29 de maio de 2012

Emoção com o céu de outono







O outono é a estação mais emocionante do ano. O céu resplandece um azul forte, o clima é ameno e tocante, a copa das árvores ao longe se torna meditativa.

Hoje me emocionei ao experimentar estar sob o céu. A imensidão de uma cor fulgurante sem nuvens, sem ameaças de chuva, sem temeridade ao frio. Nesses dias, o sol deleitante carrega a paz de um silêncio ocioso. Todavia, eu sabia que a minha emoção não era somente do tempo presente. Existem lembranças sutis a se manifestarem em certos dias do ano. É uma conjunção de tempos de outrora com o atual. Lamento não conseguir me lembrar dos dias simples de todos os anos. Como eu gostaria de saber mais sobre os meus tempos, saber o que aconteceu comigo neste mesmo dia no ano passado, ou em outras épocas. Tenho a certeza de que Já fui tocado muitas vezes, de alguma maneira, pela beleza do céu azul de outros outonos. Eu reconheço a sensação, porque toda sensação marcante se transforma em sentimento. Não é algo novo, somente um sentimento atualizado. Por assim dizer, o sentimento é sempre um reconhecimento de época.

Mesmo que eu não saiba o porquê, sei o como. Existe algo no meu corpo a se mobilizar nos dias de outono. Fatos salpicaram a minha história, formaram relevo, criaram sulcos. Todos os anos sinto o sentimento se transformar na mesma emoção, um fluxo de movimento a me surpreender. Nunca deixei de sentir esse dinamismo em minha carne, mesmo sem conceber um significado.

A memória é algo a nos deixar perplexos. Nem sempre conseguimos interpretar o que nos mobiliza. Isso é sentir sem razão. Esse é o verdadeiro emocionar-se. Creio que a razão é uma tentativa de descoberta, e quando não sabemos dizer o que é, acabamos por inventar uma justificativa para a nossa história passada. Isso se torna um roteiro sem rumo. Será que precisamos destrinchar tantas coisas? Acreditamos que analisar nos fomenta segurança. Como é difícil afinar a corda do "deixar ir", não?. Somos educados a entender tudo. Queremos saber das coisas e categorizá-las. Isso é importante até certo ponto, porque também é necessário tirar férias do centro de comando, fluir ao desconhecido de nós mesmos, sem dizer nada. A linguagem é construída de modo linear, a razão sabe como proceder. A emoção, ao contrário, é deflagrada sem palavras, sem rumo certo. 

Da emoção nasce o sentimento, uma espécie cognitiva da expressão do corpo. Vivemos uma época em que sentir sem controle se tornou ameaça. Queremos entender o que se passa em nós. Frequentemente, em meus atendimentos, as pessoas me perguntam por que experimentaram tal sentimento ao se movimentarem em uma direção ou quando foram tocadas em determinadas partes do corpo. Costumo dizer que ao mexer na bacia a água fica turva. Tudo ficará tranquilo novamente, pois a água voltará a se acalmar.

Atualmente, as pessoas acham que tem de existir razão para tudo. A emoção fica à deriva, num canto mudo cujo processo continua a brotar incessantemente. Daí as pessoas quererem dar vazão à emoção artificial, para se sentirem vivas. O corpo busca se expressar, independentemente de nossa vontade consciente. Elas buscam se emocionar por nada. Se você abrir o Facebook encontrará frases que não dizem nada. Não é para menos, as frases são sem brilho, não podem tocar verdadeiramente.

As pessoas buscam em filmes, novelas, livros, até mesmo nos noticiários, algo que possa tocá-las, fazê-las vivas. Então, o corpo aprende a sentir pelos dramas, dos outros, e não mais através de sentimentos das profundezas do self. Nada pode nos fornecer emoção viva senão por nós mesmos. A emoção viva só nasce na contração e relaxação (sem pausa) dos músculos.

Emocionar-se ao encontrar o belo; uma simples flor amarela, uma brisa fria no fim da tarde, a luz tímida da lua crescente, o orvalho da manhã repousado nas folhas verdes. Isso é simples. O que nos emociona verdadeiramente também cria novos espaços de beleza dentro de nós.

Você já pensou o que o toca sem o sentir da razão?    

11 de maio de 2012

As facetas da culpa

A culpa só tem um tempo: o passado. Ela se localiza atrás, nas costas, no sítio das sombras. Não pode haver culpa no presente, pois neste tempo só há responsabilidade. Responsabilidade é o ato de dar respostas com habilidade, é um ato de escolha, um agir. Só agimos no presente, e a ação pertence ao corpo.

O movimento final ocorre em três rápidas etapas no cérebro humano. A primeira é a intenção (idealização) de se mover. A segunda é o esquema de como se mover. A terceira é simplesmente a realização do movimento. Quando esta última já está pronta é quase impossível refreá-la. Ainda assim a ação pode ser recuada pela consciência atenta.

Se no tempo presente há a livre-escolha ao que se apresenta a nós, então é neste tempo que surge a oportunidade. Sem a consciência atenta, o movimento consciente se transforma em reação. E quem dita regras são os impulsos mais primitivos. A pessoa se torna culpada, porém inocente de si mesma.

Após o ato surge a percepção da falha. A palavra pecado significa “errar o alvo”. A flecha ao deixar o arco não tem volta. A consumação do ato é a flecha caída distante do alvo. Dessa maneira, a ação presente se reverte em passado estanque. A marca da consequência se torna em débito, a culpa.

Todo débito é lacuna a qual a consciência se esforça para preencher. O cérebro humano não suporta pontos cegos, ele busca sempre uma maneira de preencher a falta, dar sentido. Por isso, o culpado tenta justificar a falha. O vazio se transforma em um traidor contínuo. Ao justificar o erro, cria-se a(s) desculpa(s).

A culpa pode ser vista por dois ângulos. A culpa positiva, como uma falha a ser preenchida. Um agir da consciência. Se eu reconheço o meu débito e me envergonho dele, minha intenção é pagar. A falha se torna redenção. Redimir-se é aprender novas habilidades, ou seja, responsabilidades mais eficazes. A consciência do erro facilita outras maneiras de agir. Segundo, a culpa negativa, é aquela que cria a armadilha da não mudança. Se o passado não pode ser modificado, a punição é a única solução, é um ato de julgar. Enquanto o perdão é a ressignificação da história, todo julgamento é a morte.

A culpa neurótica é a reverberação de pensamentos masoquistas. Se a culpa está num tempo irremediável, que é o passado, não há como mudá-lo. Nesse caso, não há como interferir nele, está feito, só resta o sofrer como pagamento do débito. A culpa neurótica é estanque. As pessoas se sentem no limbo. Um lugar de indefinição, onde nada se move adiante.

Todavia, como seres dinâmicos, somos instigados a continuar. Querer permanecer na não ação é sofrer constantemente com as lembranças. O corpo é o nosso imaginário pulsante. Se não houver ressignificação das falhas passadas, o corpo adoece como meio de pagar a dívida. Ele se torna o juiz e algoz, deixando um estigma, uma marca do erro incompreendido.

Enfim, não é fácil perdoar o corpo, mas é possível consegui-lo pelo exercício do auto-perdão: 

eu me perdoo, estou perdoando, sou perdoado.