Como é difícil para as mulheres domar os próprios cabelos. Eles parecem exercer certo poder sobre a cabeça delas, como se tivessem vida própria, tornando-as escravas de seus caprichos. Será que há alguma substância nas tintas ou produto químico nos cremes que muda a dinâmica das sinapses cerebrais? Se o cabelo está bonito, e agrada aos olhos dos homens, ainda assim elas acreditam que precisam melhorar. A tração mecânica da escova e o excesso de calor do secador e da chapinha poderia ser a causa para tamanha desconfiança da própria beleza? Será que de tanto puxar os cabelos a neurose acaba por sair da cabeça?
A mulher mais velha detona os cabelos com muito mais frequência do que as mais novas. Elas querem encontrar um jeito de estarem bonitas, ou melhor, de estarem no páreo com as outras mulheres. Elas arrumam tanto os fios que acabam ficando esquisitas, nada sensuais. Para os homens o cabelo é somente um complemento na totalidade da beleza natural de uma mulher.
Frequentemente escuto reclamações de que os maridos não elogiam os cabelos delas. Uma vez escutei: “Passei horas no salão, quase morrendo intoxicada com o forte cheiro do formol, me sacrificando na escova progressiva, para ele nem olhar”. Sim, porque quem olha detalhes dos cabelos alisados não é homem, só cabeleireiros ou outras mulheres.
A mulher quer ficar bonita para as outras mulheres, nunca para os homens. O homem é somente um ideal para elas. Isso porque elas temem a rejeição por parte do grupo no qual convivem. O que não percebem é que não adianta forçar o homem a gostar dos cabelos. Ele vê beleza no contexto. Ele olha a floresta no todo, não fica obcecado por uma única árvore.
Eu confesso que a mulher mais velha arma tanto o cabelo que fica totalmente imperfeito, enquanto feiura. Por que imperfeito? Porque não faz parte do todo natural dela. Mulher exageradamente produzida é mulher feia, sem autenticidade. Sempre que vejo uma mulher assim fico imaginando como ela ficará após acordar.
Outro dia fui num casamento e vi um monte de Mulheres Robocop. Mulheres mais velhas, sem coordenação motora, sem leveza pelos vestidos armados, pintadas artificialmente, cheias de laquê. Elas ficam como estátuas. A regra é não se mexer. O pior de tudo é quando decidem dançar. O chão estava úmido e muitas acabaram na lona. Contudo, nada que algumas doses de uísque não pudessem dar um jeito, apagando a lembrança no dia seguinte.
Por que as mulheres se preocupam tanto com os cabelos? A resposta é simples. Elas têm medo de serem julgadas pelas outras. As pessoas adoram dizer que suas atitudes não têm nenhuma influência do meio, nem tampouco dos outros. Mentira! Como bem disse Sartre: “Sou possuído pelo outro: o olhar do outro estrutura o meu corpo na sua nudez, o faz nascer, o esculpe, o produz como ele é, o vê como jamais o verei. O outro detém o segredo daquilo que sou.”
No livro A beleza do corpo na dinâmica do envelhecer escrevi que a verdadeira beleza é inefável. Ela está no sentimento da perplexidade. É como ouvir uma linda melodia pela primeira vez cuja sonoridade em si nada diz, porque não é para ser dita. Porém suscita movimento em quem ouve, fazendo-o sentir no corpo a verdadeira beleza.
Eu ainda prefiro os cabelos das pessoas mais simples. Eles são verdadeiros e, portanto, mais belos.
31 de julho de 2010
23 de julho de 2010
Projeção ou realidade?
Projeção em psicologia significa uma maneira de nos defender de pensamentos indesejáveis, ou mesmo inaceitáveis. Sendo assim, projetamos aquilo que não queremos ver em nós nos outros. Criamos uma ideologia para as nossas convicções, preservando o conteúdo psíquico reprimido. É uma espécie de gaiola onde mantemos os nossos passarinhos pretos (Black Birds). Ao mesmo tempo em que queremos ter a liberdade para eles, temos receio de que outros os vejam voar. É um sentimento tão contraditório que preferimos uma explicação plausível para eles. Encarar as nossas dificuldades é mais complicado do que empurrá-las para debaixo do tapete.
