28 de fevereiro de 2011

Entrevista

Entrevista concedida à Andreia Vitorio para a Revista do Instituto dos Auditores Fiscais da Bahia



Andreia - O que pode ser definido como uma “velhice bem-sucedida”?


Pedro Paulo - Velhice bem-sucedida é viver esta fase da vida de maneira íntegra. A velhice é como a infância, uma categoria social. Entramos na velhice ao completar 60 anos de idade. O que diferencia a infância da velhice é que na última carregamos muito mais histórias. Muitas vezes pensamos que ser bem-sucedido é ter alcançado sucesso profissional. Mas, isso é somente uma pequena parte. O nosso maior desafio na velhice é ter a vida passado a limpo, principalmente com as nossas relações pessoais. Conheço muitos que vivem doentes, porque não conseguiram ainda rever seus conceitos de vida, ou mesmo perdoar-se com relação ao passado. Portanto, viver de maneira íntegra é viver com saúde. Infelizmente, as pessoas ainda pensam que a saúde do corpo não depende de sua história pessoal. Acham que a doença vem de fora, o que não é verdadeiro. Os nossos sintomas indicam que ainda falta juntar os pedaços. Pode parecer que a biologia não tem nada a ver com isso, mas tem. A palavra “sintoma” vem do grego, significando sin = juntar e tomo = pedaços. A doença é uma sinalização de que a maneira que levamos a vida precisa mudar. Entretanto, é muito mais cômodo culpar a idade.

Andreia - Como envelhecer bem?

Pedro Paulo - Não deixando nada para trás. Tudo precisa ser resolvido no aqui e agora, e aquilo que não se pode resolver já é um problema resolvido. Envelhecer bem é passar pela vida refletindo o que ela te mostra. Vejo a vida como uma grande arena de aprendizado.

Andreia - Além da prática de exercícios e de uma alimentação saudável, quais outras atitudes podemos ter enquanto jovens para garantir um envelhecimento de qualidade? Qual a importância, por exemplo, dos amigos, da família e de um bem-estar afetivo?

Pedro Paulo - É preciso cautela e risco para se viver. Nossas atitudes são determinantes em nossa qualidade de vida. Sem dúvida, viver bem materialmente fazendo exercícios físicos e tendo uma alimentação saudável nos faz estar bem no corpo (bem-estar), mas é preciso também saber como traçar boas estratégias de relacionamento. É fundamental que teçamos positivamente nossas redes de relacionamento. Viver consciente é uma boa maneira de garantir um envelhecimento de qualidade.

Andreia -  A partir da sua experiência em atendimento, quais as principais queixas dos mais velhos?

Pedro Paulo - As grandes queixas são as preocupações e as culpas. Preocupação negativa é o que denomino de preocupação improdutiva. Você perde muita energia pensando em algo que não sabe se de fato irá acontecer, e como não se pode resolver algo que ainda não se mostrou na realidade, a pessoa tensiona o corpo para lutar ou fugir. Essa atitude faz com que todo o organismo sofra mudanças. Estas mudanças são provocadas pela liberação de hormônios de estresse, levando o organismo a permanecer vulnerável às doenças.

A culpa é um sentimento paralisante. As pessoas que se sentem culpadas são pessoas tensas, com dores no corpo, sobretudo nas costas. Por uma perspectiva simbólica do corpo, as costas são a lixeira psicossomática onde é depositado aquilo que não se quer enfrentar. Entretanto, a culpa não é tão simples de ser reconhecida. É mais fácil reconhecer a culpa quando fazemos mal a outras pessoas. Mas, ela pode vir também quando deixamos de fazer o bem; ou quando pensamos que poderíamos ter tido uma vida diferente se tivéssemos tomado outro caminho; ou porque desperdiçamos oportunidades. Enfim, a lista é enorme.

Andreia -  E seus anseios? Qual a importância de planos, projetos e sonhos para envelhecer bem?

