27 de novembro de 2010

Aprendendo com os bambus


Todo tipo de radicalismo incita resistências. Empurra-se a parede enquanto a força empregada se transforma em fadiga muscular. Frequentemente atendo pessoas cansadas de tanto empurrar paredes. Para quê? Para manter sua postura. Temem fracassar na vida se não se mantiverem estáveis.

Grande parte de nossas doenças é devido ao medo. Um músculo tenso, contraído, é um músculo em prontidão. Quando o medo sai de cena os sintomas são aliviados, o corpo fica leve e se cura.

Muitas pessoas são radicais e inflexíveis com suas crenças. Semana passada uma pessoa me perguntou se eu não tinha medo de minha aposentadoria. Mesmo com um milhão de reais investido e ganhando uma boa aposentadoria, ele duvida estar seguro. “Tenho medo de o dinheiro acabar”, ele me confidenciou. Perguntei a ele: "Com a sua idade e seus hábitos, você acredita que o seu dinheiro acabará?”. “Nunca se sabe”, ele coçou a cabeça. Então eu disse: “Sabe por que não acaba? Porque você não tem mais tempo de gastá-lo".

Se compreendêssemos que somos nós mesmos a criar a ideologia do medo o medo terminaria. Ainda resistimos em ceder a nós mesmos, resistimos pelo medo de perder as nossas ideologias. Construir muros reforçados de proteção só nos isola do aprendizado. Só aprendemos quando vivemos espontaneamente, experimentamos aquilo que outrora não conhecíamos. Se queremos conhecer o novo temos de abandonar a zona de conforto. Abrir-se para ir à busca de um novo padrão. Só mudamos ao deixarmos de lado os padrões antigos. Ao permitirmos sentir a nova experiência, sem julgá-la - ou seja, sem racionalizá-la - estaremos prontos a ver a situação com novos olhos. Aí o corpo poderá se inclinar. Isso é humildade com nós mesmos. Só mudamos quando somos humildes. Ser humilde é também uma maneira de nos curar do medo.

Ao ver uma atitude prepotente e autoritária vejo o medo estampado no corpo dessa pessoa. Ela se fortalece na contração, sem relaxamento. Durante muito tempo a palavra "relaxada" era vista como descuidado, desleixado, irresponsável. Ainda sentimos assim, tanto é que só conseguimos relaxar em situações propícias ao relaxamento. Nunca podemos relaxar no trabalho, somente no lazer. Isso não é saudável. O relaxamento é um pré-requisito importante à qualidade de vida. Costumo ensinar aos meus pacientes que passam por situações conflituosas expirarem profundamente, mais do que inspirar. A expiração esvazia, faz ceder, liberta. Toda embarcação navega com mais desenvoltura ao estar a favor do vento. Sem vento não há mudança. Sem um respirar correto não há fluxo de transformação. Isso fica claro quando nos assustamos, ficamos em posição de inspiração, ombros rígidos, mãos fechadas de tanto socar o inimigo imaginário.

Mudar é difícil para quem teme se soltar: "O que será de mim se eu ceder?". Então mantem a postura. O que está "posturado" é fixo, sem movimento, sem vida. É como os abajures. Lembro-me de um amigo dizer que um dia sua tia de setenta anos bateu em sua porta e disse que vinha passar uns dias com ele. Não havia nenhum contato entre ambos. Resolveu deixá-la ficar, e ela nunca mais foi embora. Ele não tinha o que conversar com ela. Não sabia criar vínculos. Ele trabalhava muito e não percebia a presença dela. Sempre que chegava a casa à noite ela estava assistindo televisão na mesma postura. Até o dia em que ele chegou e não a encontrou na postura de costume. Ele sentiu uma grande angústia, correu para ver se algo havia acontecido com ela, e quando chegou à cozinha percebeu que ela estava simplesmente fazendo um chá. Então, ele percebeu que ela já fazia parte do mundo dele. Sigmund Freud conjecturava que a introjeção do objeto no ego facilita o abandono do mesmo.