Culpar os outros, por exemplo, pode ser um tipo de projeção. Pois, culpamos alguém pela dificuldade em ver o nosso próprio fracasso. Em tal caso, evitamos o desconforto em ver em nós a falta e, sendo assim, mantemos o problema no inconsciente, pronto a ser projetado no primeiro que tiver uma situação semelhante à nossa.
Hoje, percebi uma de minhas projeções. Afinal, todas elas são inconscientes e só podem se tornar conscientes quando somos honestos com nós mesmos. Mais uma vantagem de envelhecer.
Vou exemplificar com um exemplo próprio:
Semana passada eu fiquei sabendo que o meu enteado, casado há três anos com uma mulher com um filho do primeiro casamento, resolveu ir embora para outro país. A desculpa dele é de que precisa construir a sua vida profissional. Independentemente de eu saber o porquê de sua dificuldade relacional logo eu o julguei, dizendo que era uma irresponsabilidade.
O que eu não estava percebendo era que eu tive a mesma situação relacional com a mãe dele. Quando eu tinha 19 anos de idade, comecei a namorar a minha atual esposa. Ela tinha dois filhos pequenos, e eu tive de enfrentar muita dificuldade em assumir aquelas duas crianças, hoje adultas.
Ele está repetindo a mesma história, e decidiu seguir sozinho. Talvez, eu não quisesse assumir uma separação na época e ir embora. Não me arrependo do que vivi. Porém, nada sabemos do que pode ser melhor ou não. Todas as decisões têm suas consequências. Espero que ele esteja certo, e eu também.
Em termos de inconsciente a vida nem sempre é tão romântica como é para o consciente. Criamos ilusões, justificativas e adornos para nos sentirmos bem. Hoje, vejo que talvez ele esteja no caminho de sua autodescoberta, porque casar-se com alguém que já possui uma história familiar não é uma situação tão fácil assim, existem muitas personalidades envolvidas, interesses diversos. Nunca sabemos ao certo se pertencemos mesmo à família que criamos, ou se somos apenas um apêndice.
Eu acredito que ele não esteja totalmente consciente de sua decisão, mas os passos a seguir têm de ter seu sentido.
Sinto muito em julgá-lo por não assumir a família a qual ele se agrupou, mas as direções são muitas, e todas com um significado próprio. E, quem somos nós para julgar?
22 de julho de 2010
Emoção é ter razão
Hoje fiquei emocionado em um de meus atendimentos. Isso tem se tornado cada vez mais frequente. Acho que estou perdendo o pudor em me emocionar. Acredito que envelhecer bem é assumir os próprios sentimentos, e permitir o fluxo natural da emoção.
Emocionei-me com um relato de um homem sobre o seu pai, o qual já estava com noventa anos quando começou a demenciar. Já não conseguia conhecer as pessoas, somente o seu filho. Um dia, ele confessou a ele que o único medo que tinha era de que alguém roubasse os seus versos. O homem era um poeta, é claro.
Na velhice, é comum a avareza. E muitos que demenciam sentem medo de perder dinheiro, ou serem surrupiados por outros. Ficam assombrados pela ilusão da falta, e a incerteza de perder o controle.
Este homem não teve um fim melancólico, pois o seu único medo era perder a poesia.
Dois meses depois, ele morreu em casa em silêncio, tranquilo, porque havia encontrado o segredo da transcendência na sua própria poesia. Por isso, me senti grato mais uma vez por poder ter a oportunidade do belo, da capacidade de querer o melhor para mim e para todos que buscam a poesia da vida.
18 de julho de 2010
Como você lida com a adversidade?
Certa vez escutei uma história asiática que é mais ou menos assim:
Um homem do campo enfrentava muitas dificuldades. Tudo o que ele tentava fazer para melhorar sua vida acabava por dar errado. Quando um problema era resolvido, logo outro surgia. Ele estava cansado de tanto lutar sem tréguas. Desesperado com as agruras de sua vida decidiu ir ao encontro de um sábio no alto da montanha.
