23 de abril de 2011

Atendimento bom pra cachorro (2)



Caminhava pela rua às oito da manhã. Ao atravessar a praça principal da cidade vi um mendigo com um cachorro velho dentro de um carrinho de supermercado. Ele estava a lavar o bicho, passava uma esponja no pescoço com carinho enquanto cantava para ele. Quis filmá-lo para colocar no blog, mas não gosto de interferir no cotidiano das pessoas com aparelhos. O meu recurso é a palavra.
O mendigo estava muito sujo, ninguém havia se prontificado a cuidar dele. Continuei a pensar por que as pessoas, mesmo as mais perturbadas, se preocupavam com os bichos abandonados. Por que as pessoas se comovem mais com o animal não humano do que com o animal humano? Seria a posição terna da cabeça do bicho? Seria o gesto de balançar o rabo? Seria o olhar de afeto que afeta? Seria a condição de nada exigir? Qual a força de atração?
Continuei a minha caminhada e logo passei perto de uma casa de repouso, e na varanda da casa uma velha mulher sentada olhava para o chão, sozinha, esperando nada acontecer. Um velho que quiser tomar um banho tem de pagar pelo trabalho, enquanto os cachorros de rua são cuidados pelos sem tetos.
O que um velho em uma casa de repouso precisa? O mesmo que todos nós precisamos; a comunhão do alimento afetivo.
Estamos na Páscoa, boa época para se pensar menos em ovo de chocolate e mais no sabor doce da doação. É simples, tente uma palavra de elogio, ou mesmo carinho em gesto como o mendigo que canta enquanto lava o pescoço do cachorro velho. Será que conseguimos sair de nosso sofá e ir até o outro para dar um pouco de nosso doce? Só faremos isso se conseguirmos ter algo doce dentro de nós. Ninguém pode amar se não tem o que doar. 

20 de abril de 2011

Atendimento bom pra cachorro



Ontem passei toda a manhã em busca de tratamento para o meu cachorro. Apesar de cansativo não foi difícil encontrar solução para o caso. Isso porque houve boa vontade e interesse de três veterinários. O primeiro me disse que o problema do cão era grave, então ele não se achava competente o bastante para tratá-lo. Ele acertou o diagnóstico, foi sincero e eficaz no seu trabalho. Ligou para o colega, especialista no caso, e passou todas as informações referentes ao exame clínico feito por ele, mesmo assim não quis cobrar a consulta. O segundo me disse que ele teria de fazer uma radiografia imediatamente, ligou para uma veterinária e me encaminhou já na hora do almoço. A terceira veterinária estava me aguardando para o exame. Assim que terminou, ela ligou para o veterinário pedindo que ele não deixasse de consultar o cachorro naquele momento, porque ele precisava ser medicado urgentemente. Ele não se opôs, e no início da tarde o meu cachorro já estava medicado e se sentindo melhor.
Conheço bem o problema do meu cão, porque a minha mãe faleceu em decorrência da mesma doença. Lembro-me de ir com ela a vários especialistas. Hoje, sei que o problema não é difícil de ser tratado, só precisa de acompanhamento mais direto, e muita cooperação por parte do doente. No caso de minha mãe, ela não era cooperativa e os médicos tampouco persuasivos.
Hoje, eu acompanho uma senhora de 92 anos com o mesmo problema. Para a minha surpresa, o problema dela não é visto pelos médicos com facilidade Ou seja, a história de minha mãe se repete em circunstâncias e épocas diferentes. Esta senhora já faz a peregrinação por vários consultórios médicos há seis meses. Para ser exato, ela procurou quatro médicos, e cada um disse coisas absurdas, sem falar nos medicamentos que nada resolveram pela falta de indicação. Ela está com dificuldades respiratórias e se cansa facilmente aos mínimos esforços.
O que me faz pensar na incapacidade de se reconhecer um sintoma e fechar um diagnóstico está na falta de interesse em estar mais próximo ao outro. É preciso se comover (mover junto ao outro – ter compaixão) como os veterinários.
Acredito que a falta de um bom olhar dos profissionais da doença (prefiro chamar assim ao invés de profissionais da saúde) cogitam que o problema de uma pessoa mais velha é simplesmente a idade. Desde quando a idade é um problema? Nunca foi e nunca será. Um problema é um problema. Ele precisa ser avaliado com mais proximidade. É fácil culpar a idade quando não se sabe como resolver. O grande empecilho é a falta de interesse e, sobretudo, humildade em reconhecer os limites do saber.
Enquanto escrevo vejo o meu cão latir no jardim. Ele corre para o portão porque a campainha tocou. Acho que vou indicar esses brilhantes veterinários para consultar a senhora que eu acompanho.
    