Assim fazemos com tudo e com todos. É importante abandonar, deixar ir, para continuar. Enquanto vivemos tem de existir movimento anterior. A regra da vida é o desequilíbrio e não a postura. Mesmo que não estejamos ainda muito convictos com esses conceitos, temos de saber que o equilíbrio newtoniano está circunscrito ao mundo da matéria inerte, e não a matéria orgânica. Baseado nisso a importância de aprendermos com os bambus; temos de ser flexíveis. Os bambus se curvam ao vento para posteriormente retornarem esguios e sublimes.




23 de novembro de 2010

Criança desesperança


O que se pode esperar do futuro de uma criança de sete anos que só pensa em comprar? O filho de minha empregada ganhou hoje um novo celular, com um plano cheio de vantagens. Ele poderá falar muito gastando quase nada. Mas aí eu pergunto, ele vai falar com quem? Bem, ele não precisa falar ao telefone. Ele pode escutar música. Mas qual a música escolher para ouvir? Tem de fazer um download na internet. Ele não sabe fazer, precisa de um computador. Então, ele fica trocando o toque de chamada. Ele repete os sons me fazendo ouvir com ele. Estou tentando me concentrar nos meus estudos, mas acabo decorando a sequência dos toques. Já sei qual será o próximo. Estou me tornando um vidente, agora acerto o futuro.
Enquanto estudo mitologia primitiva me deparo com a tecnologia do futuro. A mãe manda-o estudar para os exames finais da escola. Ele liga a televisão para assistir Chaves. Eu sempre detestei esse programa idiota. Tento voltar a me concentrar nos estudos de Joseph Campbell. Por coincidência leio: “Observamos no mundo da criança, a solicitude dos pais leva à crença de que o universo é orientado para o interesse da própria criança, pronto para reagir a qualquer de seus desejos ou pensamentos”.  Nem termino de ler e ouço a mãe conversar com ele sobre as promoções da Claro, e o quanto ela conseguiu vantagens. Não tenho dúvida de que o presente dado ao filho é um troféu para a mãe. Ela venceu, conseguiu comprar, ela tem o poder das “vantagens”.
O que ela não sabe é que não está levando vantagem alguma, só educando o filho de maneira equivocada. Ela está instruindo o filho a entrar no deserto da insatisfação e, consequentemente, nas frustrações futuras. Porque se ele não puder ter os diversos produtos como celulares, computadores, videogames, e outras parafernálias tecnológicas, que foram feitas para se tornarem obsoletas em um menor tempo possível, ele se desesperará. O que ela não sabe é que essas gerigonças foram construídas para acabar logo, pois a “novidade” aguça o desejo de ter sempre um “novo aparelho”, porque ninguém quer ser ultrapassado, antiquado. Essa criança do futuro já recebeu um imprinting da cultura do desejo à novidade, modernidade, de um mundo descartável.
Quando ele estiver mais velho, adulto, talvez ele seja um homem frustrado por não conseguir dar conta de dar aos filhos o que a mãe não conseguiu dar a ele. Porque, sem dúvida, não é só um aparelho de celular que ele quer. Ouço agora ele falando com a mãe: “No Natal quero uma moto elétrica”. Ela responde que vai ver. Ela só dará o presente que ele quer se voltar a estudar para a prova. Pronto, está feito o contrato da chantagem. Ele vai e se senta na frente da televisão para assistir um desenho animado chamado “padrinhos mágicos”. Não sei do que se trata, nem quero saber. O que sei de fato é que não consegui terminar os meus estudos. A hora passou, perdi a minha manhã. Desligo o meu celular.

17 de novembro de 2010

Arrumar as pedras do caminho






Ultimamente tenho estado irritado, talvez seja pela demanda de trabalho. Fim de ano chegando. A sensação é de que o peso de todo o ano vai se acumulando nas minhas costas. Não sei se todos se sentem assim.

Neste ínterim, resolvi arrumar as pedras do caminho. Sim, as pedras da entrada de minha casa estavam soltas. Não chegava a ser um impedimento, mas tive de chamar um pedreiro para cimentá-las.

Sinceramente não sei como alguém pode gostar de obras. Lembro-me de uma vizinha mais velha que dizia: "Obra é a minha vida”. Assim que ela terminava uma, resolvia desmanchar para recomeçar. Ela tinha muitas pedras soltas no caminho. Os buracos precisavam ser preenchidos.