Assim que chegou, surgiu do fundo da caverna um velho. Eles se cumprimentaram e entraram. Lá dentro, o velho pôs-se a escutar as queixas e lamentações do homem. Assim que houve uma pausa, o velho levantou-se e pegou três panelas com água, colocando-as no fogo para ferver. Pegou um ovo, uma cenoura e algumas folhas de chá.
O homem estava confuso com aquela atitude, mas pacientou-se. Quando a água começou a ferver, o velho colocou o ovo na primeira panela, a cenoura na segunda, e as folhas de chá na terceira.
O velho então pediu ao homem que jogasse a água fora e experimentasse o ovo. Ele quebrou a casca e comeu o ovo.
– O que você sente? – perguntou o velho. O homem respondeu que não sabia o que ele queria com aquilo. E o velho pediu que o homem experimentasse a cenoura e, por último, o chá.
– O que você sente? – perguntou novamente. Ele respondeu que o ovo estava duro, a cenoura mole demais, mas o chá era delicioso.
Então, o velho sábio explicou:
A água fervente representa a adversidade. Ela é a mesma com as três coisas, porém cada uma reagiu de maneira diferente. O ovo era frágil, com uma casca fina para proteger o seu interior. Com a água fervente ele endureceu. A cenoura era forte e rígida, mas amoleceu, ficando fácil de cortar. E as folhas de chá, entretanto, mostraram um comportamento singular: depois de passarem alguns minutos na água fervente, elas modificaram a água.
O velho olhou bem fundo nos olhos do homem e perguntou:
– Como você reage quando as adversidades batem à sua porta?
O homem quieto agradeceu o conselho e foi-se embora.
___________________________________________
Essa história nos ensina que podemos enfrentar a adversidade de maneiras diferentes. O mais importante é não se perder de vista. Diante de um problema, pergunte-se: “O que sou?”. Um ovo, uma cenoura, ou folhas de chá. Não se esqueça: o ovo enfrenta a adversidade entrando frágil e sensível, mas saindo enrijecido. A cenoura entra forte, mas amolece demais. Enquanto as folhas de chá transformam a situação.
É preciso transformar para não haver repetição.
Se a vida está lhe dando a mesma lição, é porque você ainda não alcançou o aprendizado. Não repita, aja de outra maneira.
9 de julho de 2010
A morte lhe cai bem
Não quero ser dramático, mas estamos morrendo. Viver e morrer são processos indissociáveis. A única certeza é de que não há certeza onde, como e quando acabaremos de morrer. Viver é como despachar as bagagens aos poucos. Não adianta acumular coisas como meio de se ter âncoras. Ou ficar ocupado com tantas preocupações para obter o sentido quando não há mais sentido. Todos nós já estamos na estação com o bilhete comprado, esperando o nosso trem chegar para partirmos.
A morte é assim, vai recebendo em parcelas o nosso pagamento com a vida. Tudo o que veio da terra retornará para ela. Essa é a lei. Somos humanos (húmus). Portanto, somos adubos para a preservação da própria terra. Todavia, é o nosso comportamento que determinará quantas prestações faltam ser quitadas.
Atualmente, sinto menos a morte que antes. Quando trabalhava com pacientes terminais, a sensação que eu tinha era de que todos iam morrer logo após a minha retirada do recinto. Hoje, a morte ficou distante de mim, porque não estou em contato direto com ela. Quando presenciamos a morte de alguém, sentimos como se fosse a nossa própria morte. Ficamos mais tristes com o nosso próprio sentimento de vulnerabilidade do que com a partida do outro. Só que não percebemos assim, porque pode parecer egoísmo. O inconsciente nos mune de defesas com ideias de invencibilidade.
