É dia de sol tímido, frescor no asfalto, frutas frescas na feira, roupas leves, pessoas andando na rua em busca do desfile dos colégios. Hoje é dia da independência, mais um feriado.
É um bom dia para fazer uma caminhada. Nunca é tarde para colocar o corpo em movimento. Há muito não coloco o meu corpo para dar passos sem destino, sem objetivos de chegada.
Fazer caminhada é ir a um não-lugar, sem planos de ida. A caminhada serve apenas para o corpo se cansar, queimar aquelas calorias acumuladas pela lasanha da noite anterior. Colocar o coração para bater mais forte, para assim, quem sabe, poder ouvi-lo melhor.
O corpo se desenvolve com o envolvimento de quem o tem.
Se a caminhada não é para todos, porque nem todos buscam a satisfação de simplesmente andar na rua, então por que razão caminhar? Muitos caminham com a esperança de que terão um corpo mais aceito para os olhares alheios.
Se eu pudesse ter um corpo ideal que corpo eu teria? Não tenho resposta. É uma estupidez querer ter um corpo que não é o meu. Não saberia movê-lo. Seria um homem paralisado. Não saberia contrair músculos que não me pertencem. Sem falar na maldade de incorporar o corpo do outro, que perderia o próprio corpo, para satisfazer desejos de quem não se esforçou para tê-lo. Ter um corpo estático, para fotografia, não é tarefa fácil. É necessário muito esforço e privações.
Se eu pensar naquele modelo de corpo televisivo que se mostra agradável aos olhares dos outros, eu entendo que a vontade de ter um corpo assim não é para ter um corpo somente, e sim para ser aceito pelo olhar do outro. Então, o desejo está em obter aceitação para amenizar uma carência. Nada tem a ver com o corpo, e sim porque muita gente acha bonito aquilo que se mostra na mídia. Em suma, o corpo ideal é uma ilusão.
Outra argumentação para fazer uma caminhada é melhorar o funcionamento do organismo. Se o organismo não é uma máquina, então ele não pode funcionar. Se fosse assim, seria fácil trocar o pneu tala larga substituindo-o por pneu biscoito. Não precisaria tanto esforço, bufar e suar.
O meu corpo, assim como o seu também, é um organismo vivo que se constrói e se desconstrói baseado nas experiências vividas. Ele não ficará mais magro e mais bonito só porque andou durante quarenta minutos trotando nos paralelepípedos da cidade, ultrapassando obstáculos criados pela negligência dos políticos. Então, por que caminhar?
Se eu quisesse contemplar os ipês amarelos, lobélias azuis, begônias, os lírios. Para que estas flores me renovassem a esperança do renascimento e dos ciclos da natureza que habitam em mim, aí sim eu teria um sentido para caminhar. Contudo, sair somente para aquecer as gorduras indesejáveis a fim de que elas derretam com o suor do esforço, só de pensar nisso já fiquei cansado.
Por isso decido não sair de casa. Isso já me satisfaz. Quero apenas curtir o dia de minha independência de pensar.