é domingo, quase ninguém trabalha. É um dia de silêncio. O vento não costuma trazer muitas novidades.

Quero estar a favor do vento. Pois se ele soprar em minha direção, escutarei esta linda canção de um pássaro amigo, mesmo quando ele estiver distante.

15 de outubro de 2010

Sintoma

O que é um sintoma? A etimologia da palavra “sintoma” vem do grego, que quer dizer juntar os pedaços: sin (juntar) tomo (pedaço). Juntar as peças de várias sinalizações orgânicas ou psíquicas, assim como num quebra-cabeças. Isso é o que eu faço no meu dia-a-dia terapêutico.


Seria bem mais fácil se a linguagem de nosso organismo fosse linear – como eu aprendi na faculdade – Ou seja, baseado em causa e efeito, antes e depois. O tempo correndo numa direção determinada. Mas não é bem assim.

Quando pensamos num sintoma, naquilo que nos faz mal, pensamos o que o causou (passado). A linearidade tem como condição prévia a noção de tempo. Por exemplo: “Eu estou enjoado porque comi algo que me fez mal”. Simples demais. Nem sempre podemos pensar num sintoma como algo que nos provocou (passado) o mal-estar. Temos de pensar de outra maneira: “Eu não me sinto bem, então procuro algo para comer que me fará mal para justificar o meu estado”. Quantas vezes ficamos com raiva e descontamos na comida?

É mais fácil pensar que algo externo nos provocou algo. Aprendemos isso pela física newtoniana, não é mesmo? “A cada ação corresponde uma reação igual e oposta”.

Seria mais verdadeiro, mais honesto com nós mesmos se soubéssemos que nada está fora. Somos nós os nossos próprios construtores.

O tempo não é partimentalizado, uma coisa depois da outra (ideia de sequência). O tempo é criação de nossa consciência lógica. O nosso modo de pensar foi produzido a partir dessa noção, mas não quer dizer que as coisas sejam assim.

Ontem foi solucionado um sintoma de um paciente que há três semanas estava a incomodá-lo. Ele apresentava uma dor no ombro esquerdo (aspecto feminino), e não conseguia compreender a relação entre o ombro e o feminino. Na última semana, eu disse para ele ficar atento a qualquer figura feminina que porventura pudesse entrar em contato com ele. Então, ele abriu as portas da percepção, e naquela mesma noite recebeu a visita de uma mulher, que não o via há vinte anos. Ele tinha sido o seu primeiro amante, e não conseguia deixar de se culpar por abandoná-lo sem justificativas. Ela surgiu para justificar a sua partida. Ele a perdoou e o sintoma desapareceu por completo.

Pode parecer estranho, mas estamos interligados por campos morfogenéticos, como Rupert Sheldrake menciona em seus trabalhos. Campos estes que nos unem e nos fazem.

Nunca devemos deixar nada para trás. Aquilo que não resolvemos, acaba por nos cobrar uma atitude, mesmo que seja muito tempo depois. São sintomas que se revelam para nos mostrar um caminho mais justo.

Quando resolvemos um emaranhamento relacional nos libertamos para seguir em frente.