Não tenho a pretensão de pensar que pelo fato de não sentir a minha própria morte, significa que eu não esteja sendo liquidado aos poucos. Quando penso que o oxigênio que eu respiro neste momento para escrever estas linhas se transforma em radicais livres, nos quais serão prenunciadores de minha morte mais tarde, isso me deixa incomodado. Não que eu tenha medo de morrer, mas como morrer. Porque ninguém morre de morte natural, como pensávamos antes, morremos por uma doença qualquer. O que nos dá certo alívio é saber que, segundo algumas teorias, a morte é silenciosa e indolor. O organismo vivo sabe se livrar da dor e do sofrimento com bastante habilidade. Mesmo assim, a morte é um enigma a ser decifrado somente por quem morre.
O que mais incomoda não é a morte em si, mas o medo do sofrimento. O cérebro é um órgão inteligente, ele sabe amortecer o sentir quando nos sentimos ameaçados. Isso pode ser bom ou ruim, depende de quem vivencia o acontecimento. Sendo seres situados como somos deve ser bem difícil não estar localizado.
Todos nós passamos por sofrimentos. Ou sabemos lidar com eles, ou nos amortecemos para eles. O problema é que ao nos amortecer para o sofrimento também nos amortecemos para o prazer de viver. Entramos numa espécie de limbo em vida.
Vejo muitas pessoas em suspenso devido ao uso de medicamentos. Muitos não suportam viver porque a vida não se desenrola como elas desejam. Daí, a medicina cria os seus rótulos e interpretações para retirar a responsabilidade do sujeito. Pronto, a pessoa é classificada como depressiva, e é conduzida ao limbo pela ação de medicamentos. O cérebro é encharcado por substâncias inibidoras, com a intenção de amenizar, distrair, fazer com que a pessoa evite entrar em contato com o sofrimento. Viver é difícil. Nunca achei simples, porque não vivemos simplesmente, mas convivemos. Se não soubermos criar, transformar, reinventar a vida todos os dias, com certeza, teremos menos parcelas para pagar. E, morremos mais cedo.
Quem não suporta viver, porque detesta a sua situação, o medicamento consegue desligar alguns neurônios. Alguns medicamentos inibidores como Rivotril é hoje o segundo medicamento mais vendido no Brasil, perdendo apenas para o Hipoglós e Buscopan. Isso representa algo lamentável em nosso progresso. Denota que muitas pessoas não sabem lidar com a própria vida, e preferem não viver totalmente, só parcialmente. Viver pela metade não é viver, e sim sobreviver.
Enfim, a próxima vez que estiver passando por um mau momento, pense se você quer encarar ou amortecer. A escolha continua sendo sua.
A morte é assim, vai recebendo em parcelas o nosso pagamento com a vida. Tudo o que veio da terra retornará para ela. Essa é a lei. Somos humanos (húmus). Portanto, somos adubos para a preservação da própria terra. Todavia, é o nosso comportamento que determinará quantas prestações faltam ser quitadas.
Atualmente, sinto menos a morte que antes. Quando trabalhava com pacientes terminais, a sensação que eu tinha era de que todos iam morrer logo após a minha retirada do recinto. Hoje, a morte ficou distante de mim, porque não estou em contato direto com ela. Quando presenciamos a morte de alguém, sentimos como se fosse a nossa própria morte. Ficamos mais tristes com o nosso próprio sentimento de vulnerabilidade do que com a partida do outro. Só que não percebemos assim, porque pode parecer egoísmo. O inconsciente nos mune de defesas com ideias de invencibilidade.
Não tenho a pretensão de pensar que pelo fato de não sentir a minha própria morte, significa que eu não esteja sendo liquidado aos poucos. Quando penso que o oxigênio que eu respiro neste momento para escrever estas linhas se transforma em radicais livres, nos quais serão prenunciadores de minha morte mais tarde, isso me deixa incomodado. Não que eu tenha medo de morrer, mas como morrer. Porque ninguém morre de morte natural, como pensávamos antes, morremos por uma doença qualquer. O que nos dá certo alívio é saber que, segundo algumas teorias, a morte é silenciosa e indolor. O organismo vivo sabe se livrar da dor e do sofrimento com bastante habilidade. Mesmo assim, a morte é um enigma a ser decifrado somente por quem morre.