Quem gosta de obras tem de ter os dias soltos. Eu não tenho. Mesmo quando não estou fazendo nada faço alguma coisa, e isso é tudo para mim. Tenho de me exercitar ao ócio, ele é importante. Ao lidar com pessoas mais velhas, vejo a dificuldade de muitos em aceitar não ter nada para fazer. O tempo livre é um exercício que deve ser iniciado mais cedo na vida de uma pessoa. Não aprendemos isso na escola, mas deveríamos. Muitos se sentem inúteis porque querem fazer algo, mas não sabem o quê. Não fazer é também uma ação importantíssima, pois nela podemos nos recriar, solucionar os enigmas do passado, aprender a estar sozinho. Sempre digo que estar sozinho e se sentir sozinho são coisas totalmente diferentes. Muitos se sentem sós porque rejeitam a sua própria companhia. Não aprenderam a se relacionar com elas mesmas. Por isso não concordo com a expressão: "Mente vazia, oficina do diabo". Temos sim de deixar espaços vazios para serem preenchidos com as novidades. Algo que ainda não fomos capazes de experimentar. Temos a tendência de viver anos e anos repetindo padrões conhecidos. Portanto, preencher buracos com novas experiências é um meio de criar novos espaços de pertencimento. Desse modo, a solidão não nos sufocará.

Ontem atendi uma mulher de oitenta anos que me dizia que o insuportável na velhice é não ter nada para fazer. Ela faz crochê, mas odeia. Ela o faz para se distrair. A distração não é a melhor opção. Ao se distrair ela deixa de estar com ela mesma, para estar fora, alienada de si. Todos nós sempre estamos sozinhos, os outros são somente espelhos. Sendo assim, as pessoas com as quais convivemos são importantes, mesmo aquelas que nos irritam. Sem elas não nos conheceríamos. Elas nos dão a capacidade de nos enxergarmos melhor. A minha vizinha que gosta de obras, na verdade é o oposto de mim. Ela é uma oportunidade para eu aprender a fazer coisas que resisto em fazer e, consequentemente, sofro por isso. Ela me mostra que também sou capaz de resolver aquilo que não conheço. Uma chance de experimentar, de sair de minha zona de conforto, de abandonar a repetição de meu cotidiano.
 
Agora sei por que detesto ter de arrumar as pedras do caminho. Preferia nunca ter de precisar arrumar nada. Porém, a vida é mais sábia. Ela me incita ao aprendizado, me força a sair de mim para buscar novas alternativas.


4 de novembro de 2010

Um simples gesto de retribuição


Sinto uma profunda gratidão ao me emocionar com as histórias de pessoas comuns. Elas são tão reais que sinto que somente nestas histórias posso confiar. Ser terapeuta é ter a perícia em perscrutar o background de um acontecimento revelado. Lido continuamente com o que denomino de “efeitos especiais”. A grande maioria das pessoas quer me impressionar com histórias de bondade e de grandeza, somente para acarinhar o ego delas, e serem aceitas por mim. Como terapeuta eu não julgo, pois o meu papel não é julgar, e sim ajudar a elucidar o processo de suas vidas, auxiliar na colheita dos cacos de um passado fragmentado. Contudo, eu também sinto, e prometi para mim mesmo que me permitirei sentir sempre. Não quero ser o “profissional” separado do meu eu pessoal. O que me toca de maneira inefável é algo que me faz ser melhor. Sempre digo que as pessoas que atendo me ensinaram, e continuam a ensinar, muito mais do que todos os meus estudos teóricos. Não existem autores que me façam refletir mais do que as pessoas em processo terapêutico.

Ao me emocionar com uma história, vejo-a carregada por uma trilha sonora belíssima. É fantástico poder escutar um acontecimento passado e criar as minhas próprias imagens mentais. Eu reinvento a fala do outro para estar dentro dela. E lá eu me regozijo. Eu sempre desejei viver sonhos em estado de vigília. Nas histórias de meus companheiros de aventura terapêutica posso me sentir engrandecido. Certa vez li uma reportagem de um milionário que dizia que o maior sonho dele era poder ajudar as pessoas a serem melhores. Eu não sou nem um pouco rico, mas me sinto tão bem por poder contribuir com as pessoas.