Pedro Paulo - É sempre importante ter objetivos. O nosso cérebro é mais ativo quando estamos em busca de algo. A inatividade é o grande mal. Muitas vezes as pessoas acreditam que se não podem realizar grandes feitos não tem por que planejar. Devemos ter projetos sempre. Podemos começar pelos pequenos. Aquilo que não me agrada, tento fazer de modo diferente. Para realizarmos um sonho temos de dar um passo de cada vez. Não há outro meio de agir se não for por nós mesmos.

Andreia - Com o passar dos anos, é comum ficarmos mais expostos a fatores de risco à saúde, a perdas de funções e papéis, de posição social e até mesmo de convivência com pessoas queridas. Precisamos, de certa forma, nos prepararmos para a perda à medida que envelhecemos?

Pedro Paulo - Perdemos sempre, mas toda perda vem carregada de novas aquisições. Basta ter olhar para ver. Somos passagem. Tudo muda. Não podemos construir uma casa numa ponte, a vida é uma ponte. Não temos como nos preparar para perder, mas podemos saber que somos muito mais do que aquilo que perdemos. Temos de colocar as coisas em perspectiva. Saiba que somos nós a escolher como nos sentimos em quaisquer circunstâncias de nossa vida. Podemos nos sentir mal com a perda, é natural, mas se escolhermos preservar este mal é importante saber que o corpo responderá de alguma maneira. Daí os riscos para a saúde.

O importante é não ficar melancólico e saudosista daquilo que já passou e se perdeu no tempo. Somos muito mais importantes do que as nossas perdas.

Andreia -  Se por um lado perdemos, o que podemos ganhar com o envelhecimento?

Pedro Paulo - Muita coisa. Envelhecer nos faz mudar de perspectivas e conceitos. Se não envelhecêssemos não teríamos a chance de fazer diferente e melhor. Só podemos ter esperança porque envelhecemos. Envelhecer é um processo de transformação do indivíduo no seu tempo vivido. Se hoje está ruim, amanhã poderá estar melhor, porque estamos nos transformando. Quantas pessoas atendo que me falam: “Hoje sou bem melhor do que no tempo da minha juventude”; “Hoje consigo ter liberdade, porque sou dona de mim mesma”; “Hoje faço tudo o que não tive a chance de fazer antes”.

26 de fevereiro de 2011

Elefante de circo




Meu pai adorava circo. Quando um levantava a tenda próximo à cidade, íamos assistir ao espetáculo. Eu me questionava quanto tempo era necessário para que os treinadores pudessem ensinar os truques aos animais. Impressionava-me com os elefantes. Eram animais inteligentes e, no entanto, tristes por isso.


Eu carregava um questionamento: Por que um elefante fica amarrado a uma estaca de madeira enterrada poucos centímetros no chão e não foge?

Embora a corrente seja grossa e resistente, é óbvio que ele poderia fugir facilmente, levando com ele a estaca, a corrente e tudo que encontrar pela frente.

Um elefante é forte o bastante para escapar, mas não o faz.

Por que razão os elefantes são tão resignados? Não fogem porque são amestrados? Mas se são amestrados, por que acorrentá-lo?

O elefante não escapa porque se habituou. A corrente é colocada quando ele é ainda pequeno e fraco o bastante para escapar. Ele tenta, mas não consegue. Chega um momento em que ele desiste de sua liberdade. Então cresce sem conhecer a sua verdadeira força, se contrai, se submete.

Somos como os elefantes, desconhecemos a nossa verdadeira força porque fomos educados a duvidar de nossa capacidade criativa.

Na minha infância escutei várias mensagens de adestramento. Só para citar algumas:

• “As coisas conseguidas com sacrifício são melhores”;
• “Estude para ser alguém na vida”;
• “Sem esforço não se chega a lugar nenhum”.

Fui uma criança rebelde e questionadora, e quando adulto passei a duvidar dessas mensagens. Ao invés de buscar só o desconhecido para aprender o novo, passei também a questionar o conhecido. Busquei outras maneiras de ver a minha vida. Mesmo que as sentenças parecessem lógicas, passei a duvidar do certo a fim de descobrir outras maneiras. Criei novas mensagens para mim:

• Sacrifício significa Ofício Sagrado, portanto é preciso acreditar na missão a mim confiada, independentemente de elas serem boas ou ruins;

• Desde o momento em que nasci já era alguém. Só é preciso envelhecer um pouco mais para aprimorar este alguém;

• Esforço cansa. Nega-se o fluxo para manter o controle. A dedicação, por outro lado, é imprescindível para ir adiante.

