Manhãs frias na serra são convidativas a um bom café da manhã; pão quentinho com manteiga derretida, cheiro de café feito em filtro de pano, mãe rechonchuda a fazer as guloseimas, mingau de farinha láctea. Se o frio for intenso, feche a porta da cozinha e coma uma gemada com leite fervendo. Não se esqueça de colocar o chinelo, não pise no chão frio, faz mal. Agasalhe-se bem e se prepare para enfrentar a chuva fina e rajadas de vento intercorrente. Lembre-se do guarda-chuva. Mantenha-se aquecido!
São memórias de lembretes e conselhos de mãe para um dia de frio qualquer. As lembranças brincam com a atitude situacional do corpo. O que sinto agora ao olhar outra paisagem nada mais é do que pensar com a imagem do presente, mas com sentimentos do passado. Pensar e sentir são indissociáveis. Não pensamos sem sentimento, e a emoção irrompe para talhar uma marca no corpo, consolidando a memória de uma experiência. É fácil guardar o que sentimos, e esquecer o que pensamos. As lembranças nos fazem ser e sentir no presente do jeito que foi vivido no passado. Só o que precisamos ter é um cenário semelhante, para daí surgir uma cascata de sentimentos, colorindo a nova experiência. Muitas vezes me questiono se o que vivo hoje é de fato novo, ou simplesmente um reviver.
Contudo, fica difícil saber se somos outros, uma espécie de ser atualizado, adulto, ou se somos os mesmos da infância passada. A criança não desaparece, ela se revela ao viver um padrão conhecido. Reconhecimento é viver novamente o conhecido, uma oportunidade de sair de nós mesmos, hoje na figura de adulto, para brincar de lembrar e bendizer as cenas vividas.
Sair de um padrão conhecido não é tarefa fácil, nem sabemos se conseguimos. Por isso, a dificuldade em mudar. Ao envelhecer mudamos o corpo, mas os sentimentos de todas as épocas continuam a trafegar por nossos pensamentos. Por isso, as pessoas têm tanta dificuldade em perceber que envelhecem. Elas se sentem as mesmas. O corpo sinaliza uma mudança, mas guarda em si, em cada traço, em cada ruga, em cada dobra do corpo, o mesmo ser de sempre.
Como avançar se carregamos um passado ainda presente? Podemos seguir adiante com aquilo que nos representa. Tudo depende de como cada um consegue compreender o que se viveu. Vamos somando novos viveres, colocando cada experiência em nossas malas cheias de conteúdos de história. A nossa identidade depende disso. Por isso só nos resta lembrar; do dia que estávamos perto daqueles que não estão mais por aqui, das risadas e brincadeiras, dos cheiros e das cores, do toque frio do vento, do sorriso de carinho da época que também já se foi. Porém, uma época que deixou rastros em nosso corpo, marcado por sentimentos e nos formando para ser do jeito que somos.
Não sinto mais o frio da serra. Sinto-me aquecido de lembranças.