O que mais incomoda não é a morte em si, mas o medo do sofrimento. O cérebro é um órgão inteligente, ele sabe amortecer o sentir quando nos sentimos ameaçados. Isso pode ser bom ou ruim, depende de quem vivencia o acontecimento. Sendo seres situados como somos deve ser bem difícil não estar localizado.
Todos nós passamos por sofrimentos. Ou sabemos lidar com eles, ou nos amortecemos para eles. O problema é que ao nos amortecer para o sofrimento também nos amortecemos para o prazer de viver. Entramos numa espécie de limbo em vida.
Vejo muitas pessoas em suspenso devido ao uso de medicamentos. Muitos não suportam viver porque a vida não se desenrola como elas desejam. Daí, a medicina cria os seus rótulos e interpretações para retirar a responsabilidade do sujeito. Pronto, a pessoa é classificada como depressiva, e é conduzida ao limbo pela ação de medicamentos. O cérebro é encharcado por substâncias inibidoras, com a intenção de amenizar, distrair, fazer com que a pessoa evite entrar em contato com o sofrimento. Viver é difícil. Nunca achei simples, porque não vivemos simplesmente, mas convivemos. Se não soubermos criar, transformar, reinventar a vida todos os dias, com certeza, teremos menos parcelas para pagar. E, morremos mais cedo.
Quem não suporta viver, porque detesta a sua situação, o medicamento consegue desligar alguns neurônios. Alguns medicamentos inibidores como Rivotril é hoje o segundo medicamento mais vendido no Brasil, perdendo apenas para o Hipoglós e Buscopan. Isso representa algo lamentável em nosso progresso. Denota que muitas pessoas não sabem lidar com a própria vida, e preferem não viver totalmente, só parcialmente. Viver pela metade não é viver, e sim sobreviver.
Enfim, a próxima vez que estiver passando por um mau momento, pense se você quer encarar ou amortecer. A escolha continua sendo sua.
8 de julho de 2010
Introdução do Livro
A Editora Gutenberg disponibilizou na rede a introdução do meu livro ENVELHECER OU MORRER, EIS A QUESTÃO.
Para quem não conhece, é só clicar na imagem da capa, ou no link abaixo:
http://www.autenticaeditora.com.br/download/capitulo/20090804151902.pdf
Para quem não conhece, é só clicar na imagem da capa, ou no link abaixo:
http://www.autenticaeditora.com.br/download/capitulo/20090804151902.pdf
2 de julho de 2010
Tea for Two
Estar ao lado. Simplesmente compartilhar uma xícara de chá. Não importa o gosto, e sim o sabor da companhia. É o outro a nos dar sentido. Porque o outro é a face, a projeção de nossa subjetividade. Muitas vezes, queremos encontrar Deus, e nos esquecemos de que Ele é energia oniciente. Ele está em toda parte. Como diz o Tao:
Se você vir o rosto de deus,
você verá o mesmo rosto
você verá o mesmo rosto
em todo o mundo que encontrar
Tudo aquilo que se encontra além dos nossos limites
de ressonância é imperceptível para nós e, portanto,
inexistente.
O outro nos fornece um entendimento de nós mesmos. Portanto, o chá é melhor quando se é repartido. Sentir o dois em um, e poder perguntar: “Você gostou?”. Essa pergunta simples vem com a certeza de não estar sozinho. É engrandecedor não estar só. E como estamos sozinhos, mesmo acompanhados. Não devemos nos esquecer de que o nosso maior anseio é compartilhar o alimento do afeto.
Ontem escutei de uma pessoa que atendo: “Gostei de chá até o dia em que não tive mais a pessoa amada para compartilhar”. A pessoa amada faleceu, e com ela o chá também morreu. Hoje, a caixa com os chás de diversos sabores ficou a mofar na despensa. Perdeu-se o sabor na travessia do tempo. A união de sentidos se desvaneceu. Enfim, o gosto representa comunhão, por isso sentimos prazer ao dividir a comida.
Pense nisso na próxima refeição que fizer junto a alguém. Saiba valorizar a presença do outro como sendo você mesmo.
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