9 de abril de 2011

Crítica e Autocrítica - Última Parte

Silêncio e Intuição


É nesse sentido que devemos seguir a nossa intuição. Para isso, é importante o silêncio, ir ao centro da roda do oleiro.

Para obtermos o melhor em nossas vidas é necessário acalmar o dragão da crítica negativa. Dependemos da autocrítica para aprimorarmos, mas como ela será feita dependerá de nós. Podemos escolher fazê-la no ruído ou no silêncio.

Para vivermos uma vida consciente é preciso colocar as nossas experiências no Tribunal da Razão, caso contrário podemos ser levados pelo consenso arbitrário. O propósito da crítica deve ser sempre melhorar a qualidade daquilo que realizamos. Então, devemos nos perguntar quando fazemos uma crítica; “Isso que estou pensando é produtivo para mim e para o outro?”. Se não for, se afaste do pensamento inquisidor. Ele nada fará, a não ser trazer dor e sofrimento.

Para finalizar gostaria de dizer que é importante amar o nosso inimigo, porque no centro de nossa consciência, o nosso maior inimigo pode ser nós mesmos.

Obrigado.

8 de abril de 2011

Crítica e Autocrítica - Parte 6

O problema da culpa




Sentir culpa é uma maneira de se autocriticar negativamente. A culpa sempre habita o passado, com sérias repercussões no presente. O cérebro não distingue o que já se passou e o que está se passando. A lembrança quando trazida ao presente é novamente vivenciada. Os dois hormônios descritos acima são novamente liberados, provocando no corpo a reação de defesa. O problema é desligar a reação, porque uma vez que ela é deflagrada constantemente, o cérebro se habitua. Sendo assim, ele não mais desliga a reação. A pessoa passa a viver constantemente em prontidão, e até mesmo sentir a falta se os níveis de hormônios caem. Esse é o caso dos viciados em estresse. Conheci um executivo que se sentia mal no fim de semana, ficava entediado, com fortes dores de cabeça e no peito. Ao chegar segunda-feira se sentia novamente bem, pronto para o trabalho.

Criticar o passado pela perspectiva do presente é improdutivo, injusto, incoerente. Você pode se lembrar de um acontecimento e pensar: “não deveria ter feito aquilo”, “como eu pude ser tão burro a ponto de confiar naquela pessoa?”, “por que eu não disse o que tinha para dizer?”, “se eu pudesse voltar ao passado viveria de outro modo.”.

Cada vez que uma pessoa traz uma lembrança à consciência presente provoca também uma emoção, uma energia em movimento que será expressa de algum modo. O único lugar que uma emoção pode ser expressada é no corpo, porque ele é o palco de manifestação de todas as ideias, sentimentos, lembranças. Por assim dizer, é na ação do presente, nos músculos respectivamente, que são depositadas as falhas e erros do passado, se assim escolhermos insistir na culpa.

É uma injustiça, um equívoco, criticar-nos com olhos do presente por não ter tido determinada atitude no passado. Envelhecemos e mudamos conceitos, aprendemos novos conhecimentos, trocamos posturas, criamos outros olhares. Na época passada éramos outros, não tínhamos outro jeito de ser. Culpar-nos é como exigir de uma criança uma responsabilidade que ela não pode ter. A autocrítica pesarosa com aquilo que já se passou é uma tentativa de autopunição. É como comer um bolo inteiro e depois enfiar a mão na garganta para vomitá-lo. É uma atitude de autoagressão. Muitas pessoas passam pela bulimia da intolerância sem compreender que elas estão se matando aos poucos, sem saber que o fazem.