Enfim, hoje estou mais velho e menos adestrado do que antes. Ainda assim, sigo a vereda de minha verdade.

7 de fevereiro de 2011

Ideias e papéis

Tenho tantos papéis e muitas ideias. Papéis de todo tipo: grandes e pequenos, folhas amarelas e verdes, entre outras cores de lucidez. Porém, falta a motricidade, o desenrolar pelo caminho das palavras. É assim que se sentem os trabalhadores braçais. O tempo só resta para puxar os calcanhares e sair do lugar.

Fico a correr atrás de algo para preencher. Papel em branco é sempre um convite para borrar. É instigante ter espaço, sentir a caneta deslizar, marcar o papel, deixando-o repleto de desenhos de letras. Formar palavras, dar sentido, som para as frases. Significado para o cérebro, mudança de perspectiva para o corpo. E o caminho se abre novamente, após um ponto.

Hoje li que os músculos nos fazem pensar. Ou melhor, o próprio pensamento só pode surgir pelo movimento. Como é bom dançar ao som das letras, mesmo para quem não se movimenta, ou seja surdo. No mundo das ideias tudo é possível, porque tudo é permitido. Basta, entretanto, saber escolher o melhor, sem exigências. Não devemos exigir demais de nós mesmos. É preciso aprender a dançar.

Quantas e quantas vezes evitamos pensar, ou mesmo escrever o que evitamos pensar. É preciso coragem para ver o que não é visto.

Escrever no papel é mais interessante do que no computador. No papel temos limites, sabemos que chegará o fim da linha, temos de parar. No computador não é assim. A capacidade de armazenamento de palavras é muito maior do que a nossa capacidade de transpor a ideia para o arquivo. Por isso, o papel é mais convidativo. Fica lá em branco e nós daqui, do outro lado, ensandecidos para borrá-lo. Depois de tudo preenchido, não há mais sentido querer continuar. Ele está completo. Sabemos que a ideia não termina, mas o papel acaba. Nenhuma ideia tem de sucumbir, mesmo sem espaço para escrever.

Sempre que leio um livro, e chego ao final, a minha sensação é de dever cumprido. Fico a pensar: se o autor soubesse que eu terminei de ler todas as suas palavras, ele talvez ficaria feliz. Pois, quem escreve quer ser lido, não importa por quem. Pior é quem deixa de ler o que escreveu. É uma maneira de deixar em branco. Porque palavra não lida é página em branco. Quem vai dar um tom para aquele papel? Quem vai conseguir dar significado para aquilo rabiscado ali?

Esse é o fascínio de quem gosta de lê, saber o que será lido a partir daquelas primeiras linhas. Sempre quero saber o que vou aprender com aquele autor. Muitos me dizem pouco, mas poucos não me dizem nada. Sempre tenho algo a aprender. Sou bastante atento ao aprendizado. Nada deixa de ser sem sentido quando temos em nós o sentido latente, pronto para ser revelado. Esse é o fascínio de escrever e de ler.

Escrever para mim não é algo fácil, mas quando escrevo parece que eu sou o autor e leitor ao mesmo tempo. Quero descobrir com as palavras que se encaixam em cada sequência elaborada. A partir do momento em que a história termina tento reelaborar o lido. O receio surge nessa etapa. Será que vou desarrumar tudo? Aprenderei com aquilo que eu mesmo escrevi?

Ao mesmo tempo que escrevo também penso, e para pensar tenho de formular meios de organizar minhas ideias. Por isso, escrever é sempre um jeito que tenho de arrumar prateleiras de meus conceitos. A fala se perde no ar expirado. Porque fala é vento. Mas a palavra escrita fica assentada no papel. O papel é o palco e as palavras são os atores desempenhando o texto. É uma coisa dentro da outra, até se tornar novamente uma ideia na cabeça do leitor. E quando ele consegue isso, abraça um significado. E viver só vale a pena quando encontramos significados nas coisas com as quais convivemos.