28 de setembro de 2010

Palestra Relacionamento



Palestra Relacionamentos
Pedro Paulo Monteiro dia 21/09/2010.

(Texto baseado nas anotações dos participantes)


Gostaria de abordar três tópicos importantes sobre relacionamento:

PrimeiroToda relação é caminho de mão dupla. Não existe relação sem cumplicidade. É na relação que flui a energia entre o EU e o OUTRO. Portanto, o princípio dialógico tem de existir para que haja relacionamento. Apesar de hoje em dia o diálogo estar escasso, em que só o monólogo tem importância. (leia mais)

25 de setembro de 2010

Prepare as malas para partir

Ninguém acredita que vai morrer, a não ser que haja uma ameaça iminente. Ou porque se está doente, ou porque tem muita idade. Estar doente não quer dizer que se vai morrer. Muitos conseguem sobreviver aos diagnósticos mais terríveis. Estar muito velho também não significa nada, pois ao nascer já estamos velhos o suficiente para morrer.


Desde muito cedo carrego a ideia de minha morte, e aprecio exercitar o desapego. Não me acho insubstituível no palco da vida. Percebo que sou um ser em andamento, no caminho de minha finalização. Até quando, não me preocupo. Um dia a finalização da obra da vida se completa e as cortinas se fecham.

Sempre digo às pessoas com as quais me relaciono terapeuticamente: “Perde-se o corpo, mas não se deve perder a dignidade”. A dignidade permanece, mesmo ao sairmos de cena. Temos de deixar bons exemplos para os outros, principalmente aos mais jovens. Porque assim estamos consolidando algo maior, a criação de bons modelos para o mundo. Temos de pensar nisso, para que os outros possam realizar o que muitas vezes não fomos capazes de fazê-lo.

Ontem disse a uma mulher de oitenta anos: “Prepare a mala para partir”. Pode parecer estranho dizer isso, mas quando nos preparamos para morrer nos preparamos para viver. Jung dizia: “Um velho que não consegue se despedir da vida parece tão débil e doentio quanto um jovem que é incapaz de abraçá-la”. Ela, na verdade, tem muita dificuldade em se desapegar das coisas, e das pessoas. Ela sofre com os excessos, e com acúmulos.

Ontem também atendi a um homem velho que tem uma aparência muito mais jovem para a idade dele. Ao olhar para ele via o modelo sonhado por muitos, numa sociedade que adora consumir superficialidades. Ele tem um corpo que não se desenvolveu. Não conseguiu crescer como pessoa. Nunca teve um relacionamento com uma mulher, ainda é virgem, e sempre viveu sozinho. Sendo ingênuo e receoso, ele não suporta estar ao lado das pessoas. Como ele mesmo diz: “Sempre fui egoísta, porque nunca tive de repartir nada com ninguém”. Ele nunca ambicionou crescer, e só agora aos sessenta e cinco anos de idade resolveu viver, porque se viu ameaçado pela morte. Isto é, a morte lhe trouxe a oportunidade de pensar em começar a vida.

Esses duas histórias mostram que vivemos uma ambiguidade. Na história dela, a incapacidade de se desapegar antecipa a morte pela doença, provocada pela resistência e sofrimento. Na história dele, a morte anunciada dá chances para ele começar a viver.

Enfim, só não se pode demorar, pois a vida tem o seu tempo próprio, como pode ser visto no vídeo abaixo:


18 de setembro de 2010

Podemos mudar nossas escolhas passadas?


Muitas vezes não sabemos por que razão nós tomamos determinada atitude, por que escolhemos uma coisa ao invés de outra. E se tivéssemos tomado outro caminho, feito outras opções, a vida teria sido melhor? Esse dilema é enfrentado por todos nós em uma determinada época da vida. Quanto mais vivemos mais tempo deixamos para trás. Isso não é problema. O verdadeiro problema é quando ele se torna culpa – uma espécie de nostalgia maligna que nos atormenta e nos impede de continuar.

Na semana passada, escutei uma pessoa me dizer: “Se eu tivesse me casado com a minha primeira namorada ao invés de ter me casado com a minha esposa, eu teria sido mais feliz”. Eu perguntei: “Como pode afirmar isso?”. Ele respondeu: “Hoje a minha primeira namorada é uma mulher mais bonita que a minha esposa”.

Será que a beleza física por si só pode ser fator determinante de felicidade? Eu não acredito nisso, mas somos sim influenciados o tempo todo a pensar dessa maneira.