E dizia Jesus: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem - Lucas 23:34

Da mesma maneira que algumas pessoas se culpam pelo passado, podem também se culpar pelo futuro. Antes mesmo que ele aconteça já se põe em julgamento, por acreditar que não serão capazes de fazer o melhor.

Vinte e dois anos atrás eu fui convidado a dar aula na universidade. Queria muito ser um bom professor, mas não tinha conhecimento, só vontade. Tive coragem em aceitar o cargo, me propondo, portanto, a me dedicar aos estudos o máximo que podia. Levei dez anos de vida acadêmica para me tornar o que denomino professor consciente. Não nasci educador, fui me transformando em um. Podemos nos tornar aquilo que desejamos, porém tem de haver compromisso e dedicação. Muitos querem um diploma, mas não querem se dedicar ao conhecimento. Isso não trará nada, porque para alcançarmos algo temos de nos dedicar. Tudo surge primeiro dentro para depois se manifestar fora. É como diz a afirmativa de que o mestre surge quando o discípulo está pronto, ou o serviço aparece quando o servidor está pronto. Primeiro, crie em você o cenário, para depois vê-lo manifestado no palco do cotidiano. Na época, se eu me autocriticasse negativamente teria abortado a missão, e hoje não estaria aqui com vocês contribuindo com o meu conhecimento. Vivemos para contribuir com o outro. Não vivemos, mas convivemos.

continua amanhã.

7 de abril de 2011

Crítica e Autocrítica - Parte 5

O Bom, o bonito e a Autoexigência


Desde cedo acreditamos que somos bons porque aprendemos a gostar de elogios: “Você é um bom menino”; “Você é uma menina linda”; “Você é inteligente e verdadeira”. Mas, por trás de cada elogio vem também a responsabilidade de continuar a ser aquilo que os elogios nos fazem ser.

Em diversas épocas históricas o conceito de beleza vem entrelaçado com a ideia de bondade. Por assim dizer, a forma bela subentende a boa alma, harmônica e perfeita. O que agrada aos olhos é aceito, trazido para perto, tocado. O que desagrada é recusado, apartado, ignorado. Enfim, não é de se espantar porque as pessoas têm tanto medo de parecerem feias. Elas fazem de tudo, se escravizam pelo mito da beleza, porque no fim o que elas querem mesmo é serem amadas. Todos nós temos um poço de carência.

O problema de seguir o caminho da perfeição (idealização), ao mesmo tempo em que se critica o outro, é o que se pode provocar no corpo. O corpo sempre sinaliza o que não está pleno. O corpo demonstra a intolerância do sujeito.

Quando exigimos demais de nós mesmos, pela autocrítica, criamos tensões musculares. Essas tensões são em decorrência de a formação de uma couraça de proteção. O corpo se prepara para lutar ou fugir. Ou seja, sempre que o corpo idealiza um perigo ele se prepara para reagir. O outro se torna o alvo de críticas, porque o outro é o perigo, a ameaça iminente. Uma pergunta comum da idealização nesses estágios de defesa é: “O que o outro vai dizer?”, “o que o outro vai pensar?”. No fundo, a preocupação é: “Será que serei rejeitado?”.

Para se proteger é necessário haver emoção da raiva, pois ela mobiliza o organismo para a sobrevivência. A raiva é materializada no corpo pela liberação de dois hormônios, a adrenalina e o cortisol (corticoide endógeno). Esses hormônios são potentes e uma vez liberados indiscriminadamente eles fazem um estrago no organismo, provocando diversos sintomas. Sintomas estes bem conhecidos por todos nós: prisão de ventre, diarreia; azia, dor no estômago, refluxo; palpitações, angústia, respiração superficial; insônia e preocupações indefinidas; dores musculares, principalmente na coluna (eixo); esquecimentos constantes, irritabilidade, só para citar alguns.


continua amanhã.