Frequentemente os meus atendimentos vêm carregados de dores e sofrimentos, sejam por um passado repleto de mágoas, sejam por situações mal resolvidas. Para quem vive uma situação difícil de ser resolvida pode parecer impossível que um dia a vida melhorará. Posso afirmar que sempre melhora. Basta ter paciência consigo mesmo. Podemos sim resolver o que se passou. Com um pouco de humildade é possível dar um novo significado ao passado, criando novas forças ao presente, e oportunidades felizes ao futuro.

Hoje escutei uma mulher de setenta anos de idade dizer: “Nunca fui feliz em toda a minha vida, mas na velhice sou a mulher mais feliz do mundo”. Não poderia aqui contar toda a história de vida dessa mulher, porque daria um livro inteiro. Mas, ela me revelou algo fantástico hoje:

“Nunca disse a ninguém o que vou contar a você. Na minha vida de casada nunca senti prazer sexual. O meu marido sempre foi um homem respeitador, me ensinou muita coisa, uma época a qual eu não sabia nada de nada. Quando ele morreu, fiquei muito triste por perder uma pessoa importante na minha vida. Nunca tivemos filhos. Mas, eu tive de seguir adiante. Anos após conheci outro homem. Ele foi a minha grande descoberta. Nunca pensei que eu ainda teria uma pessoa a quem amar. Ele foi muito mais do que eu poderia imaginar. Ele era carinhoso, e me deu algo que eu nunca podia ter imaginado. Ele conseguiu retirar meus bloqueios sexuais e, consequentemente, meus medos da vida. Ele me tornou mulher. Eu era casada, mas não era mulher. Então, certo dia, eu vi um anúncio de curso de pompoarismo no jornal. Liguei para saber o que era. A menina me respondeu que era uma antiga técnica oriental, derivada do tantra, que consiste na contração e relaxamento dos músculos circunvaginais, buscando como resultado o prazer sexual. Eu queria dar a ele o que ele me deu. Eu necessitava retribuir o bem que ele me fizera.”

Neste momento vi os olhos dela lacrimejarem. Pensei estar próximo de uma mulher que havia se preparado para o ritual do sexo sagrado (Maithuna). Desenvolvida inicialmente pelas sacerdotisas dos templos da Grande Mãe a fim de ser utilizada nos rituais de fertilidade. Ela se expressava como uma verdadeira deusa tântrica ao me contar o que era o verdadeiro orgasmo feminino. E no fim, ela me disse que ele nunca havia tido orgasmo, mas naquele dia especial ele conseguiu chegar ao verdadeiro orgasmo. “Eu consegui retribuir o grande bem que ele me fez”. Então eu perguntei: “Como você sabe?”. Ela simplesmente riu e respondeu: “Foi a primeira vez que ele gritou”.

2 de novembro de 2010

Coisas difíceis



• Descobrir o que já foi esquecido.

• Levantar cedo sem ter planos para o dia.

• Comer somente o que o organismo necessita.

• Silenciar na revolta.

• Quebrar o círculo vicioso de pensamentos obsessivos.

• Olhar estrelas em noites de chuva passageira.

• Desistir de um sonho infundado.

• Viajar sem se cansar, mesmo em férias.

• Confiar em pessoas que não confiam nelas próprias.

• Mastigar bem os alimentos sem ficar enjoado.

• Aproveitar uma experiência completamente, sem perder nada.

• Construir um império, depois derrubá-lo, para reconstruí-lo novamente.

• Rezar com convicção plena, sem divagações.

• Ser leve em meio à tempestade.

• Saber abandonar o dia anterior a cada manhã.

• Evitar dizer “eu faço”, “eu tenho”, “eu fui”, “eu sou”, dentre muitos outros eus.

• Livrar-se das resistências, mesmo sabendo que são elas a provocar o sofrimento.

• Ter o próprio sonho, sem ser influenciado por nada nem ninguém.

• Diferenciar o que se pode jogar fora daquilo que sempre será seu.

• Trocar o rolo de papel higiênico.

• Acreditar no impossível, sabendo que o impossível nunca pode ser pensado.

• Saber que a sua história não pode ser lembrada, e sim recriada.

• Aceitar que o que termina tem de terminar.