Expliquei a ele que a beleza física sempre foi pensada como sendo o bom e o verdadeiro. Se ele estava insatisfeito com o casamento não significava que sua escolha havia sido ruim, até mesmo porque ele já tinha tido várias recompensas em seu relacionamento de anos. Então eu perguntei sobre a esposa dele. O que ela tinha de bom e verdadeiro. Ele enumerou vários atributos positivos dela. Em seguida, perguntei sobre os atributos positivos de sua primeira namorada. Ele não soube me dizer, porque não tinha tido contato com ela desde a adolescência.

Ele permaneceu pensativo durante algum tempo, e de repente me disse que não sabia o porquê de ter falado aquilo. Ele estava confuso e envergonhado por ter pensado daquela maneira sobre a esposa.

Enfim, eu disse que não sabemos por que nos apaixonamos por alguém, por que escolhemos construir uma família, e decidimos ter filhos. Somos guiados por algo que vai além de nós mesmos. Somos guiados por nossos genes, cultura, aprendizado social. O que fazemos sempre tem um sentido, mas nem sempre sabemos encontrar respostas que justifiquem os nossos atos. O mais importante é saber reconduzir a nossa maneira de pensar no presente, e não elucubrar o passado. O que se foi já nos marcou, mas o que virá é uma decisão presente. Não devemos repetir padrões, e repeti-los nada mais é do que ficar nos culpando com as escolhas feitas. Somos seres altamente dinâmicos e, portanto, mutáveis. Nossa escolha presente determinará o nosso futuro, mas também ressignificará o nosso passado. Sendo assim, o ato de mudança de toda a nossa história é feito neste momento, aqui e agora. Pois, o tempo nos pertence. Cabe a nós decidir ter uma compreensão mais amável de nossa história de vida.

7 de setembro de 2010

Por que caminhar sem caminho?

É dia de sol tímido, frescor no asfalto, frutas frescas na feira, roupas leves, pessoas andando na rua em busca do desfile dos colégios. Hoje é dia da independência, mais um feriado.


É um bom dia para fazer uma caminhada. Nunca é tarde para colocar o corpo em movimento. Há muito não coloco o meu corpo para dar passos sem destino, sem objetivos de chegada.

Fazer caminhada é ir a um não-lugar, sem planos de ida. A caminhada serve apenas para o corpo se cansar, queimar aquelas calorias acumuladas pela lasanha da noite anterior. Colocar o coração para bater mais forte, para assim, quem sabe, poder ouvi-lo melhor.

O corpo se desenvolve com o envolvimento de quem o tem.

Se a caminhada não é para todos, porque nem todos buscam a satisfação de simplesmente andar na rua, então por que razão caminhar? Muitos caminham com a esperança de que terão um corpo mais aceito para os olhares alheios.

Se eu pudesse ter um corpo ideal que corpo eu teria? Não tenho resposta. É uma estupidez querer ter um corpo que não é o meu. Não saberia movê-lo. Seria um homem paralisado. Não saberia contrair músculos que não me pertencem. Sem falar na maldade de incorporar o corpo do outro, que perderia o próprio corpo, para satisfazer desejos de quem não se esforçou para tê-lo. Ter um corpo estático, para fotografia, não é tarefa fácil. É necessário muito esforço e privações.

Se eu pensar naquele modelo de corpo televisivo que se mostra agradável aos olhares dos outros, eu entendo que a vontade de ter um corpo assim não é para ter um corpo somente, e sim para ser aceito pelo olhar do outro. Então, o desejo está em obter aceitação para amenizar uma carência. Nada tem a ver com o corpo, e sim porque muita gente acha bonito aquilo que se mostra na mídia. Em suma, o corpo ideal é uma ilusão.

Outra argumentação para fazer uma caminhada é melhorar o funcionamento do organismo. Se o organismo não é uma máquina, então ele não pode funcionar. Se fosse assim, seria fácil trocar o pneu tala larga substituindo-o por pneu biscoito. Não precisaria tanto esforço, bufar e suar.

O meu corpo, assim como o seu também, é um organismo vivo que se constrói e se desconstrói baseado nas experiências vividas. Ele não ficará mais magro e mais bonito só porque andou durante quarenta minutos trotando nos paralelepípedos da cidade, ultrapassando obstáculos criados pela negligência dos políticos. Então, por que caminhar?

Se eu quisesse contemplar os ipês amarelos, lobélias azuis, begônias, os lírios. Para que estas flores me renovassem a esperança do renascimento e dos ciclos da natureza que habitam em mim, aí sim eu teria um sentido para caminhar. Contudo, sair somente para aquecer as gorduras indesejáveis a fim de que elas derretam com o suor do esforço, só de pensar nisso já fiquei cansado.

Por isso decido não sair de casa. Isso já me satisfaz. Quero apenas curtir o dia de minha independência de pensar.