6 de abril de 2011

Crítica e Autocrítica - Parte 4

Luz e Sombra



Para ser bom é preciso fazer um exercício diário. Não nascemos bons ou maus. Porém, a nossa sociedade normótica nos faz cair em tentação o tempo todo. É preciso mais reflexão, dobrar sobre si mesmo, e olhar os bolsos para verificar se não estamos carregamos muitas autojustificativas de nossas bondades. Conheço pessoas que dizem fazer caridade, mas o que elas na verdade estão fazendo não é caridade, e sim dando brilho no ego. Caridade é satisfazer a necessidade do outro, e não a própria. O bom samaritano é aquele que não pensa em ser bom, ele se comporta naturalmente. Mas para isso é preciso fazer o movimento de revolta (voltar novamente) inúmeras vezes. Temos de voltar para o centro e lá recolher o melhor de nosso self (arquétipo divino), para depois retornar para a periferia, experimentar junto ao outro.


A ética, por exemplo, só a conhecemos quando o outro se coloca à nossa frente. Antes disso, é apenas conjectura, idealização, ilusão. Por isso, muitas vezes, ouvimos palavras engrandecedoras de nossos professores, ao mesmo tempo em que nos surpreendemos com as suas falhas no dia-a-dia. Ficamos chocados com a incapacidade dessas pessoas em serem melhores, uma vez que elas pareciam ter tanta facilidade. Achamos, pela lógica, que pelo fato de elas falarem sobre o bem elas praticam o bem. Deveria ser assim, mas não é. Como disse Renny de Gourmont: “A lógica é boa para raciocínios, mas na vida não serve para nada”. Porque temos as nossas sombras. Tudo aquilo que não gosto em mim coloco nos escombros de meu ser para que lá fique. É como empurrar a sujeira para debaixo do tapete, e esperar a visita chegar.

Então, quando ouvirem algo de engrandecedor, saibam que quem fala pode também ter uma grande sombra prestes a emergir. Não espere comportamentos heroicos dos outros. Tentem ser melhor do que se é, sem deixar de perscrutar a escuridão. Isso me remete a história do homem que buscava a chave de seu carro perto de uma esquina iluminada. O guarda chegou e perguntou: “O que você está fazendo aí?”. Ele respondeu: “Eu perdi a chave do carro”. O guarda questionou: “Este é o seu carro?”. O homem respondeu que não, o carro dele estava no outro lado da rua. O guarda olhou e perguntou então o que ele estava fazendo agachado ali. O homem se levantou e disse: “É porque aqui tem luz”.

É mais fácil procurar nos locais iluminados, mas nem sempre o que procuramos iremos encontrar lá. Esse é o problema da consciência e da sombra. A consciência é a luz, a sombra a escuridão. Não conseguimos enxergar na escuridão, mas temos uma saída. A parte escura de nós mesmos é projetada para fora na crítica negativa. Se os outros são nossos espelhos, é neles que vemos aquilo que está em nós e não aceitamos olhar. Pode parecer absurdo, mas somos enganados por nós mesmos na tentativa de ser bons. Vivemos numa dualidade. A vida é assim. Portanto, para sermos plenos não devemos excluir aquilo que nos contrasta, mas receber isso como um exercício diário de nosso aprimoramento. Só podemos fazer isso quando nos tornamos observadores de nós mesmos, sem autocrítica negativa, simplesmente colocando nossas atitudes no tribunal da razão.

Não fomos educados a criticar o conhecido. Até mesmo porque o conhecido nos dá segurança. Não queremos nos arriscar. Entretanto, para alcançarmos o autoconhecimento temos de questionar tudo pelo caminho. Assim identificamos a direção do vento.
Continua amanhã...

