29 de janeiro de 2012

O conhecimento só serve se for compartilhado






Hoje pela manhã falei para mim mesmo: "Você está na meia-idade, época em que se ouve o chamado. Você está mais para a força do trabalho do que para o chamado. Será que há algo errado com os deuses ou comigo mesmo?". Subitamente, li a seguinte frase num livro: "Colocamos as mãos diante dos olhos e gritamos que está escuro". Achei a frase providencial, mas não pude entendê-la como precisava. Tomei o café da manhã e abri os meus e-mails. Recebi de uma amiga um vídeo de uma palestra de Bunker Roy, da Universidade dos Pés Descalços. Na palestra, Bunker (traduzindo do inglês o nome dele indica exatamente o que este homem é, uma muralha defensiva). Bunker Roy é um indiano plácido que teve a melhor educação na Índia, tinha o mundo a seus pés, mas decidiu ajudar àqueles que têm fome em aldeias afastadas. Ele, então, se preparou para o improvável, decidiu construir uma universidade onde as pessoas aprenderiam sem professor com qualificações. Lá, o professor poderia ser o aluno, a pessoa aprenderia com a experiência do outro. Quem tivesse mestrado ou doutorado não poderia ser professor. Assim, homens analfabetos construíram a universidade, desenvolveram um sistema de energia solar, criando história para o mundo todo. Havia na universidade os melhores arquitetos analfabetos, os melhores engenheiros analfabetos, dentistas analfabetos, e assim por diante. Com a experiência dessas pessoas, aldeias da cercania podiam também obter melhorias na qualidade de vida para seus moradores. Eles foram se desenvolvendo e precisavam espalhar o conhecimento aprendido.

Isso sim é a verdadeira ciência, do latim scientia, o conhecimento com consciência. A ciência com consciência vem temperada com reflexão, é um salto de qualidade, é ir além do que os livros mostram, é a experiência viva de quem a viveu. Ninguém precisa de certificados para poder repartir o que se vive. Hoje, infelizmente, nas universidades, é preciso ser profissional de sala de aula. Só o que se sabe é o que se lê, e só se aprende o que se copia. Não há reflexão. A prerrogativa é clara; nenhuma experiência subjetiva pode estar nos artigos científicos, porque a história de vida do autor não tem valor. Por isso, não se pode escrever na primeira pessoa. Ou seja, se existe gente não existe ciência. O que se tem nos artigos científicos são letras mortas.

No meu primeiro livro, "Envelhecer: histórias, encontros e transformações", eu demorei a entender o que minha editora dizia: "O seu trabalho é bom, mas é muito acadêmico". Fiquei aborrecido porque se existia um "mas" significava que não estava totalmente bom. De fato, eu queria que o trabalho fosse perfeito, sem brechas. Ledo engano. Só depois do segundo livro passei a compreender o que ela dizia. Era simples: "Escreva para as pessoas e não para ninguém". Finalmente fui entender que o academicismo é escrever para ninguém, porque não tem vida. Mesmo que as pessoas achem enfadonho ler um artigo científico, elas dão valor ao "rigor acadêmico". Essa petulância é o que ainda move as instituições de ensino, o que atravanca o conhecimento do humano, e para o humano. O que adianta aprender se o que aprendemos não pode ser compartilhado?
  
Nos meus últimos suspiros como professor acreditava que eu devia ser como os pescadores. Eles pescam seus peixes (conhecimento), para depois contar (ensinar) aos outros como (metodologia) foi a experiência. Gostava de contar histórias aos meus alunos, mostrando a eles que podemos ajudar aos outros com as nossas experiências de luta, resignação, paciência e superação. Eu acreditei que isso era formar, porque só formamos por inteiro.   

Bem, após duas ocorrências na manhã de hoje me vi questionando: "Será que estou a trabalhar muito para não ouvir o chamado?". Porque quando trabalhamos muito temos a tendência a anestesiar nossos sentidos, ficamos voltados para o exterior. O que eu preciso ver e ouvir, sentir e perceber? Essa pergunta me fez retornar aos meus sete anos de idade. Naquela época já tinha claro o meu objetivo de vida, eu queria ajudar as pessoas a encontrar sentido na vida delas. Não sabia ao certo o que era o sentido da vida. Atualmente sei que o sentido da vida é o encontro com nós mesmos, ele é subjetivo e intransferível, cada um tem o seu. Ter sentido é sentir o solo firme e saber seguir os próprios passos com ciência, não esquecendo nunca de compartilhar o aprendizado com os outros.