5 de abril de 2011

Crítica e Autocrítica Parte 3

Idealização

O problema é e continua a ser a idealização. As pessoas idealizam uma situação ou o outro como elas querem que seja. Isso, sem dúvida, é uma maneira intolerante de idealizar. Vocês podem olhar para mim agora e pensar: “Como ele é bom, bonito, verdadeiro.”. Eu costumo escutar elogios quando termino uma palestra. As pessoas se esquecem de um detalhe, eu não termino aqui. A minha história continua em minha casa, no meu trabalho, na minha vida ulterior. Essa palestra aqui é como um filme, ela tem final feliz. Todavia, como o personagem será daqui para frente ninguém sabe.

Não podemos nos esquecer de que somos dinâmicos, mudamos não somente de roupa, mas também de coração. Apesar de ser muito mais demorado mudar de coração. De qualquer maneira, o envelhecimento nos dá essa oportunidade.

Não devemos nos fixar em uma ideia, caso contrário nós seremos tolhidos pela expectativa. A ideia que o outro faz de nós nos faz sentir responsáveis em ser aquilo que o outro espera de nós. Cumprir um papel, seja de um bom pai, bom profissional, boa pessoa, e assim por diante, é uma escravidão. Todo escravo é tenso, porque ele está sempre em busca da liberdade. Portanto, eu posso receber o elogio ou até mesmo a crítica negativa, mas com certeza terei de passar isso que recebo pelo tribunal de minha razão. Aqui entra a minha autocrítica. Ela deve ser bem apurada para eu mesmo não me trair, não acreditar que o filme termina aqui. E se todos me aplaudiram um dia não significa que sempre receberei aplausos. Não é assim. Preciso me colocar também no tribunal da razão e saber que eu posso acertar um dia e errar no outro. Isso é movimento. Isso é vida.


continua amanhã

4 de abril de 2011

Crítica e Autocrítica Parte 2

A perfeição está fora da realidade


Pessoas perfeccionistas exigem demais delas mesmas e, por isso, exigem demais dos outros também. Sempre é preciso encontrar um bode expiatório para a própria frustração. Não admitir a intolerância em si mesmo é uma saída ruim, porque reforça o padrão neurótico de sempre acreditar que as coisas podem ser melhores do que elas podem de fato ser. As coisas são como elas são, e pronto.


O perfeccionista é também um controlador. Ninguém pode controlar a ação dos outros. Muitos acreditam que controlam. Outro dia escutei um pai dizer que nunca deixava seus filhos saírem à noite, porque a noite era perigosa demais. Os filhos não entenderam sua preocupação, e agora os filhos não falavam direito com ele, nunca o visitava. O que esse pai não entendeu foi que tentar controlar alguém é como tentar segurar areia entre os dedos. Em certo momento a areia escapa. O pai teve de encarar mais tarde, quando os filhos já adultos, o afastamento deles. Quando puderam assumir suas próprias vidas decidiram conhecer o mundo, saldar o tempo perdido. O pior foi que levaram com eles a marca na lembrança de um pai autoritário. “Hoje eles me consideram autoritário, mas não sou mais”. Não é porque não pode mais ser. Não existem mais os bodes expiatórios para receber a carga do controle, intolerância, e perfeccionismo dele. Graças a Deus envelhecemos. Envelhecer nos faz mais humildes, nos faz curvar para ver onde pisamos. Caso constatemos nossas intransigências ainda cedo só olharemos estrelas na velhice, sempre com a cabeça altiva.

Enquanto o filho erra por não ser aquilo que o pai/mãe quer, o auto-exigente pai/mãe peca pelo excesso de expectativa com relação aos filhos, querendo que eles sejam o que eles não podem ser. Em suma, não cabe pensar que os filhos têm de ter o mesmo papel do pai ou mãe. Ter o mesmo papel é repetir história. Nascemos para evoluir e auxiliar na evolução dos outros que estão ao nosso lado.

Uma postura rígida de conceitos, e também preconceitos, pode causar doença. O que é rígido se quebra, não tem mais jeito. Enquanto, o que é flexível se curva por um momento para depois se erguer novamente.

A equação é simples: Ninguém pode se ferir sem antes se ferir primeiro. Portanto, cabe lembrar que toda expectativa está sempre fora da realidade. Ela nunca é o que se espera, ou seja, se idealiza.

Continua amanhã.

3 de abril de 2011

Crítica e Autocrítica - Parte I

Palestra realizada dia 30 de março de 2011, cidade de Petrópolis-RJ


“Crítica é tudo o que decide ou julga (...). É submeter nossos conhecimentos, nossos valores e nossas crenças ao tribunal da razão. Nele, portanto, a razão julga a si mesma.”
André Comte-Sponville


Podemos compreender a crítica e a autocrítica por duas perspectivas: uma positiva, a qual nos faz crescer e ter mais autonomia, e outra negativa, a qual nos faz adoecer.

A positiva:

A autocrítica refere-se à capacidade de uma pessoa fazer a crítica de si mesma. Ela analisa os próprios atos, sua maneira de agir, erros cometidos e possibilidades em corrigi-los. Desse modo, a pessoa tem possibilidade em aprimorar-se adquirindo maior autoconhecimento.

Sem dúvida, conhecer a nós mesmos é um processo difícil, e nunca lograremos a plenitude desse conhecimento, pois estamos sempre em contínuo desenvolvimento, carregando uma grande bagagem do passado rumo a um futuro incerto. O que acreditamos ser certo hoje pode não sê-lo amanhã. Essa é a nossa condição humana. Quanto mais velhos, maior a carga de um passado distante. Contudo, vale a pena a reflexão sincera para descobrirmos potencialidades latentes, pontos fortes e pontos fracos, ter noção do que é melhor para nós e para os outros, e qual caminho seguir no fluir do vento. Os antigos navegantes da Escola de Sagres já indicavam que “nenhum vento é favorável para aquele que não sabe onde quer chegar”.

A negativa:

Pelo fato de as pessoas estarem tão mergulhadas no cotidiano não param para refletir sobre a própria caminhada. Quando o movimento é intenso, é difícil retornar ao centro de si mesmo. Então, a incapacidade de compreensão surge, e o julgamento busca o seu alvo. Os defeitos dos outros são logo observados, sem se dar conta de que o maior incômodo não é o que é visto do lado de fora, e sim o que está dentro de quem vê. Muitas vezes o incômodo é tão grande que a pessoa sente o mal-estar (estar mal no próprio corpo). Surgem as dores de cabeça, prisão de ventre, palpitações incontroláveis, tensões e dores musculares. Com elas, a irritabilidade, ansiedade, intolerância, medo e raiva, tristeza e insegurança. Inicia-se, portanto, a projeção. Elas projetam no outro tudo aquilo que não querem ver nelas mesmas. Quantas vezes esse outro fomos nós? Quantas vezes o outro foi também alvo de nossa intolerância? Todos já passaram por essas experiências.

Muitos buscam saída pela boca, ou comendo e bebendo demais, ou falando mal dos outros; da mãe e do pai, dos amigos e colegas de trabalho, do governo, ou de quem passa por perto. Essa atitude é porque a pessoa busca saída para o seu mal-estar.

                                 O que contamina o homem não é o que entra na boca, mas o que sai da boca, isso é o que contamina o homem. (Mateus 15:11).

O que entra só entra porque quer sair. É uma espécie de bulimia da intolerância consigo mesmo. O cálice está cheio, transbordando. Não há permissão para o descanso necessário. A preocupação se tornou um modo de responsabilidade, ação contínua. A pessoa está corrompida pelo ruído. É preciso ter mais, fazer mais. A única alternativa é acumular. A criança aprende isso desde cedo quando a mãe diz: “Guarde os seus brinquedos para brincar depois. Agora é hora de comer.”. Ela quer brincar, não tem fome. Mas, está na hora de comer, de acumular, de ter mais.

Ao invés de se voltar para o centro, continua-se na periferia, nas bordas da atividade sem reflexão. Está na hora de comer, da obrigação, e não do prazer de brincar. O oleiro para fazer um belo jarro de cerâmica precisa brincar com os dedos, se concentrar em direção ao centro da roda.

continua...